CHICO ORNELLAS

100 anos da Gripe Espanhola

AÇÃO COMUNITÁRIA – Ao final do surto da Gripe Espanhola que grassou no mundo em 1918-1919, os mogianos que atuaram no Hospital de Socorro reuniram-se para esta foto. Sentados, da esquerda para a direita: Álvaro Arouche de Toledo, dr. Deodato Wertheimer, prefeito Gabriel Pereira, José de Souza Franco e Ernesto de Paula. Em segundo plano, no mesmo sentido: Benedito Pereira dos Passos, Estefânia de Oliveira, Maria Paiva, Ignácia da Conceição, Izaura Silva e Justino Alves de Mello. Ao fundo: Sebastiana de Mello, Julita Rodrigues Alves, Ofélia Costa e José Augusto Ferraz. (Acervo Isaac Grinberg).
AÇÃO COMUNITÁRIA – Ao final do surto da Gripe Espanhola que grassou no mundo em 1918-1919, os mogianos que atuaram no Hospital de Socorro reuniram-se para esta foto. Sentados, da esquerda para a direita: Álvaro Arouche de Toledo, dr. Deodato Wertheimer, prefeito Gabriel Pereira, José de Souza Franco e Ernesto de Paula. Em segundo plano, no mesmo sentido: Benedito Pereira dos Passos, Estefânia de Oliveira, Maria Paiva, Ignácia da Conceição, Izaura Silva e Justino Alves de Mello. Ao fundo: Sebastiana de Mello, Julita Rodrigues Alves, Ofélia Costa e José Augusto Ferraz. (Acervo Isaac Grinberg).

Foi editada em 6 de janeiro de 1919. Faz 100 anos. Trata-se de publicação intitulada “Polyanthéa”, editada em 6 de janeiro de 1919 – há 100 anos – como homenagem do povo mogiano ao médico Deodato Wertheimer, pelos serviços prestados durante a epidemia de Gripe Espanhola.

A Gripe Espanhola, que grassou pelo mundo entre 1918 e 1919, foi detectada pela primeira vez nos Estados Unidos. Mas a censura imposta pela guerra de então manteve o tema em sigilo. Até que a surto atingiu a Espanha e esta, não participando do conflito, a tornou pública.

Em Mogi das Cruzes a Gripe Espanhola de 1918-1919 fez dezenas de vítimas; no Brasil foram 300 mil mortes, incluindo Rodrigues Alves (17 de janeiro de 1919), presidente em vias de assumir seu segundo mandato. Por aqui, em apenas uma semana, morreram o então presidente da Câmara Municipal, Francisco de Souza Franco (13 de junho de 1919) e sua filha, Leonor Franco Wertheimer, esposa do médico Deodato e que estava grávida.

Da publicação (“Polyanthéa”), com 28 páginas, extraio artigo escrito pela professora Ermelinda B. Arouche. E o transcrevo com a grafia de origem:

“Vibra unisono em todos os corações desta terra o enthusiasmo, pela manifestação que se prepara ao dr. Deodato, como preito de profunda gratidão ao seu devotamento nessa quadra impiedosa que acabámos de atravessar.

E á nós, esposas e mães, essa homenagem vem falar ao recondito de nossa alma, conquistada pelo medico nessas horas em que, presa de angustias e temores, o viamos junto ao leito onde gemia um ente carissimo.

Quantas vezes no turbilhão de preces que se evolavam a Jesus, associavamos a lembrança do medico pedindo aos bens que nol-o conservasse como Anjo da Guardia! Quantas vezes anciavamos vel-o e ao recebel-o, confiavamos nossas dores intimas! Dessa dedicação e confiança nasceu a conquista de nossas almas!

É a esse moço que em extremos de dedicação sem prescrutar as recompensas que, devemos tambem a nossa homenagem verdadeira. Affastemos i incenso do louvor que muitos saberão queimar com o fogo vivo da gratidão e do enthusiasmo e sejamos humildes como nos cabe o papel no lar, sejamos o amparo de suas ideas, como seremos das de nossos filhos.

– Ha algum tempo, não podendo conter-se ante o quadro de miserias que em sua clina deparava, vendo sacrificada a mulher na sua missão mais nobre e santa, o dr. Deodato lançou a idea magestosa da fundação de uma maternidade.

– É bem viva por certo a lembrança da presteza com que as senhoras mogyanas accorreram ao seu apello; a 2 de Julho de 1917 estava constituida a 1ª Directoria.

– Foi bello vêr essas damas na difficil incumbencia de bater de porta em porta pedindo uma contribuição modesta para manutenção do Hospital; felizmente a alma da mulher mogyana soube corresponder e em breve havia grande numero de sociais e logo mesmo já se socorriam infelizes mães desamparadas da fortuna.

– A quadra premente que atravessamos parece que veiu extender suas azas até á novel quão util instituição, retardando o levantamento desses muros que iriam colher os primeiros vagidos de tantos cidadãos brazileiros!

– A vós mães, que nestes dias de tristeza, considerastes o medico como amigo confiante, venho pedir, não o vosso sacrificio, mas o nosso interesse pela Maternidade “Dr. Deodato”. Uma contribuição modesta, mesmo modestissima junto a um carinho transformando um de vossos vestidos em camisinhas para os bebés, que tanto prazer irá dar ao fundador cujo ideal está em meter ás mãos uma obra de grandiosidade, sem medir os sacrificios que lhe custariam. Si o dr. Deodato fizesse á Mogi a doração do Hospital que cogita teria merito por ter empregado na pratica do Bem o seu dinheiro, mas, atirando-se desarmado, confiante na generosidade do povo e nos seus esforços sem limites, o seu merito é immenso e o seu valor é de um herõe, que não sabe a arena em que vae luctar!

Eil-o entretanto enconvicto que ganhará na lucta; nem um instante esquece seu ideal e é no wagon, no salão, n’uma festa ou na intimidade do seu gabinete que pede uma moeda que sobra ao amigo e que valerá ao amparo de uma pobre mãe.

– Cabe-nos agora patentear-lhe que somos reconhecidas. Corramos ao seu apello; saibamos dispensar os instantes de um crême á uma reunião que nos solicita a Maternidade. Tomémos desde já a agulha para enviar algumas peças mesmo modestas, ao enxoval do pobresinho que espera de nosso auxilio, saibamos enfim, comprehender e valorisar a nossas missas de mãe!

Amor materno! Os mysterios infindos desse amor precisam provar que na quietude do lar, elle não é mesquinho e egoista! Desse amor divino saibamos fazer jorrar em catadupas as fontes da Caridade!…

Vamos presurosas depor nas mãos do dr. Deodato, que comportilhou das nossas dôres e das nossas esperanças, as nossas melhores disposições; esse offerecimento será o melhor mimo que podemos offerecer-lhe, são as flores da nossa gratidão cultivada, pelo amor que nos eleva na sociedade. Oh! mães mogyanas, a Maternidade será um facto e será um padrão de glorias aos nossos sentimentos, si soubermos dizer intima e sinceramente: ‘Precisamos e temos em Mogy das Cruzes uma Maternidade’! Eis a offerta da mulher mogyana!”

Carta a um amigo

Correio secreto, do arco da velha.

Meu caro leitor

Foi domingo. os netos correndo pelo quintal, o genro tentando controlar a brasa da churrasqueira, os sobrinhos torcendo no futebol pela TV, com os consogros retomando a conversa do dia anterior. Perguntei a um dos filhos se sabia o que era “correio secreto” e se, em algum tempo do colegial, teve essa brincadeira na escola. Ela estranhou, disse que nunca ouviu falar; alguém ainda comentou: “Chico, isso é do arco da velha”.

Ante a curiosidade, lembrei-me das antigas carteiras escolares, nada confortáveis, mas por certo duráveis. Em madeira maciça sustentadas por armações de ferro, elas tinham várias fissuras nos encaixes. Era ali que deixávamos bilhetes para correspondentes secretos que os colhiam no período seguinte. Algumas trocas de correspondência duravam o semestre inteiro, outras apenas algumas semanas e muitas não tinham resposta. Há notícias de permutas que acabaram em namoro e até em casamento.

Como o de um casal que hoje, 45 anos de matrimônio e 5 netos, relembra o tempo em que ela, normalista de 16 anos, iniciou uma troca de bilhetes com ele, aluno do Científico, com 18 anos. Ainda aquela em que, no Colégio Des Oiseaux, uma classe foi utilizada por seminaristas. Exclusivamente feminino, o Des Oiseaux era tido como uma das mais severas escolas de São Paulo. Imaginem então, quando as freiras que o dirigiam encontraram os bilhetinhos trocados entre alunas e seminaristas!

Eu próprio, contei no domingo lá em casa, tive algumas incursões por essa brincadeira inofensiva. Houve um semestre, no Instituto de Educação Dr. Washington Luiz em que frequentei, simultaneamente, o curso Clássico à noite e o Normal, pela manhã. Eram salas distintas, então eu deixava, no período noturno, bilhete para uma garota do período matutino. E, no período matutino, um bilhete para um rapaz do curso Clássico da noite. Nestes bilhetes, para o rapaz, identificava-me como uma garota e eles eram escritos por Nanci, minha namorada, para não deixar dúvidas quanto à caligrafia feminina.

Durou semanas o romance proibido com o aluno do Clássico, um nissei grande amigo. Ele nos confidenciava – a mim e ao Bila Affonso – o quanto estava entusiasmado com a perspectiva de conhecer sua correspondente secreta do Curso Normal.

Foi assim por semanas; às vezes a correspondente secreta silenciava e o amigo nissei ficava macambúzio; às vezes ela aflorava com paixão desenfreada e se mostrava uma garota muito avançada para o tempo em que moderno era usar calça Saint Tropez e namorar menina de cabelo Chanel. O amigo endoidecia. O fim disso?

Após algumas semanas e sob o efeito de um improvável ataque adolescente de bom senso, achamos melhor dar por finda a brincadeira. E nenhum de nós se atreveu a revelar a verdade ao amigo. Que se foi para o andar de cima sem saber disto.

Abraços do

Chico

GENTE DE MOGI

FARMACÊUTICO – Houve um tempo, em Mogi, que os práticos de farmácia eram como autoridade acima de qualquer suspeita. Prova-o nosso personagem de hoje, que imperava no botica da Praça Firmina Santana, esquina das ruas Deodato Wertheimer e Senador Dantas. Aqui construiu sua vida e aqui formou os filhos. O primogênito, Candido, mudou-se jovem para Minas Gerais e fez história, como vereador e prefeito, de Brumadinho. O caçula José Mariano trilhou o caminho da ciência, graduou-se e obteve os títulos de mestre e doutor pela Universidade de São Paulo; o pós-doutorado foi buscar na Catholic University Nijmegen (Holanda). Mario ‘Torradinho’ Amabis morreu em outubro de 1983.

O melhor de Mogi

O Largo do Carmo. Reúne, com as igrejas das Ordens 1ª e 3ª, o Teatro Municipal e o casarão na esquina da Rua Dr. Correa – que pertenceu à família de Celestino Bourroul – o maior acervo histórico e arquitetônico da região.

O pior de Mogi

Notícia de abril do ano passado: o Ministério dos Transportes informa que estão prontos os projetos finais para a construção de viadutos sobre a linha férrea na Avenida Nami Jafet e em Jundiapeba.

Ser mogiano é….

Ser mogiano é… ter comprado drops Dulcora na bomboniere do Cine Urupema.

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