ARTIGO

O Salvador está chegando

Pensamentos desconexos se conectam no inconsciente. A gente acha que um não tem nada a ver com o outro, mas tem. Se não tivesse a gente não pensava. Cérebro é como placa de circuito impresso. No passado era moda a poesia desconexa. Influência das drogas alucinógenas. LSD, cocaína, maconha. Beatles, Rolling Stones, Bob Dylan, Alan Ginsberg, Peter Kerouack, Janis Joplin e semelhantes foram mestres nessa arte. Caetano Veloso bolou aquela canção que misturava guerras com notícias de jornais, espaçonaves com Coca-Cola, Claudia Cardinale com a preguiça baianista e a brejeirice macunaímica de um povo que viaja pela vida sem lenço e sem documento.

Foram duas mocinhas vestidas de senhoras que me despertaram essas lembranças. Em pleno domingo de carnaval, quando os ecos da barulhada que vem da Avenida Cívica (que Deus perdoe o cara que deu esse nome para aquela rua) ainda não se dispersaram, as duas meninas, bonitinhas e meigas, simpáticas até á medula, estavam lá, vendendo revistas religiosas e fazendo pregação.

“O Salvador está chegando”, diziam. Foi aí que me bateu na cabeça o quanto nossos pensamentos viajam rápido, pois logo pensei que para a gente acreditar num salvador era preciso primeiro descobrir se existe uma alma para ser salva e, depois dessa descoberta, ter certeza de que ela merece ser salva. As mocinhas eram da seita Testemunhas de Jeová. Tenho simpatia por essa gente desde que descobri que junto com judeus, ciganos e maçons, foram perseguidos pelos nazistas. Logo me veio à cabeça que o nosso presidente, ao invés de estar trabalhando, fica postando cenas pornográficas no Twitter, para dizer ao povo que o carnaval é um glossário de pecados sem perdão. As meninas continuam cantando: ”O Salvador está chegando”. Claro, não é do Lula nem do Messias Bolsonaro que elas estão falando. Um anda pelo país tentando limpar a caca que fez, o outro está em Brasília, brincando de missionário.

João Anatalino é advogado e presidente da Apae


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