EDITORIAL

A arte do possível

“Faz falta, na Mogi de hoje, gente como Minor Harada”

Faz 50 anos: era 1969 e Waldemar Costa Filho estava recém-empossado para o primeiro, dos quatro mandatos de prefeito, que exerceria na cidade. Chegou lá, após aguerrida disputa com o grupo do prefeito Carlos Alberto Lopes, do qual se elegera vice-prefeito, em chapa separada. Fizera uma campanha à base de denúncias e muitas promessas.

Assumiu com estardalhaço: demitiu dezenas de funcionários não concursados e instalou várias comissões sindicantes, simultaneamente se afastava de aliados que lhe formaram fileiras; parecia ter fome de poder. O orçamento municipal era contido, não tinha como cumprir muitas das promessas.

Mas, três ou quatro meses após a posse, veio-lhe a oportunidade: uma visita do governador da época, Roberto de Abreu Sodré, à obra da barragem de Ponte Nova, em Salesópolis.

Lá foi Waldemar com um calhamaço na mão. Na primeira oportunidade, achegou-se do governador e disse-lhe que as escolas daqui estavam em petição de miséria. Waldemar estava nervoso e Sodré de mau humor. O prefeito fez sinal de entregar a papelada, o governador refugou e respondeu: “Isso é problema seu”, de troco, ouviu um “seu também”.

A turma do deixa disso cuidou de colocá-los em cantos separados da mesa. Ao lado de Sodré, um assessor de Waldemar ouviu do governador a observação “ele tem mentalidade de Arnaldo Cerdeira” (deputado do antigo PSP). Correu contar ao prefeito que, alto o bastante para ser ouvido, disparou: “Mentalidade de Arnaldo Cerdeira é a PQP”.

O tempo esquentou, houve quem se dispusesse a dar voz de prisão ao prefeito – era o regime militar pós AI-5, de dezembro de 1968. Passaram-se semanas, passaram meses até que uma comitiva de mogianos, liderada pelo prefeito, foi ao Palácio dos Bandeirantes firmar um acordo para a construção de 200 salas de aula em Mogi das Cruzes. Desse programa saiu boa parte dos nossos mais tradicionais colégios e muitas escolas rurais – estas com sala, secretaria e residência para professores.

Como isso foi possível? Credite-se à conta de um vereador ligado à colônia japonesa, talvez, dos ativistas locais, para quem mais valia o ditado de que “a política é a arte do possível”. Minor Harada costurou a aproximação a partir de sua amizade com Carlos Lacerda, o carioca que tinha identidades várias com Roberto Sodré.

Faz falta, na Mogi de hoje, gente como Minor Harada.

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