A árvore multicolorida de Mauricio Chaer

PARA TODOS Árvore inspirada em obras de artistas como o chinês Chang Dai-chien, que viveu em Mogi, permite que a população consuma arte gratuitamente no caminho entre o centro e César de Souza (Foto: Elton Ishikawa)

Feita de galhos secos de mamona, a obra instalada em uma área alagadiça do Nova Mogilar, é uma atração especial e chama a atenção do público

“Buquês são flores mortas, num lindo arranjo”, é o que diz o rapper Criolo em uma de suas músicas. Ao considerar essa afirmação, torna-se válido dizer que o artista mogiano Mauricio Chaer criou uma espécie de buquê, mas em formato de árvore, com galhos mortos, porém coloridos. Recém-instalada entre o Rio Tietê e o Colégio Mello Dante, no bairro Nova Mogilar, a nova obra de Chaer joga luz sobre a urbanização descontrolada e outras questões com as quais uma cidade grande como Mogi das Cruzes tem de lidar.

Na frente da peça há a presença de outdoors e também uma via de grande circulação de carros. Nos últimos anos, o entorno recebeu empreendimentos e condomínios, alguns dos quais eliminaram a paisagem natural que por ali existia: uma espécie de pântano, com árvores e água. E é este cenário que evidencia o ‘Paraíso na Terra’ de Chaer.

“Não tem como não ser um grito ecológico, mas além disso é um grito da própria arte contemporânea, que praticamente ninguém faz por aqui. Aquele é um local inusitado, que ainda está para ser descoberto. E assim como a arte contemporânea é isolada, ninguém via aquele espaço como possível para fazer isso”, explica o artista.

Segundo o mogiano, esta forma de trabalho que utiliza como pano de fundo a natureza é chamada de Land Art. O que o despertou para tanto é que, sendo morador do Botujuru, Chaer passa com frequência por aquela localidade, e sentia ali uma espécie de divisão entre o ambiente “rural e o urbano”. A obra, portanto, visa conectar os ambientes, mas com seriedade e consciência.

“É uma árvore morta, mas colorida, que representa a mão do homem agindo no meio ambiente. Afinal, como dizia Van Gogh, ‘a arte é o homem adicionado à natureza’”, define o artista, que teve inspirações variadas para a confecção da peça, como o internacionalmente conhecido Chang Dai-chien, que fez de Mogi uma de suas moradas.

PARA TODOS Árvore inspirada em obras de artistas como o chinês Chang Dai-chien, que viveu em Mogi, permite que a população consuma arte gratuitamente no caminho entre o centro e César de Souza (Foto: Elton Ishikawa)

O pintor chinês tinha uma chácara em Taiaçupeba e estava construindo lá um jardim gigante chamado O Jardim das Oito Virtudes, que inspirou a obra “Paraíso na Terra”. Porém, “com a construção da represa naquela região ele teve que interromper os planos, e resolvi homenageá-lo dando este nome à peça”.

Outra das influências é ainda mais profunda: o tríptico (conjunto de três pinturas) ‘O Jardim das Delícias Terrenas’, confeccionado por Hieronymus Bosch em 1504. As telas mostram a criação do mundo dos homens, e sugerem que, em algum momento da evolução, o descontrole e caos tomam conta do plano que conhecemos.

“É um quadro marcante, que até vi pessoalmente no Museu do Prado, na Espanha. Apesar da idade ainda é muito atual, e resolvi juntar estes conceitos com a preocupação de fazer obras públicas e arte urbana”, resume Chaer sobre a escolha de referências.

Se o conceito é tão complexo, a montagem da árvore colorida também não poderia ser simples. Os galhos são de mamona, coletados pelo próprio idealizador, e precisaram ficar secos para absorver a tinta e ostentar as belas cores que fazem brilhar os olhos de quem os vê. Para tanto, foi preciso cerca de dois meses, tempo suficiente para conseguir autorização da Prefeitura no que diz respeito ao local de instalação.

Para levar o “buquê” até lá foi preciso paciência. A primeira ideia de Chaer, fazer uma balsa, acabou não dando certo. Ele tentou também um barco, mas como o mangue é raso, foi uma iniciativa igualmente frustrada. Por fim, com a ajuda de seu assistente, Wilson Sombrero, o jeito foi “levar no braço” mesmo.

Independentemente do trabalho que a ideia possa ter gerado, a preocupação não é exatamente em relação à duração ou manutenção dela. É que para Chaer, assim como o grafite, a arte contemporânea é “efêmera, mas precisa sobreviver”. Afinal, quando expostas em locais públicos as instalações “são positivas para a população, que não precisa entrar em lugar nenhum e nem pagar ingresso para consumi-las”.


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