A caixa do Xê

O show Caixa de Música, de Xê Casanova, no último fim de semana no Teatro Vasques, matou uma curiosidade: como um disco feito quase todo em cima de bases e ruídos eletrônicos soaria ao vivo? A resposta veio já na primeira música. Com um trio de violão, baixo e guitarra sobre bases eletrônicas, o som parece mais pesado, mais cru e visceral do que no disco. Claro. No disco, tudo é milimetricamente tocado, equalizado, produzido. No show os instrumentos ficam mais evidentes, o violão e o baixo aparecem mais e a guitarra é mais ruidosa.Se o som é mais cru e visceral, mais ruidoso do que no disco, isso não retira nada da delicadeza que alguns arranjos têm. Ensina-me a viver é um bom exemplo. Com uma batida lenta, com um violão meio bossa-nova por cima, pontuada por sutis interferências da guitarra, o clima é suave e ameno. Assim vai também Esperando o Amanhã, que inclui um discreto teclado, que dá um charme a mais na música.
Outras canções como O Batuque e Não Abala são mais agitadas, batidas mais fortes, boas para levantar o público. Não Abala ainda tem um riff introdutório de colar na cabeça. Modestamente, porém, reputo a canção Não precisa falar como a melhor ao vivo. É nela, aos meus ouvidos pelo menos, que existe um equilíbrio entre delicadeza e agressividade, além de uma série de contrapontos e reiterações entre letra e música. A música vem numa batida lenta, letra delicada, até que chega o verso anterior ao refrão que diz: silenciosamente vem me amar. Em cima do silenciosamente, a guitarra rompe seu papel discreto que vinha fazendo até então e rasga um acorde alto e distorcido. Nada silencioso, em suma. Aí já se prepara o refrão, mais balançado que o restante da música.  Em outro momento, mais no fim da música, depois do verso não precisa falar, param os instrumentos, ouve-se só a batida eletrônica, como se obedecessem a uma ordem de silêncio da letra. E o que acaba com esse silêncio? O silenciosamente anterior ao refrão, com seu sonoro acorde.
Além das canções, o show foi especial por várias razões. A primeira, óbvia: era o lançamento do disco de Xê Casanova, produzido por Marcelo Yuka, e que teve alguns bons anos de gestação. A segunda: participações especiais de Rui Ponciano, conhecido compositor mogiano, Ras Bernardo, ex-vocalista do Cidade Negra, e Juninho Raiz Brasil, da banda Raiz Brasil. A terceira: uma plateia recheada de amigos do cantor. Uma plateia muito receptiva e ansiosa por ver, enfim, o trabalho de Xê Casanova nos palcos, ao vivo.
Valeu a espera. Valeu a noite.

Cahoni Chufalo é formado em Letras, com pós-graduação em crítica e curadoria de arte. Fez a curadoria das exposições Memória Imprensa, em Ouro Preto e Figuras Recorrentes, em Novo Hamburgo.


Deixe seu comentário