CHICO ORNELLAS

A Capela de Santa Cruz

DEVOÇÃO – A Capela de Santa Cruz, hoje tutelada pelo Instituto Pro + Vida e pela Unai, guarda lembranças de muitas histórias da cidade (foto Marcos Perrin).
DEVOÇÃO – A Capela de Santa Cruz, hoje tutelada pelo Instituto Pro + Vida e pela Unai, guarda lembranças de muitas histórias da cidade (foto Marcos Perrin).

Terra colonizada por carmelitas, nada mais natural que arraigada devoção católica se espraie pelos quatro cantos de Mogi das Cruzes. Uma peculiaridade local são as capelas. Existiam nas casas de antanho, em cômodos improvisados ou em construções específicas. Também espalhadas pela cidade

Pois uma, dentre as mais significativas delas, foi há pouco adotada pelo Instituto Pro + Vida São Sebastião (leia-se padre Vicente Morlini), ao qual se legou os direitos possessórios. Com apoio da Unai – Universidade Aberta à Integração, a Igreja Santa Cruz dos Lava-Pés passou por uma revitalização e lá em cima, onde a Rua Ricardo Vilela se aninha à Avenida Narciso Yague Guimarães, está pronta para preservar valiosos detalhes de nossa história.

Juraci Fernandes de Almeida, que toca a Unai e colabora com a preservação da capela, socorreu-se da arquiteta Ana Sandim para recuperar essa história. E nos passou detalhes.

A Capela Santa Cruz era, no final do século XIX, início do passado, ponto de acolhimento de corpos dos que morriam na Serra do Itapeti. Eles vinham, conduzidos em padiolas ou redes e eram depositados no interior da capela (“não prestava descer corpo em qualquer trecho de estrada” rezava a crença popular). Na capela os corpos eram colocados em caixões cedidos pela Prefeitura e, então, seguiam em procissão para o Cemitério de São Salvador. Uma reta e três quarteirões separaram a capela do cemitério.

O jornal “O Liberal”, que circulou na primeira metade do século passado, noticiou em 1932 o início de uma reforma na capela, qualificando-a como “a mais antiga demonstração de fé erigida pela população de Mogi”.

Carta a um amigo
Memória afetiva

Meu avô contou a meu pai,

que contou a mim,

que conto a meus filhos,

que contarão aos meus netos.

Meu caro leitor

As pessoas nascem, de bebê viram crianças, de crianças viram adolescentes, de adolescentes viram adultos. É assim desde sempre e assim continuará sendo. Seja na velha Roma ou na nova Cingapura; na distante e inóspita aldeia indígena da Amazônia ou na próxima e próspera São Paulo. Também em Mogi das Cruzes.

Isto é, sim, um convite para que o leitor compartilhe com seus familiares e amigos as passagens que marcaram sua trajetória. A sua e de seus ascendentes. A par do jogo lúdico que aproxima pessoas e compartilha lembranças, há o exercício da cidadania, a preservação da memória.

Neste particular, o mogiano que mais trabalhou pela preservação da memória comunitária foi Isaac Grinberg, a quem devemos a gratidão pelas lições recebidas e o conduzir do percurso.

Jornalista por formação, historiador por talento, Isaac Grinberg voltou a Mogi, na década de 1940, a um tempo em que exercia o jornalismo, com sucesso, na principal metrópole – senão a única – do Brasil de então: Rio de Janeiro, a capital da República. Aqui lançou-se ao desafio de dar um jornal à Cidade. Iniciou sua Folha de Mogi com os recursos que a época lhe permitia. Era um panfleto impresso em mimeógrafo. Em pouco tempo, fez do solar da família, na Praça Oswaldo Cruz, a sede do jornal, já então composto em linotipo e impresso em máquina plana.

Isaac legou-nos uma coletânea de mais de 10 livros, desde o pioneiro “História de Mogi das Cruzes”, lançado lá nos idos dos 60 e ainda hoje a principal fonte de pesquisa de Mogi das Cruzes. A ele seguiu-se “Mogi das Cruzes de Antigamente”, outros abordando a história da Justiça em Mogi, seu folclore, a polêmica em torno do fundador (Braz Cubas ou Gaspar Vaz?) e o primoroso “Memória Fotográfica de Mogi das Cruzes”.

A par dos incríveis dados históricos que colheu e nos transmitiu, Isaac cuidou também de preservar sua história oral, em livros que relatam passagens do cotidiano. Como é “Mogi das Cruzes de Antigamente”, cuja 2ª edição foi lançada em 1995 e no qual reuniu inúmeros ‘causos’.

Um deles é a passagem de 1923 em que rapazes traquinas decidiram divulgar o boato de que o dr. Deodato Wertheimer, ilustre médico e líder político local, havia morrido. Também a epidemia de varíola que grassou por aqui em 1855 e levou a Câmara Municipal impor regras de um verdadeiro estado de sítio, para obrigar a população local a hábitos de rígida higiene.

Quem vê Mogi hoje com seus 400 mil habitantes e milhares de veículos a atravancarem ruas em trânsito sem ordem, sequer pode imaginar que, em 1835, não era exceção a prática de tiro ao alvo em ruas da Cidade, com cerca de 6 mil habitantes e tráfego de charretes e carroças em absoluto isolamento. Isso também nos conta Isaac Grinberg.

Fora personagens importantes para a comunidade, que acabaram esquecidos. Por quê? Simples: pela falta de quem contasse suas vidas.

Como Francisco de Mello e Souza. Quem? Sim, o Padre Souzinha. Ele era um caipira nascido na Serra do Itapeti e que passou a morar na Cidade, aos 12 anos, ainda analfabeto. Veio para auxiliar Padre João nas tarefas de pároco de Santana. Era seu acólito e, sob tutela do vigário, estudou com afinco. Três anos depois, Padre João o enviou para o Seminário em São Paulo. Teve desempenho de destaque, a ponto de ser escolhido, na turma, para uma bolsa em Roma. Foi para lá, voltou vigário em Santo Amaro, virou pároco da Consolação (ele construiu a Igreja da Consolação) e mudou-se, 12 anos depois, para Vitória no Espírito Santo. Em seguida para o Rio de Janeiro, como secretário particular do cardeal Sebastião Leme.

Divertida mesmo é a história dos três únicos presos que, em meados da primeira metade do século passado, havia em Itaquaquecetuba, então distrito de Mogi. Dois deles recolhidos em uma cela, decidiram fugir. Abriram um buraco na parede frágil e saíram folgadamente. Haviam caminhado uns 500 metros quando se lembraram do terceiro preso, na única outra cela da cadeia. “Não é justo, vamos lá soltá-lo”. E foram, fizeram outro buraco, soltaram o amigo e seguiram, abraçados, comemorar no primeiro bar que encontraram.

Abraços do Chico

Meu avô contou a meu pai,

que contou a mim,

que conto a meus filhos,

que contarão aos meus netos.

FLAGRANTE DO SÉCULO XX
NUNCA SE MUDOU – Desde que nasceu, e hoje já casado, com filhos e netos, Alex Ramos nunca se mudou de casa, viveu sempre na Rua Afonso Pena. Construída há 82 anos, foi entregue ao proprietário no dia 15 de maio de 1937, com benção do vigário padre Cícero de Revoredo. Alex guarda, com carinho, o convite para entrega da residência e ainda hoje ri, ao reler o detalhe de que os construtores ofereceriam, “aos seus convidados, um copo de chopp”. Um único “cópo de chopps” promete o convite.

GENTE DE MOGI
URUPEMA – Esta foto é na gerência do Cine Urupema, meados da década de 1960. À esquerda, o eterno gerente Odilon Mello Freire (ao lado de Walter ‘Kazis’ Monteiro de Castro e de Celso Barreiros). Amigo de meu pai, Odilon me permitia entrar por aí sem pagar ingresso. Com isso, garantia o Dulcora (‘embalado um a um’) comprado na bomboniere e oferecido à namorada.

O melhor de Mogi

“Brasílio Marques, Vida e Obra”, é o título do livro de Auro Malaquias dos Santos, lançado esta semana no Centro Cultura de Mogi. Conta história de importante personagem da nossa vida comunitária.

O pior de Mogi

Com raras, raríssimas exceções, não há um escrito ou falado de político local que não ofenda o vernáculo. Há que cuidar melhor do trato com a língua portuguesa, no mínimo em respeito a quem os sustenta.

Ser mogiano é….

Ser mogiano é… gostar dos doces cristalizados, que fazem parte das melhores lembranças de infância passada por aqui.