ARTIGO

A degradação das política

Gaudêncio Torquato
Twitter@gaudtorquato

A política desceu ao fundo do poço. Parcela ponderável da representação caiu nas malhas da Lava Jato. Elegemos novos quadros para o Senado e Câmara, despejando tradicionais nomes  das cúpulas côncava e convexa. Mas persiste a dúvida: os novos nomes representam uma nova política?

Os sinais não são animadores. A base do governo, em formação, mostra que, sem participar da administração federal, não fincará pé em sua defesa. Emerge o dilema: como pode o país exibir melhoria de vida da população – escolaridade, distribuição de renda, Índice de Desenvolvimento Humano – quando a qualidade política deixa a desejar?

Para Norberto Bobbio, o valor central da democracia representativa é o papel do “quem”: o parlamentar deve ser fiduciário e não delegado; quanto ao “que” (fazer), o fiduciário deve representar demandas sociais, obedecendo ao eleitor e não interesses particulares.

Aqui, ajuntamentos se multiplicam com foco em cargos no governo, por entenderem o mandato como domínio pessoal. Esses tipos integram o que se chama de “baixo clero”, mais sensível a barganhas. Não se pretende dizer que os cardeais do “alto clero” são puros. Dinarte Mariz, estrela do Senado nos tempos de chumbo, dizia: “todo homem tem seu preço e eu sei o preço de cada um”, referindo-se ao indefectível ao jogo de recompensas, traço do caráter político.

O rebaixamento se reforça com a substituição do paradigma clássico da democracia representativa – a promoção da cidadania – pelo parâmetro de uma “democracia funcional”, essa que abriga interesses de grupos especializados da sociedade pós-industrial. Cientistas políticos a definem como “tecnodemocracia”, eis que é amparada em organizações complexas, formando um triângulo: o sistema político, a alta administração e os círculos de negócios. (A Lava Jato fisgou representantes dessa tríade).

O novo parlamentar privilegia o próprio conjunto, livre de compromissos mais amplos. O voto da base da pirâmide é usado por atores sem doutrina e mais sensíveis ao balcão da política. A degradação ganha volume, ainda mais diante do poder imperial do Executivo, com sua caneta cheia de tinta, que a usa para ceder cargos e espaço na administração. O cambalacho se expande. Não surpreende que perfis canhestros dominem o Parlamento. Democracia claudicante custa caro.

A esperança é que o Brasil pós-Lava Jato encontre o fio da racionalidade e os mandatários iniciem uma nova caminhada, usando sabão e esponja para limpar a lama que inundou o Congresso.

Gaudêncio Torquato é jornalista e professor titular da USP