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A dura rotina das mães na Apae de Mogi

Mães ficam à espera das crianças durante o atendimento. (Foto: Eisner Soares)
ESPERA Mães permanecem sob as árvores, enquanto aguardam o término do atendimento a seus filhos deficientes, pelos especialistas da Apae de Mogi das Cruzes. (Foto: Eisner Soares)

A dona de casa Silvana Cristina Aquino da Silva, moradora de César de Souza, há 10 anos, passa boa parte de suas tardes em pé, nas quadras próximas à Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais de Mogi das Cruzes (Apae), enfrentando chuva e sol. Ela divide essa rotina estressante com outras mães que levam seus filhos para a instituição todos os dias. Chegam pouco antes do horário da entrada da escola, às 13 horas, e ficam lá até às 17 horas, quando os alunos são liberados para voltar para casa. Há ainda os pais que enfrentam dificuldades de acessibilidade para levar seus filhos cadeirantes até a entidade.

As mães que ficam plantadas esperando seus filhos não têm condições financeiras para arcar com as passagens de ônibus e fazer o caminho de volta para casa e depois retornar, no horário de saída de seus filhos. Esse benefício já foi solicitado diversas vezes pelas famílias. Elas chegaram a encaminhar dois abaixo-assinados para Prefeitura e às próprias empresas, sem nenhum resultado. Também buscaram apoio dos vereadores da cidade, que tiveram o pedido negado por parte das concessionárias de transportes coletivo da cidade, mesmo sendo beneficiadas com a isenção do pagamento de ISS. Só têm esse direito quando estão acompanhando a pessoa com deficiência.

“Isso é um absurdo. Já pedimos várias vezes a liberação do passe para voltarmos para casa, mas não conseguimos, porque a empresa não aprova. Imagine ficar a tarde inteira em pé, sem fazer nada, quando poderia aproveitar esse tempo para produzir alguma coisa e cuidar das coisas em casa”, lamenta a Silvana, contabilizando o tempo perdido nesse período em que filha Bruna, de 16 anos, com problemas neurológicos, permanece na Apae.

O mesmo acontece com Michele Amanda de Campos, moradora de Taiçupeba. Ela tem essa rotina há menos tempo, cerca de um ano, mas sabe que ainda vai enfrentar esse problema por muito tempo para manter na Apae o filho autista Edward, de 7 anos. Para tentar reduzir o estresse e tornar essa rotina suportável, conta que os pais se reúnem, buscam abrigo embaixo de algumas árvores, onde ficam conversando e tentando se distrair para passar o tempo.

“A convivência é tão próxima que as mães se tornam amigas”, diz Valquiria Aparecida dos Santos, de Varinhas, que há oito anos mantém essa rotina para garantir que filha Maria Eduarda, de 14 anos, diagnosticada com epilepsia e outros problemas, possa frequentar a Apae. Ela disse que todos os dias dividem alegrias e tristezas e conversam sobre todos os assuntos. Conta que o grupo tenta manter uma boa convivência para reduzir o estresse, tanto que na última sexta-feira, elas fizeram até a brincadeira do ‘amigo secreto’ para trocar os presentes de Natal.

Outro integrante desse grupo é Cristofer Kendi da Silva Macedo, morador do Parque Olímpico. Porém, isso só acontece às sextas-feiras, quando leva o irmão Jefferson, autista, para passar por avaliação médica semanal. Há pouco tempo ele assumiu essa função que, por mais de 10 anos foi responsabilidade da mãe. Para tentar amenizar a situação, sugere que a própria Apae ofereça um espaço, e disponibilize uma sala para evitar esse constrangimento para as mães.

A Câmara de Mogi já se pronunciou diversas vezes sobre a necessidade de conceder as passagens extras as mães. O vereador Protássio Nogueira (PSD) disse que vai retomar esse debate. Ele também faz críticas àss obras de acessibilidade feitas no entorno na instituição, que na opinião dele, não atenderam todas as necessidades das pessoas com deficiência, especialmente os cadeirantes.

Com relação à gratuidade no transporte coletivo, a Secretaria Municipal de Transportes informa que a legislação municipal estabelece a gratuidade para o acompanhante da pessoa com deficiência em situações específicas e quando o acompanhante estiver junto com o passageiro. A SMT explica que conhece a demanda deste grupo de mães de alunos da Apae e vem buscando alternativas para a resolução. Informa ainda que atualmente, são 4.299 pessoas com deficiência com direito a acompanhantes cadastrados no sistema de transporte coletivo e com cartões ativos. Eles são responsáveis por cerca de 144 mil viagens mensais nos ônibus do sistema municipal.

Por fim, a SMT lembra que a isenção do ISS em vigor em Mogi das Cruzes desde 2013 representa uma diminuição no valor geral do cálculo da tarifa, uma vez que o valor que seria pago de ISS não entra nos custos das empresas, possibilitando que valor permaneça até mais barato do que seria caso o ISS fosse cobrado.

Deficiente ainda tem dificuldade de acesso

Os problemas de acessibilidade no entorno da Apae não foram totalmente resolvidos com as obras realizados pela Prefeitura, que só contemplaram os acessos pelas ruas Joaquim Fabiano de Melo e Carmem de Moura Santos. A reportagem de O Diário foi até o local e observou que as mães que chegam pela rua Ipiranga com seus filhos cadeirantes são obrigadas a desviar dos postes que ainda permanecem no meio da calçada, obstruindo a passagem.

“Moro perto, venho a pé e tenho que andar pela rua em muitos trechos, mas o pior é quando chega na rua Ipiranga, uma rua muito movimentada, perigosa. Não consigo empurrar a cadeira pela calçada e tenho que usar a rua mesmo”, relata a avó que leva o neto diariamente para a Apae, que preferiu não se identificar para não se expor.

O presidente da instituição, João Montes alega que apesar de ainda existirem alguns problemas, a situação melhorou muito depois das obras feitas, este ano, pela Prefeitura, nas proximidades. Ele alega que atualmente a maioria leva os filhos utilizando ônibus, vans e outros transportes, que têm pontos de desembarque no trecho onde as calçadas foram alargadas. Disse ainda que foi informado sobre um plano para ampliar mais a acessibilidade na cidade.

A Prefeitura confirma que está trabalhando para a melhorar a acessibilidade e circulação de pessoas na região próxima à Apae, através de um projeto elaborado pela Secretaria Municipal de Transportes (SMT) para a criação de rotas acessíveis ligando a região da Apae com pontos de interesse, como o Terminal Central e a Estação Mogi das Cruzes da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM).

No primeiro semestre deste ano, a Prefeitura explica que centralizou as obras nas ruas Joaquim Fabiano de Melo e Carmem de Moura Santos, com o alargamento das calçadas e outras intervenções, em um investimento de R$ 323 mil. Esclarece ainda que atualmente, a SMT está desenvolvendo projeto para ampliar o número de rampas de acessibilidade em toda a cidade.

A SMT informa ainda que existem projetos para a criação de um caminho acessível entre a região da Apae com pontos de interesse, como o Terminal Central e a Estação Mogi das Cruzes da CPTM. “No entanto, a execução depende da obtenção de recursos e da ampliação da discussão sobre os impactos das medidas no sistema viário da região central”, acrescenta.

Segundo a pasta, no caso específico da rua Ipiranga, no trecho próximo à Apae a via é estreita e de grande fluxo, o que dificulta intervenções.


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