ARTIGO

A era da desinformação

Perseu Gentil Negrão

Nasci e fui criado em uma família de classe média (papai era advogado e mamãe professora, mas não exercia). A maior preocupação de meus pais era a educação dos filhos. Papai dizia que nós podíamos pedir para comprar qualquer livro. Assim, na minha casa havia várias enciclopédias (“Tesouro da Juventude”, “Barsa” e “Delta Larousse”). Papai assinava o “Jornal Diário de São Paulo” e as revistas “Cruzeiro” e “Manchete”. Mensalmente comprava a “Seleções Reader’s Digest”. Na sala de jantar da minha casa havia um grande rádio (com válvulas), no qual papai ouvia os noticiários. Depois, chegou a televisão (a antena tinha mais de 20 metros de altura – com o sinal fraco, o trambolho era necessário).

Herdei o hábito e tento manter-me informado. Assino dois jornais, compro revistas, assisto aos noticiários na televisão, ouço notícias no rádio do carro e, durante ao trabalho, dou uma “espiada” na internet.

No entanto, de uns tempos para cá sinto-me cada vez mais desinformado e confuso. A grande mídia noticia apenas aquilo que é do seu interesse. Não há notícias sem isenção. Tudo é tendencioso. É uma grande mentirada. E as redes sociais então… As pessoas, por paixões políticas, publicam quaisquer coisas. Basta dar uma olhada no “Facebook” para constatar o lado político do usuário. Muitas vezes, meus dedos coçam com vontade de comentar as postagens, mas controlo-me para não ser indelicado com os amigos. E os vídeos do “Zap” (um horror – já silenciei vários amigos).

É incrível o fenômeno que ocorreu. Com o crescimento da internet e dos “smartphones” a informação ficou ao alcance de todos. Porém, a desinformação tomou conta de tudo.

Confesso que estou “de saco cheio”. Estou pensando em cancelar as assinaturas dos jornais e parar de assistir noticiários. Tenho ímpetos de perder a compostura com amigos que postam mentiras nas redes sociais.

Ah! Mas que sujeito chato sou eu. Que não acha nada engraçado. Macaco, praia, carro. Jornal, tobogã. Eu acho tudo isso um saco. É você olhar no espelho. Se sentir. Um grandessíssimo idiota”. Saber que é humano. Ridículo, limitado. Que só usa dez por cento. De sua cabeça animal. E você ainda acredita. Que é um doutor. Padre ou policial. Que está contribuindo. Com sua parte. Para o nosso belo. Quadro social” (Paulo Coelho e Raul Seixas).

Perseu Gentil Negrão é procurador de Justiça do Ministério Público de São Paujlo