JULIANA GUEDES

A escola deve acolher, compreender e dialogar

Juliana Guedes, secretária de Educação de Mogi. (Foto: Eisner Soares)
Juliana Guedes, secretária de Educação de Mogi. (Foto: Eisner Soares)

A secretária municipal de Educação, Juliana Guedes, começou a trabalhar no ensino público em 2003. Em 16 anos de experiência na área, além de cursar Letras, Pedagogia, fazer uma especialização em supervisão escolar e concluir um mestrado, pôde perceber a importância da rede municipal de ensino, que hoje atende 47 mil alunos. Nesta entrevista, a gestora faz um panorama dos principais projetos da Pasta, além de revelar os desafios e dificuldades que Mogi das Cruzes enfrenta.

Como é estar a frente de uma Pasta de suma importância para a cidade, já que trata da formação de cidadãos?

Primeiro, é uma tarefa de grande responsabilidade, que exige que se tenha um conhecimento não somente daquilo que nos cerca mas muito e talvez prioritariamente do papel da cidade e das pessoas no mundo. Hoje não somos só cidadãos de Mogi, mas sim do mundo, e nas escolas é preciso que as crianças tenham igualdade. Ou seja, o filho do rico, do pobre, aquele que estuda na escola privada ou na pública, tem que ter as mesmas oportunidades. É passado o tempo de se fazer algo em relação a isso.

Como fazer isso? Facilitando o acesso ao conhecimento?

Não só acesso ao conhecimento, mas ao tratamento das informações. É preciso que a gente mostre que existe determinado assunto, mas é importante munir nossos alunos de certa clareza sobre o que se deve explorar. É fácil buscar no Google, mas a resposta virá sem filtros, e é preciso saber entender e compreender as coisas. Não se faz nada disso se não houver escolas conectadas, se não ofertar equipamentos de informática para 100% dos alunos, se não ofertar e garantir 100% dos dias letivos e o acesso à escola.

Qual o principal desafio da Secretaria de Educação?

A equalização da educação com qualidade. A escola precisa ser humana e oferecer oportunidades, colaboração e união. Ou seja, para além dos apetrechos tecnológicos, ela deve acolher. Em março, quando aconteceu o atentado na Escola Estadual Professor Raul Brasil, município de Suzano, no estado de São Paulo, fui questionada sobre o que Mogi iria fazer. Na verdade, continuamos a investir no ser humano, e tomamos algumas medidas preventivas. A primeira é acolher, depois intensificar a formação para todos os funcionários das escolas, e depois deixar claro para todos os objetivos e metas da Pasta.

Quais são essas metas?

Atualmente, a alfabetização das crianças com seis anos de idade e a melhoria do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), porque entendemos que tem acesso a menos oportunidades aqueles que não sabem ler e escrever.

E quais são as dificuldades enfrentadas pelo setor?

A principal dificuldade é a distância que a família impõe na escola, que precisa se posicionar para ser respeitada. É preciso tato para acolher, compreender e dialogar de maneira não conflituosa com a comunidade. Não há aluno indisciplinado que tenha tido boa base familiar, que tenha tido bons exemplos em casa. Entendemos que educar é abraçar várias causas, e sem dúvida nenhuma as relações nas escolas espelham as relações da sociedade, que está doente, com muitos medos, angústias e sentimentos repulsivos.

Existem questões relacionadas à falta de segurança e presença de drogas nas escolas?

Sim, por isso além do Proerd iniciamos neste ano o projeto Anjos da Guarda, que trata questões de violências domésticas, sexuais, bullying e drogas. Trata-se de um momento em que a Guarda Municipal conversa com os alunos, o que tem dado muitos bons frutos. As crianças se sentem à vontade para contar aos guardas sobre o que acontece na vida delas, e com isso temos encaminhado mais casos de violência doméstica e sexual ao Conselho Tutelar.

Quantos alunos são atendidos hoje pela rede municipal?

Estamos chegando nos 47 mil, divididos na educação infantil (creche e pré-escola), e o ciclo I do ensino fundamental (do 1º ao 5º anos). Temos uma única escola, o Cempre Benedito Ferreira Lopes, na Vila Lavínia, que tem turmas do fundamental ciclo II (do 6º ao 9º anos). Estamos incorporando cada vez mais alunos no processo de municipalização, e para finalizarmos a demanda do ciclo I faltam poucos, cerca de 1 mil, o que deve acontecer até o início de 2020.

Há previsão para municipalização de outros ciclos?

Por lei, vencida toda a demanda municipal do ciclo I existe uma tendência que se absorva o ciclo II, o que deve acontecer a longo prazo. As políticas estaduais vêm denotando a necessidade do Governo repassar isso para a rede municipal. Demanda nós temos o tempo todo, mas a questão é: o quanto de ajuste fiscal precisaríamos para manter mais escolas deste nível? É aí que digo que Município e Estado precisam conversar melhor. E em todo o país esta conversa tem sido bem difícil, porque o que é gasto na escola municipal é muito superior ao que é gasto na escola estadual. Para viabilizar, precisaríamos de um subsídio melhor.

Qual a previsão de entrega de escolas até o final do mandato do atual prefeito Marcus Melo (PSDB)?

Amanhã vamos inaugurar duas creches em Jundiapeba, e na semana que vem será a vez de uma no Mogi Moderno. Não tenho as datas ainda, mas até o final do ano devemos entregar uma da Vila Natal e do Jardim Universo. A ideia é entregarmos, até a conclusão do mandato Marcus Melo, mais 15 creches e um Centro Municipal de Programas Educacionais (Cempre), isso sem falar das reformas nas escolas, como uma que estamos tocando na Escola Municipal Benedito Estelita Mello, no Socorro. Aguardamos ainda uma licença ambiental e alguns documentos para que iniciemos a construção de uma nova escola no Jardim Margarida e outra em Taiaçupeba. Estamos iniciando também estudos para as regiões de Biritiba Ussu e Quatinga.

Que balanço é possível fazer do ensino musical da cidade, que abriga o projeto ‘Pequenos Músicos… Primeiros Acordes’?

A música está ligada com a mesma área do cérebro que trata do raciocínio lógico matemático. É sabido que ela auxilia não só para o raciocínio mas para outras questões, como o respeito de diferenças e o entendimento do papel de cada um dentro de um grupo, como se organizar e cooperar. Nosso principal projeto não é somente individual, é de bandas. Inclusive o ‘Pequenos Músicos… Primeiros Acordes’ tem novidade, já que mais de mil crianças já participam das aulas de coral. Aliás temos exemplos de sucesso em competições, como a Banda Sinfônica do Cempre Professor José Limongi Sobrinho, no Botujuru, que decidiu participar e saiu vencedora de um concurso nacional.

E como você avalia o ensino profissionalizante local?

O Centro Municipal de Apoio à Educação de Jovens e Adultos (Crescer) é pontual, uma “injeçção de ânimo” para a pessoa que se vê em mudança de trabalho e precisa se reencontrar. Com isso, percebemos mais procura por vagas de emprego, e os próprios dados do Emprega Mogi revelam que os empregadores reconhecem os cursos profissionalizantes do programa. E o que temos de novidade é a Escola de Empreendedorismo e Inovação, que oferece cursos profissionalizantes com carga horária maior, mas que está aberto para qualquer parceria público-privada que venha a acontecer.

O que dizer da Escola Ambiental?

Eminentemente a Escola Ambiental é a que tem o maior número de parcerias da Secretara de Educação. Atualmente ela tem o viés de formação dos professores, e o que queremos para o ano que vem é que adquira caráter de formação para os alunos, que hoje já aprendem muito com os projetos de educação alimentar e desperdício. Para tanto, nesta semana apresentaremos ao prefeito uma proposta de reformulação do programa para 2020.

Existem outros projetos em curso?

Sim. Procuramos utilizar o transporte escolar para levar nossas crianças para experiências na cidade, como parques, museus e exposições, para que se sintam cidadãos mogianos; há um projeto de educação financeira que está na rede desde o ano passado, que visa a formação dos professores e que deve dialogar com os alunos a partir do ano que vem; temos um método digital em formato de jogo, desenvolvido pelos servidores daqui, em que o estudante aprende brincando; e todos os pais que têm filhos de 3, 4 ou 5 anos matriculados na educação infantil municipal estão recebendo um material chamado Interagir, Brincar e Aprender (IBA), um kit de livros didáticos criado pelos nossos professores que objetivam a educação infantil e mesclam atividades no formato impresso com o digital.