ARTIGO

A faca sorocabana

Perseu Gentil Negrão

Na semana passada meu sobrinho Sérgio Negrão enviou-me um pacote, que continha um embrulho e uma carta. Destaco um trecho: “Apesar do tempo não voltar atrás fisicamente, sinto constantemente que o Rubão e a vovó (não posso falar dela, meu ponto fraco) gostaria da família Negrão mais próxima… Passado o desabafo, te envio essa faca sorocabana, muito rara (pesquise), que o vovô me deu há mais de 28 anos junto com sua caixa de pesca, tenho outras coisas guardadas, mas apesar de pescar às vezes, não sou de andar com ‘traías’ e acho que ela será mais útil em suas pescarias e fará um bem danado para o seu coração…”.

Avidamente, “estourei” o papel bolha que envolvia a faca e pude sentir a “energia” de papai no velho cabo da “Sorocabana”. Uma lágrima “atrevida” caiu no gume da faca. Depois, lembrei das pescarias com papai e que a velha faca estava sempre em sua caixa de pesca.

Com dificuldade para ler (olhos marejados), encontrei a Crônica “Escaninho” (escrita por papai): “Juntei uns “cobres” e comprei um escaninho… O meu é um armário magrinho, de madeira, com um metro e sessenta centímetros de altura, contendo nove gavetas, fechado por uma porta de tabuinhas móveis, que se recolhem verticalmente. Só existe uma chave que, avaramente, está em meu poder. Esse é o mundo de minha privacidade, onde ninguém entra, mexe ou toma posse. É o meu recanto, meu esconderijo, meu lugar oculto. Em seguida, a descrição do conteúdo das gavetas. “Na quinta estão as facas, pedras de amolar, lima e assentador de açougueiro.” Era ali que ele guardava sua “velha sorocabana”. No final: “Em resumo. Nesse esconderijo estão meus tesouros, meus sonhos, minhas saudades. Algum dia, quando vencer meu tempo, um dos filhos vai abrir meu escaninho (a autorização já está dada). Certamente pensará: o velho gostava de guardar bem suas coisas; que belos revólveres, quantos isqueiros, que mundão de papéis; olha essas fotos… Talvez ele chore um pouco, como estou fazendo neste momento, porque o amor entre nós sempre foi muito grande.

Como escreveu o Sérgio: “a faca fez um bem danado para o meu coração”. Pois, “Um pouco de carinho, um nada de amor, já me bastam…” (Rubens Sudário Negrão – do livro A Estrada da Vida – crônica Encontro).

A faca será guardada no meu armário e “algum dia, quando vencer meu tempo”, uma das minhas filhas “vai abrir meu escaninho… Certamente pensará: o velho gostava de guardar bem suas coisas; que belos revólveres, quantos isqueiros, que mundão de papéis; olha essas fotos… Talvez chore um pouco, como eu…

Perseu Gentil Negrão é procurador de Justiça do Ministério Público de São Paulo