ARTIGO

A falácia ideológica

João Anatalino Rodrigues

Dizem que é mais fácil trocar de sexo do que de time de futebol. De fato, já vi gente mudando de sexo, religião, marido, mulher, enfim, de tudo. De partido político então nem se fala. Não digo de ideologia política, porque isso poucos brasileiros têm. Aliás, a maioria nem sabe o que é isso. Muitos se dizem de direita ou de esquerda, mas na verdade são prosélitos de algum político que milita, temporariamente, numa corrente ou outra. No momento os brasileiros estão divididos entre a falsa esquerda do condenado Lula e a ignorância direitista do atrapalhado mito Bolsonaro. Não é de ideologia que se fala, mas de culto à personalidades.

Ideologia é outra coisa. Pressupõe-se que a pessoa que tem uma, esteja de posse de um arcabouço filosófico que justifique o conjunto de pensamentos que ela tem a respeito de um sistema sócio-político, que ela pensa ser o melhor. Mas se perguntarmos à maioria dos lulo-petistas ou aos apoiadores do olavismo-bolsonário, dificilmente eles terão justificativas plausíveis do porquê apóiam um ou outro grupo.

A política e os políticos brasileiros nunca tiveram ideologia. Lula, por exemplo, só conseguiu passar incólume pelos seus dois mandatos porque se apoiou no chamado Centrão. Dilma dançou porque não soube fazer esse jogo de poder. Collor igualmente. Bolsonaro percebeu que ia dançar logo se continuasse hostilizando as demais forças políticas do país. Por isso começou a se aproximar dos membros do Centrão para salvar o seu mandato.

Perguntei outro dia a um vereador, amigo meu, se de fato ele era comunista. Ele havia sido eleito pelo PCB. Fiz essa pergunta por que eu não conseguia vê-lo defendendo teses marxistas. Ele olhou de soslaio para mim e sorriu, um sorriso ambíguo e revelador, que queria dizer: comunista eu? Que bicho é esse?

Agora soube que ele está mudando de partido. Está saindo do PCB e indo para o PL, ou PSD, sei lá. No futebol um corintiano jamais se tornaria palmeirense ou vice versa. Mas na política tudo é diferente.

Isso reflete entre os eleitores. As pessoas brigam pelo que os políticos dizem e não pelas suas ideias. Populismo e messianismo são a ideologia do momento. E enquanto estiverem guiando a vontade do nosso povo, vai ser difícil ver alguma luz no fim desse túnel.

João Anatalino Rodrigues é escritor e presidente da Apae de Mogi das Cruzes


Deixe seu comentário