EDITORIAL

A festa na tabacaria

Vamos supor que não houvesse uma pandemia em curso, com o aumento do número de mortos e de pessoas infectadas e a falta de respostas sobre como cuidar dos grupos de risco em todo o mundo.

Vamos supor que essa fosse uma semana do início de março, quando ainda não havia um decreto estadual que estabeleceu o fechamento de estabelecimentos comerciais como uma maneira de conter o contágio, reduzir o total de doentes e tentar blindar o colapso da rede hospitalar pública e privada. Mesmo assim, o que aconteceu é inaceitável.

Quando incomodam a vizinhança, com os decibéis acima do permitido ou a venda de bebidas alcoólicas e cigarros a menores, o que proprietários de bares, lanchonetes, casas de espetáculos e tabacarias, como a fechada na manhã de quinta-feira, em Mogi das Cruzes, fazem é um acinte à ordem pública.

Agora, durante a pandemia, uma grave crise de saúde pública, é muito difícil qualificar o que essas infrações – que acontecem ordinariamente, bem sabemos disso – realmente significam.

Os relatos dos guardas municipais e do prefeito Marcus Melo, que acompanhou pessoalmente a fiscalização, mostram os abusos e a irresponsabilidade dos proprietários e dos frequentadores que estavam na festa, atormentando os vizinhos.

Para dizer o mínimo, aquilo mais parecia uma balada macabra, com jovens sem qualquer proteção, vulneráveis não apenas ao contágio pelo novo coronavírus.

Detalhe: eles pareciam não ter qualquer grau de entendimento sobre o que é ordem pública. Na chegada dos guardas, alguns dos presentes, começaram a recolher as bebidas, como se aquilo não fosse uma grave violação à lei, à quarentena.

Multas foram aplicadas, inclusive aos participantes que estavam sem máscara. Mas o desplante da cena nos leva a refletir sobre a incompreensão de uma parte da população, não apenas sobre a a Covid-19, mas sobre o que é autoridade, o que é direito, o que é dever, o que é cidadania.

Ali estavam jovens completamente alheios ao mundo real. E esse é um traço dramático sobre questões atuais: que mundo estamos entregando às novas gerações? Pais e responsáveis por esses jovens, onde estão? O que pensam? E o estado, onde erra e onde precisa acertar, para estabelecer um diálogo franco e transparente sobre as posturas e normas públicas, que precisam ser seguidas, com ou sem pandemia?


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