CHICO ORNELLAS

A história de Cida

COM A FAMÍLIA – Cida, de pé, é a segunda garota da direita para a esquerda, de braços com a prima Doda. Na foto ainda estão seu pai, Deodato Wertheimer e a madrasta, Maria Amália de Vasconcellos.
COM A FAMÍLIA – Cida, de pé, é a segunda garota da direita para a esquerda, de braços com a prima Doda. Na foto ainda estão seu pai, Deodato Wertheimer e a madrasta, Maria Amália de Vasconcellos.

Prima de minha mãe e um ano mais velha do que ela, Cida sempre foi uma mulher adiante do seu tempo. Convivemos muito. Apesar da diferença de idade, fomos amigos. Divertia-me com suas lembranças, quando ela insistia em dizer que foi uma das primeiras pessoas a me visitar, ainda no berçário da Maternidade São Paulo, na Rua Frei Caneca. “Não me lembro de ter visto recém-nascido mais bonito, por certo para compensar a feiura da maioridade”, repetia Cida em cada encontro. Seja em minha casa de Mogi, no nosso apartamento de São Paulo ou no seu próprio apartamento, na Praça Buenos Aires.

O estilo de Cida deve ter sido forjado pelas trilhas que a vida lhe aplicou. Ficou órfã de mãe aos quatro anos de idade. Leonor, sua mãe, tinha 28 anos quando morreu, em 25 de junho de 1919, vítima de pneumonia dupla na segunda onda da Gripe Espanhola. O atestado de óbito Nonô (apelido de família), passado em Mogi das Cruzes pelo médico Celestino Bourroul, foi lançado às folhas 151 do livro do Cartório de Registro Civil de Mogi e, pelo registro, seu viúvo pagou dois mil réis. Leonor está sepultada no Cemitério da Ordem Terceira de Mogi. O pai de Cida tinha, a esse tempo, 31 anos de idade. Médico de larga clientela em Mogi das Cruzes, filho de pai austríaco e de mãe brasileira, em pouco tempo casou-se de novo.

Cida passou a morar, então, com a avó, de nome Chiquinha. Era a única criança da casa, embora partilhasse quintais com os primos, todos vizinhos. Foi criada no casarão da Rua José Bonifácio, que existe ainda hoje, atrás da Catedral de Santana, contíguo à Padaria Estrela, da qual se separa por uma viela. Ali funciona, hoje, um tabelião. Adolescente, Cida passava no casarão todos os finais de semana, quando conseguia licença como interna do Colégio Sacre Coeur de Marie, em São Paulo.

Foi nessa mesma casa que Cida, aos 17 anos, começou a namorar Almiro. Já havia deixado o internato do Sacre Coeur e frequentava o segundo ano da Escola Normal Padre Anchieta quando se decidiram casar. Deixou a escola. Nas vésperas do casamento, resolveu que iria se mudar para a casa do pai, recém construída na esquina da Avenida Pinheiro Franco com a Rua Campos Sales, mesmo terreno onde hoje está uma agência do Banco Santander. Era uma construção imponente, em estilo mexicano, construída por Quirino Simões, engenheiro competente que atuava na construção da Adutora do Rio Claro, aquela mesma que atravessa, hoje, um trecho da Estrada Mogi-Bertioga.

Cida resolvera que a festa de seu casamento seria na nova casa do pai. Numa manhã, Almiro encostou o Ford cupê em frente à casa da avó da noiva. Juntos, fizeram a mudança. Não avisaram ninguém. Era 1933. Dois anos depois, o pai de Cida morreu. Tinha 47 anos de idade e fora vitimado por cirrose do fígado, segundo o atestado de óbito passado em 15 de agosto de 1935, pelo médio Soares Hungria, que o atendera em sua própria residência, já em São Paulo, à Rua da Consolação, 42.

Nunca mais Cida morou em Mogi. Criou os filhos, ela e o marido, em um casarão do bairro paulistano do Pacaembu. Quando a própria Cida morreu, em 1986, tinha 71 anos de idade e vivia, divorciada, no apartamento da Praça Buenos Aires, onde a visitei muitas e muitas vezes. Para conversas descontraídas em torno de um copo de uísque. Falávamos de tudo, mas, principalmente, dos velhos tempos de Mogi das Cruzes e das muitas lembranças que me legou a respeito de seu pai. Tenho na biblioteca de casa, ainda hoje, um livro que pertenceu a ele. Com sua própria assinatura.

Cida Wertheimer Abbondanza era filha de Leonor Franco Wertheimer e do dr. Deodato Wertheimer.

Legenda para foto

Carta a um amigo

Um apoio dispensado

Meu caro leitor

Esta passagem foi relembrada há pouco em uma roda de amigos. Já se vão 44 anos, nada para alguém do grupo com memória de elefante.

A eleição de 1974 para a Assembleia Legislativa se prometia difícil. Era o tempo do bipartidarismo e das duras restrições à campanha política. Candidato a deputado estadual, Maurício Najar ia levando sua campanha política às duras penas, tentando fugir das críticas que o prefeito da época, Sebastião Cascardo (de seu partido, a Arena) sofria na Cidade.

Numa determinada semana pré-eleitoral, as críticas ao prefeito cresceram muito, principalmente por causa do aumento imposto nas contas de água, que deveriam ser pagas, obrigatoriamente, na agência local da Caixa Econômica do Estado, credora de um empréstimo para expansão do sistema de abastecimento, concedido ao Semae. Pois foi na fila de consumidores nervosos frente à agência da Caixa, na esquina das ruas Braz Cubas e Barão de Jaceguai, que começou a circular um boletim de apoio à candidatura de Maurício Najar, assinado justamente pelo prefeito Sebastião Cascardo.

Maurício sabia que o prefeito não tinha feito aquele boletim e, muito menos, ele próprio. Pensou logo: “Isso é coisa da oposição, dos outros concorrentes”. E correu para a Prefeitura, pensando encontrar lá a solução para a investida imprevista dos seus opositores. Encontrou foi um prefeito entusiasmado:

Oh, dr. Maurício, o senhor encontrou a chave da vitória. Com esses boletins que o senhor mandou distribuir na Cidade a sua eleição está garantida. Vamos logo ligar para O Diário de Mogi e reservar espaço para reproduzi-lo na primeira página”.

Um assustado Maurício apareceu momentos depois na redação do jornal, tentando uma saída para evitar a publicação.

Naquele ano Maurício Najar foi eleito deputado estadual.

Um grande abraço do

Chico

FLAGRANTE DO SÉCULO XX
CONSTRUTOR – Dos mais ativos construtores de Mogi na primeira metade do século passado, Carlos Alberto Lopes fez esta vivenda para morar, com a família, na Rua Afonso Pena. Tinha pomar, lago, piscina e uma singela casa de bonecas em alvenaria, para deleite da filha Nanci e amiguinhas.

GENTE DE MOGI
MILITAR – Foi um governo militar, incluindo usos e costume; talvez, o único que tenha havido por aqui. Coronel da Força Pública, Eduardo Lejeune foi prefeito, nomeado pelo interventor paulista, entre dezembro de 1930 e julho de 1932. Dentre seus feitos, mudou os nomes das ruas que homenageavam Washington Luiz, Deodato Wertheimer, Carlos Alberto Lopes, Joaquim de Melo Freire e Arrigo Rossi – não lhe eram simpáticos. Foi dele a iniciativa da primeira planta cadastral da Cidade. Vá lá: também inaugurou a nova estação ferroviária de Sabaúna. Tinha 80 anos quando morreu, em 1958.

O melhor de Mogi

Dos males o menor: o fim dos cinemas de rua não comprometeu os prédios dos maiores que Mogi já teve. Urupema, na Praça Firmina Santana e Avenida, na Pinheiro Franco preservam suas linhas arquitetônicas sem alterações.

O pior de Mogi

O remanejamento do trânsito no entorno da Praça João Antônio Batalha (Largo do Shangai), deixou sem faixa de pedestres um braço do cruzamento das ruas Navajas e Antônio Cândido Vieira. A queixa é de senhoras que habitam as cercanias.

Ser mogiano é….

Ser mogiano é ter sido citado na coluna Jovem Guarda, que Mutso Yoshizawa mantinha neste jornal.