EM ASCENSÃO

A história de João Vitor Mafra, cantor mogiano que dá voz ao Simba

EM ASCENSÃO Aos 13 anos, João Vitor coleciona apresentações nos palcos e dubla muitos personagens, trabalho que modificou a rotina de toda a família, que acaba de se mudar para a capital. (Foto: Eisner Soares)
EM ASCENSÃO Aos 13 anos, João Vitor coleciona apresentações nos palcos e dubla muitos personagens, trabalho que modificou a rotina de toda a família, que acaba de se mudar para a capital. (Foto: Eisner Soares)

Naquele 15 de maio de 2006, embora Cintia Gonçalves Henrique Mafra e Rubens Fernando Mafra estivessem extasiados de felicidade devido ao nascimento do primeiro filho, não imaginavam que poucos anos depois o garoto viraria artista. Mas foi exatamente o que aconteceu. Aos 3 anos João Vitor começou a cantar, aos 10 ganhou o palco do ‘The Voice Kids’, reality musical exibido pela TV Diário, e na sequência deu início a carreira de dublador, na qual teve ascensão meteórica, emprestando a voz para Simba, um dos personagens principais da nova versão de ‘O Rei Leão’, da Disney.

Mesmo muito pequeno o menino já demonstrava interesse pela música, e começava a cantarolar com ritmo acima do nível considerado comum para sua idade. Integrante da geração Z, que já nasceu acostumada com internet e telas sensíveis ao toque, um ano mais tarde João Vitor começou a pesquisar no YouTube e imitar o jeito de cantar das artistas que gostava, principalmente Katy Perry, mas também Demi Lovato e Jessie J.

Observando o potencial do filho, em 2012 Cintia decidiu inscrevê-lo no programa ‘Ídolos Kids’, na Record, com Kelly Key, João Gordo e Afonso Nigro como jurados. Mesmo que ele não saísse vencedor da competição, começava aí uma jornada por várias atrações televisivas, que teve seu clímax na segunda temporada do ‘The Voice Kids’.

O caminho para chegar lá, no entanto, não foi tão direto assim. João tentou a inscrição em 2013, porém não teve retorno. Naquele ano, ganhou uma irmãzinha, Marina, e continuou buscando outros palcos para se apresentar. Em 2015, com a descoberta de um glaucoma no olho esquerdo, ele tirou um tempo “sabático”, se é que essa é a palavra correta para um artista mirim.

Mas em 2016 “quase” não houve contratempos. Isso porque, quando a produção da Globo ligou para Cintia a fim de informá-la que João havia sido pré-selecionado para o reality, o celular travou e ela não conseguiu atender. Nada que uma segunda ligação não resolvesse.

A sequência é esta: animado, João e sua família partiram, ainda de madrugada, para o Rio de Janeiro. Chegando lá, ele fez a tiragem de tom, aqueceu a voz e depois foi para o palco interpretar ‘Ben’, canção de Michael Jackson. O resultado? Duas cadeiras viradas – a da dupla sertaneja Victor e Leo e a de Carlinhos Brown, que se arrepiou logo na primeira nota e se emocionou e chorou na última.

O discurso de Brown encantou o público, mas poucas das várias palavras bonitas que saíram da boca dele foram compreendidas por João, devido a sua pouca idade. Aliás, ele não viu imediatamente que alguém tinha virado a cadeira, pois no estúdio não há o som que se escuta em casa. Enfim, o mogiano avançou para a fase das ‘Batalhas’, da qual foi eliminado. Uma notícia que pode parecer triste, mas não é, já que a visibilidade do programa o fez alçar novos voos.

O primeiro convite foi do Mogi Shopping, onde fez show solo e voltou mais tarde em datas especiais, como o Dia dos Namorados. A partir daí, praticamente todos os eventos da cidade o convidaram, a exemplo do Akimatsuri, do Furusato Matsuri, e da Festa do Divino.

Mas não foi só isso. A voz de João Vitor Mafra chegou às músicas do desenho ‘Puppy Dog Pals’, exibido pelo canal Disney Junior. O garoto gostou de estar com um pé no universo da dublagem e decidiu colocar o outro, fazendo testes de diálogo. Não demorou a se encontrar no mercado.

Em pouco mais de dois anos de carreira a voz de João pode ser ouvida em vários personagens de animações infantis, como Kevin de ‘PJ Masks’, Bingo de ‘Puppy Dog Pals’, Marco de ‘Os Polos’, Vegeta de ‘Dragon Ball’, Charlie de ‘O Mundo Colorido de Charlie’ e ‘Lampo’ de ‘44 Gatos’. E ele também dubla filmes e séries infantojuvenis, como Fritz de ‘O Quebra Nozes’, Cooper, de ‘Coop e Cami’ e Matteo, de ‘Acampados’.

Todas estas produções são importantes, porém ainda muito distantes de tudo o que significa a nova versão de ‘O Rei Leão’, lançada em julho e ainda em cartaz em algumas salas de cinema brasileiras. Mas como João se tornou a voz da versão jovem de Simba?

Na verdade, nem ele e nem Cintia, que atua como assessora do filho, sabiam de qual filme se tratava. Ao receber o convite, ela somente foi informada que era um “teste para cinema”. O título só foi revelado no momento do teste, no qual João se saiu bem, garantindo uma vaga no time de dubladores que tem nomes de peso, como a cantora Iza e o ator Ícaro Silva.

Milhões de pessoas assistiram a ‘O Rei Leão’, que é, até o momento, o maior trabalho do artista mirim. O sucesso do filme trouxe inúmeras novas propostas a João, o que faz com que o adolescente tenha até quatro gravações de diferentes personagens no mesmo dia.

Questionado sobre o que o encanta nesta profissão, João Vitor Mafra não hesita e diz que não há muito o que explicar: “É tudo para mim”, resume. Mas isso não quer dizer que a música tenha sido deixada de lado. Os shows continuam, e inclusive ganharam um novo palco: o YouTube. Com um canal na plataforma o mogiano tem feito sucesso, principalmente interpretando canções que antes cantou nas telonas, como Simba.

“A ficha ainda não caiu”

Devido aos trabalhos como cantor e dublador, João Vitor Mafra quase não tem tempo para ser adolescente. Ele conta que já se acostumou com pedidos de selfie ou imitações, mas não estava feliz com a rotina profissional, que o fazia ficar praticamente o dia todo no trânsito, já que morava em Mogi das Cruzes e gravava em São Paulo. Em agosto último, a saída encontrada pela família foi se mudar para a capital.

Trata-se de um “período de teste”, como a mãe dele, Cintia Gonçalves Henrique Mafra, destaca. “Sou professora concursada em Biritiba Mirim e pedi afastamento pois não estava dando conta da agenda. Mas se um dia ele não quiser mais a gente retorna para a vida de antes” disse ela à reportagem de O Diário, enquanto respondia convites para outras entrevistas e adequava os horários de escalas de dublagem, que chegam a acontecer quatro vezes por dia.

João fez parte da equipe de um dos maiores filmes da Disney, que por sua vez é uma das maiores empresas do cinema mundial. De 1994, ‘O Rei Leão’ original virou clássico, e a nova versão, com a voz do mogiano no papel de Simba jovem, tem tudo para repetir a fórmula.

Mas, por mais que esteja envolvido até o pescoço no projeto, ele ainda não tem exatamente noção do quanto isso representa. “A ficha ainda não caiu”, conta. Por outro lado, sabe bem como é crescer, ter amigos, frequentar a escola e ser artista. “As vezes quando os professores passam trabalho em grupo, falo que não vai dar pra fazer na casa das pessoas, que vai ter que ser tudo por e-mail”.

Ainda assim, aos 13 anos ele não pensa em ter uma vida longe dos holofotes, e diz que é possível conciliar a agenda profissional com as tarefas de casa e as amizades. E tem objetivos bem definidos: “quero alcançar a marca de 10 mil inscritos no YouTube, onde pretendo lançar mais tipos de conteúdo, tenho vontade de cantar músicas autorais e gostaria de interpretar algum super-herói criança”.

Como se chega lá, João? “Estudando muito. Fiz curso de dublagem, estou fazendo teatro e quero fazer faculdade de artes cênicas e música”. O amadurecimento do garoto é tanto que contagiou a irmã, Mariana, de 6 anos, que tão pequena já se enveredou na carreira de dubladora.


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