ARTIGO

A lanterna do desenvolvimento

João Anatalino

Acabo de voltar de uma viagem por terras de Portugal e Espanha. Não tem jeito. A gente fica comparando. A qualidade das estradas, serviços públicos, produtos oferecidos á população, educação do povo e principalmente o padrão de segurança que os cidadãos das urbes européias gozam. Tanto nas pequenas, médias e grandes cidades, é possível andar a pé, de noite, sem o medo de ser assaltado. Claro que existe esse risco, mas ele não se compara, em termos de possibilidade, ao das cidades brasileiras. Em Madri, Sevilha, Córdoba, Lisboa, Porto, notei a responsabilidade com que as pessoas, pedestres e motoristas respeitam as leis de trânsito. Em Aveiro, Portugal, fiquei alguns dias hospedado com um parente que está trabalhando lá. Aveiro é uma espécie de Veneza portuguesa. Mesmo nesta época, em que o outono está começando, e o frio começa a chegar na região, ela se apresenta apinhada de turistas. Dá gosto ver o movimento de pessoas de tantas nacionalidades, falando diversos idiomas nos restaurantes, nas lojas e nas estações de ônibus e de trens.

A propósito, viajei pela Espanha e por Portugal de trem. Que maravilha. Comboios rápidos e modernos, que estão sempre no horário programado. Em ambos os países, pode-se ir a qualquer cidade por via férrea. Fiquei pensando na estultice do governo brasileiro, que prefere investir numa matriz de transporte baseada na rodovia, preterindo o transporte ferroviário, muito mais barato, eficiente e menos destruidor de ambientes. Lembrei-me que essa opção foi escolhida por Juscelino Kubitschek para atrair a indústria automobilística para o Brasil e com ela alavancar um sonho utópico de marcha para o oeste. Deu certo de um lado, pois trouxe modernidade e investimentos para o país, mas de outro prejudicou uma infra estrutura que já vinha dando resultados bons, principalmente no estado de São Paulo. A ferrovia foi responsável pela pujança da economia paulista, e se São Paulo é hoje o estado mais desenvolvido do país, muito se deve às ferrovias.

Está mais que na hora de retomar essa discussão. A rodovia, o automóvel e o caminhão não são uma boa opção para o transporte de pessoas e mercadorias, num território tão extenso como o Brasil. Nunca foram. E agora menos ainda. Nossos governantes precisam libertar o país da escravidão das montadoras e do corporativismo sindical dos transportadores de carga. Afinal de contas, a era dos combustíveis fósseis está no fim, e quem não se aperceber disso vai continuar a carregar a lanterna do desenvolvimento.

João Anatalino Rodrigues é escritor e advogado

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