CHICO ORNELLAS

A morte do bezerro

BEZERRO – E lá se foi o bezerro do meu bom e querido amigo Fábio.

Meu caro leitor

Confesso-lhe que a noite em que cheguei em casa de volta do trabalho e minha mulher contou-me que o bezerro havia morrido, não resisti a um sorriso de dúvida. O que é que vem aí? – foi a pergunta imediata. Minha mulher contestou-me: é verdade, o bezerro caiu no telhado e morreu!

BEZERRO – E lá se foi o bezerro do meu bom e querido amigo Fábio.

Mais razões para dúvidas: caiu do telhado ou caiu no telhado, como diz meu amigo protagonista deste causo? Não, é isso mesmo: caiu no telhado. Se para mim já era difícil acreditar na história da morte do bezerro caindo do telhado, inverossímil por tudo uma imagem dele caindo no telhado. Será que estava sendo transportado por um helicóptero, escapou e caiu no telhado?

Chico, não brinca, não estou brincando. Um dos bezerros devia estar pastando naquele campo que existe além da churrasqueira ou acima do canil. Já era noite, depois das 8 horas. Isso eu sei porque a família estava assistindo à novela e foi alertada por um barulho alto e estranho. Saíram na sacada e não viram nada. As luzes de fora estavam apagadas. Então, pediram ao caseiro para dar uma olhada e o homem voltou com a notícia de que o bezerro havia caído no telhado.

De há muito, meu caro, eu escuto os mais velhos dizerem, hoje já sem a constância de antes, que fulano estava chorando a morte da bezerra. Confesso-lhe que nunca me ative aos motivos do ditado popular. Fui buscá-los e deparei-me com uma explicação de Nicomedos Sena, citando João Ribeiro.

Diz ele: “Toda vez que eu chorava – e foram tantas que até ganhei o apelido de pipira, pequeno pássaro lamuriento da Amazônia – vovó gritava: Que é isto, menino! Estás chorando a morte da bezerra?. Segundo diz João Ribeiro, em Frases Feitas, a origem dessa locução está nas perseguições religiosas movidas aos judeus em Portugal na Idade Média. Os judeus louvam e seguem incondicionalmente Tora, como chamam o Pentateuco. E acrescenta: Adoradores de Thora, ou da tourinha, como a serpe, era um dos espantalhos que acompanhavam a procissão do Corpus Christi. Seria a morte da bezerra a consagração fanática dos autos-de-fé. É uma explicação conjetural curiosa. Em inglês há expressão aproximada, mas sobre a morte da égua. Quando uma pessoa está pesarosa, pergunta-se: “Whose mare’s dead?” (Morreu a égua de quem?). Até Shakespeare usou essa expressão, em Henrique IV, quando, na primeira cena do segundo ato, faz Falstaff perguntar: How now? Whose mare’s dead? What’s the matter? (E então? De quem morreu a égua? Que é isso?).”

Neste caso, meu caro, nada a ver com as frases populares e tudo a ver com a vida que meu amigo e família levam, usufruindo de um verdadeiro paraíso que, por muito tempo, foi esculpido na Serra do Itapeti. Com direito a lago, pomar, piscina, canil, galinheiro, churrasqueira, sauna e adendos outros.

Não resisti a compartilhar com outros esta história. Imaginar o susto na família em pleno suspense da novela, o caseiro chegando com a notícia e, no dia seguinte, o mesmo homem aparecendo com o bezerro retalhado por um competente açougueiro foi algo muito diferente. Também a informação de que, de pronto, a família dispensou os restos do bezerro. “Suma com isto daqui, não queremos nada”, ouviu o bom homem.

E eu, cá com os meus botões, tive de admitir: o bezerro morreu ao cair no telhado.

Um grande abraço do

Chico

Carta a um amigo
Nova York em dezembro

Meu caro Gilberto

Dia destes, conversando lá em casa, lembramo-nos dos nossos encontros de algum tempo atrás em Nova York. Fomos agora para celebrar o tanksdiving com sobrinho que acaba de comprar casa em Westfield. Você estava lá, cumprindo bolsa de estudos na Universidade de Columbia. Creio que não comentei com você uma passagem que tive por aquela cidade, alguns anos antes.

CINCO GRAUS NEGATIVOS – Nova York é quase sempre imperdível. Mas, cuidado com o inverno e as previsões de neve. Se você estiver lá nessas condições, vencer sua reserva de hotel e o avião não puder decolar…daí pode ser o caos.

Era fevereiro de 1994. Dia 8 – uma terça-feira. O frio de Nova York não cedia e, na noite anterior, uma nevasca deixou a cidade intransitável. Podia-se andar a pé, com solado de borracha. O meu era de couro. Tombo seguido de tombo na neve endurecida e suja. Tinha-se a impressão de caminhar sobre o gelo que recobre o congelador das geladeiras domésticas. Minha reserva no Hotel Hilton vencia ao meio dia. A Continental então informou que seus voos estavam cancelados pela absoluta impossibilidade de operar com aquele tempo no aeroporto de La Guardia. E eu não podia ir para Detroit. Também não podia continuar no hotel. Um telefonema para dois ou três outros hotéis rendeu nada: todos lotados. A salvação foi ir, de mala e cuia, para o apartamento de Raymond Sayer na 125º Street.

Essa rua fica nos confins de Manhattam, junto ao campus da Universidade de Columbia. Não conheci Raymond Sayer pessoalmente. Durante muitos anos ele lecionou Literatura Portuguesa na universidade e tem uma tese muito interessante sobre o papel do negro na literatura portuguesa. Raymond, quando na ativa, recebeu muitos estudantes brasileiros. Aposentado, voltou para sua cidade e deixou o apartamento fechado. Dois ou três telefonemas e a chave do apartamento estava em minhas mãos. Um táxi levou-me, em mais de hora num tráfego pesado por causa da neve, até o prédio.

Era uma construção típica dos anos 50 de Nova York. Escura, malconservada. Subir a escadaria externa com uma mala pesada e sem rodas me pareceu uma gincana de caça ao tesouro. Quem vencesse ganharia uma cama quente e limpa. Nem tão quente, tampouco limpa. A chave serviu. A sala do apartamento estava em desalinho. Do quarto andar via-se os telhados de Columbia cobertos de neve. Por uma vidraça quebrada entrava a neve. O sofá estava molhado, também alguns quadros, colocados displicentemente ao chão. Fui ao quarto.

A cama parecia ter saído de um museu. Tive a impressão que o lençol, amarfanhado, suplicou-me quando abri a porta: “Uma lavanderia, por favor”. Recusei-me a atendê-lo. Voltei à rua, procurei um supermercado e retornei ao apartamento orgulhoso com um novo jogo de cama. Dormi duas noites ali.

No dia 10 pela manhã um táxi levou-me ao aeroporto de La Guardia e um avião para Austin, no Texas. Do aeroporto ainda telefonei, para agradecer, ao amigo que me havia franqueado o apartamento de Raymond Sayer. Só então ele contou-me que, naquela mesma cama amarfanhada, havia três meses, morrera um fotógrafo mineiro a quem Sayer emprestara o apartamento. O rapaz vivera ali, sozinho, por quase seis meses. Três ou quatro dias depois de morto, os vizinhos desconfiaram que havia algo errado e chamaram a polícia, que arrombou o apartamento. “Mas não se preocupe, o colchão foi trocado”.

Agradeci-lhe pelo consolo. Sai para Austin, cheguei em Houston. Uma tempestade de gelo impediu o avião de chegar ao meu destino. Mas essa é outra história.

Grande abraço do

Chico

FLAGRANTE DO SÉCULO XX
ANOS DOURADOS – Elas faziam footing na Praça Oswaldo Cruz e dançavam nos bailes do Itapeti Club, entre os anos 50 e 60: da esquerda para a direita, Lela Brandão, Keka Gomes, Cidinha Namura, Neide de Oliveira Neves, Vanir de Oliveira, Izaura Brandão e Nídia Maria Gomes (sentada).

GENTE DE MOGI
PROFESSORA – Filha de professora, casada com professor, ela própria professora, fez história na Cidade pelo empenho com que encarava a missão que fosse. Precursora do ensino especial, instalou no Instituto de Educação Dr. Washington Luiz a mais moderna sala de aula para deficientes auditivos do Estado. Dominando o canto clássico, enfrentava, altiva, a plateia que fosse. Com tudo isso, nem precisaria ostentar a beleza que tinha. Antonia Thereza de Mello Oliveira, a professora Antoninha, morreu em novembro de 2015, tinha 92 anos.

O melhor de Mogi
Celebrar os 40 anos de fundação sem jamais ter enfrentado uma crise de imagem é para poucos. Como o Colégio São Marcos, que segue formando gerações de mogianos.

O pior de Mogi
Em 20 dias, a Câmara de Mogi concluirá o exercício de 2018 e, com ele, encerrará o ano em que teve, para gastar, R$ 33 milhões, ou R$ 2,75 milhões por mês, ou R$ 91 mil por dia. Nos últimos 4 anos, o orçamento da Câmara aumentou 30% (eram R$ 26 milhões em 2015) e o IGPM, medidor da inflação brasileira, subiu 16%. A isso se dá o nome de instituição cidadã.

Ser mogiano é…
Ser mogiano é… lembrar do tempo em que o time de futebol do Corinthians se concentrava no Hotel Estância dos Reis, na Vila Oliveira (sugestão de Aurélio Prieto).