CIRCUITO

A nutricionista Katherine Maria defende uma alimentação saudável e duradoura

A nutricionista Katherine Maria de Araújo Veras vive em Mogi das Cruzes há cinco anos. (Foto: Eisner Soares)

Nutricionista e professora, a alagoana Katherine Maria de Araújo Veras vive na cidade há cinco anos. Ela leciona no curso de Nutrição da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC) e conta, nesta entrevista, porquê as pessoas devem preferir alimentos orgânicos e o que podem fazer para melhorar os hábitos alimentares. Katherine também apresenta um guia gratuito e prático do Ministério da Saúde e diz que para ser duradoura a mudança deve ser feita “aos poucos”.

Qual a importância do nutricionista para a sociedade?

A nutrição trabalha, além de tratamentos, com o conceito de prevenção, melhorando por meio da alimentação os hábitos de vida, o que pode evitar muitas doenças. Atualmente a população tem fácil acesso a tecnologia, mas ao mesmo tempo em que há muita informação, conceitos básicos como alimentação e saúde estão se perdendo e não entende-se o porquê disso. Parece que cada vez mais a sociedade precisa de profissionais nutricionistas, já que as pessoas estão retrocedendo, ficando mais doentes e obesas. Em nenhum país do mundo a obesidade diminui. Pelo contrário. Então nosso papel é ajudar todos a entenderem que a alimentação é algo muito mais simples do que se tem colocado em mídia, que comer adequadamente é tão simples quanto a 50 ou 100 anos atrás. São as pessoas que complicam.

Como assim?

Embora tenhamos arroz, feijão, frutas e legumes, infelizmente o consumo destes alimentos está estagnado, enquanto aumenta muito o consumo de alimentos chamados ultraprocessados, que duram um tempão na prateleira sem estragar. Mas, não é porque alguém comeu chocolate, batata frita, tomou refrigerante ou cerveja num dia que vai ter a saúde comprometida. A questão é que as pessoas estão fazendo isso todos os dias, e várias vezes. O alimento ultraprocessado é extremamente saboroso e dá prazer, mas apesar de ter custo não tão caro, o preço é muito maior para a saúde. Tudo isso, aliás, está no Guia Alimentar Para a População Brasileira, disponível gratuitamente na internet.

Que guia é esse?

É um material feito pelo Ministério da Saúde, criado por uma comissão de profissionais da área, e é atualizado periodicamente. O conteúdo foi pensado não para técnicos, mas para a população em geral, e por isso apresenta linguagem simples, com o objetivo de ser de fácil acesso para qualquer cidadão. Quem não tiver condições de ir ao nutricionista pode começar lendo este texto, baixando o PDF da internet.

Que tipo de conteúdo o material oferece?

Entre outros itens, os dez passos para a alimentação saudável, como escolher alimentos, o que é importante considerar entre preparação dos insumos até a refeição, o próprio ato de comer e ser um consumidor, a relação entre o ser humano e o alimento. O guia fala, por exemplo, para evitar consumir muito açúcar, e dá exemplos de como fazer melhor, é bem didático. Aborda o arroz e feijão e outras características da população brasileira. E tudo isso de maneira padronizada, que vale para todas as regiões, inclusive o Alto Tietê, que produz muitas coisas.

Falando nisso, como você vê a produção local de alimentos?

Quando há incentivo para o consumo de produtos regionais, teoricamente há incentivo para consumo de menos agrotóxicos, por serem alimentos da safra. Quando se pensa em comer algo que não está na safra, deve-se considerar que não foi fácil para aquele insumo ser disponibilizado. Ou ele é geneticamente modificado, ou para chegar até a região teve que passar pelo país inteiro, e nesse caso há a questão do uso de substâncias químicas para preservar e aumentar a durabilidade dele. Então este incentivo é muito interessante, e tenho contato com a Casa da Agricultura local e vejo que há debate e grande discussão para este fomento.

E os alimentos orgânicos são uma boa opção?

Sim, eles são uma opção muito válida e importante, porém infelizmente ainda têm custo maior e por isso a acessibilidade a eles não é grande. Existe aí uma lacuna que precisa ser preenchida. Para que o alimento orgânico possa ser algo mais presente na mesa das pessoas, é preciso que elas continuem comprando, e que cobrem politicamente. Isso não é algo aparentemente fácil, mas o caminho é esse, ou seja, explorar o fato de morar numa cidade que produz em grande quantidade.

O que mais poderia ser feito para incentivar o consumo de produtos regionais e orgânicos?

Tanto a iniciativa dos produtores locais como a dos alimentos orgânicos precisam que a sociedade entenda a importância disso. Seria infinitamente melhor comprar na feira de produtores locais do que no supermercado, embora alguns mercados de Mogi recebam hortaliças da produção local.

As pessoas ainda estão fechadas no seu mundo prático de alimentação, e aí não sobra tempo para ouvir sobre estes assuntos.

Mas comer de maneira saudável também pode ser prático?

Ao comparar com um pedido de comida por aplicativo, talvez não seja tão prático assim, mas conta a decisão de melhorar a alimentação, o que não é da noite para o dia. Quem procura um nutricionista precisa começar a mudar aos poucos, para que os efeitos sejam duradouros.

Falando nisso, como as pessoas enxergam o nutricionista hoje?

O olhar da sociedade mudou bastante. Está ficando cada vez mais claro que podemos ajudar e orientar. Na verdade escrever dieta num papel é o que menos gosto de fazer. Procuro mostrar a meus pacientes que a relação nutricionista-paciente é diferente da relação médico-paciente, e que atuo como uma professora, que dá aulas sobre infinidades de assuntos relacionados aos alimentos, e por isso, não basta a ir apenas uma ou duas consultas.

Pode dar aos leitores uma sugestão de cardápio saudável?

É difícil fazer isso, pois não gosto de generalizar. Mas para um indivíduo saudável e sem restrições alimentares, um prato de almoço saudável poderia ser formado, até mesmo de acordo com o guia do Ministério da Saúde, por arroz, feijão, uma porção proteica, que pode ser carnes ou ovo, desde que não fritos. E salada com vegetais cozidos e crus, evitando acrescentar sal de mesa ou temperos prontos. Para acompanhar, água ou suco natural sem açúcar em volume restringido, cerca de 100ml, porque quando se toma muito líquido, o conteúdo gástrico fica muito diluído, o que diminui um pouco a eficiência da digestão.

E a sobremesa?

É um hábito extremamente antigo, mas não deveria ser uma regra. Tem gente que diz precisar de um doce depois das refeições, o que eu acho controlável. O que pode ser feito é optar por uma porção de fruta.


Deixe seu comentário