A piscina e as estações da vida

Na minha casa há uma pequena piscina, construída na época em que as vacas não eram tão magras. Domingo passado, como de hábito, eu estava limpando a “dita cuja”, atividade que faço para relaxar. Com o sol forte, resolvi molhar a goela com cervejas. Sol e álcool na cabeça, receita para filosofar. Olhando a água, um torvelinho de recordações.Lembrei da primavera da vida (a infância). Durante um período, minha família ia, todos os dias, às 6 horas da manhã, ao Clube de Itápolis para nadar. Era uma alegria estar com meus pais e irmãos na piscina. A água e a família, cálidas e aconchegantes, me envolviam em um abraço carinhoso. Só agora percebo que eu estava florescendo.
O tempo passou, chegou o verão da existência. Casei, as filhas nasceram. Durante um período frequentamos uma escola de natação. Depois, com sacrifício, construí uma pequena piscina na minha casa. Nos finais de semana era uma festa. Brincávamos muito, a felicidade era completa. A água era quente, envolvente. A piscina e a vida estavam sempre quentes, movimentadas, ativas.
O verão deu lugar ao outono. As filhas tornaram-se mulheres e foram embora. A piscina ficou vazia. Á agua e a vida ficaram mais frias. O sol, mais fraco. Os dias, mais sombrios. De vez em quando, olho para a piscina e acho que a água está turva. Mas não, é outra água que embaça meus olhos…
Terminada a limpeza da piscina, fiz uma besteira. Pulei na água, que estava fria e sem graça, apesar do calor. Meu corpo ficou arrepiado (certas partes encolherem). Não senti o abraço carinhoso, a alegria.
Agora, quando o inverno da vida está chegando, sinto que em breve não mais conseguirei entrar na piscina, pois a água está ficando cada vez mais gelada. Os dias, mais escuros.
Se me sobrar um pouco de dinheiro (o que está difícil) vou comprar um aquecimento para a piscina. Quero, também, tornar um pouco menos frio e escuro o inverno da minha vida. Se possível, gostaria de “acender minha luz, pondo estrelas nos olhos das outras pessoas, para que elas falem, riam, me cerquem… mandem embora minha solidão” (Rubens Sudário Negrão, crônica “O carrinho de pipoca”, do livro “A Estrada da Vida).

Perseu Gentil Negrão é procurador do Estado do Ministério Público de São Paulo


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