EDITORIAL

A política do esquecimento

Na ausência de atenção ao pedido do advogado e ex-vereador Sylvio da Silva Pires sobre o reconhecimento à família de Francisco Giuliani na entrega simbólica das obras de revitalização do Pico do Urubu, está um traço da política do esquecimento encontrado em muitos registros históricos.

Sylvio Pires escreveu carta a este jornal, cobrando alguma lembrança ou citação ao fato de a família Giuliani ter doado os 11 mil metros quadrados do platô da Serra do Itapeti, onde a visão panorãmica dos vales enfileirados a partir desse ponto de Mogi das Cruzes é espetacular, em dias céu limpo. Hoje, a subida ao Pico do Urubu está proibida por causa da quarentena, é importante lembrar, embora muitos não se importem com isso.

O apagamento da história explica a repetição de erros em tudo o que se imagine: na vida pessoal, há lições clássicas como o não atendimento a uma determinada recomendação médica que complica a saúde do indivíduo porque o tempo vai passando, a urgência inicial se enfraquece, e a receita, por fim, é abandonada. O mesmo se replica nos núcleos sociais, nas cidades, nos países.

Tomemos como exemplo a pandemia, que se instalou como o maior dilema humano neste 2020, e é apontada como o ponto de partida para rupturas de padrões sanitários, econômicos e geopolíticos. Para o bem ou para o mal, o tempo dirá.

Assim como ocorreu com a gripe espanhola, a sociedade repete padrões do passado. Em 1918, o governo brasileiro desconsiderou os relatos catastróficos sobre as mortes e o contágio da doença em Portugal. A porta de entrada do vírus influenza foram os navios, que cruzavam o oceano e foram autorizados a aportar por aqui.

Notícias enganosas de tratamentos e artifícios para limpar o ambiente (queima do tabaco, alfazema e incenso) e o uso de xaropes e do sal de quinino, por aqui circularam livremente. As redes sociais falaciosas são citadas nos estudos sobre a “mãe das pandemias” como ficou conhecida aquela gripe.

O apagamento da memória afeta as pessoas de maneira diferente. Muitos poderão dizer, com tanta coisa a ser pensada, tantas dores a serem tratadas neste momento, por que se importar com a origem do Pico do Urubu?

Na origem desse e outros esquecimentos pode estar a explicação para o vandalismo que destruiu parte das novas instalações de simbólo mogiano, dias atrás.

Desconsiderar o passado, a memória coletiva e afetiva das pessoas e lugares passa a ser banal, não provoca reação e nem indignação, e tudo isso confronta valores como civilidade, educação, cidadania, solidariedade. O importante é há quem não se cale, como fez o nosso leitor.


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