CHICO ORNELLAS

A Praia das Cigarras

CIGARRAS – Point de mogianos endinheirados entre 1965 e 1975, a Praia das Cigarras está hoje na lembrança de muitos deles. (Foto: Arquivo)
CIGARRAS – Point de mogianos endinheirados entre 1965 e 1975, a Praia das Cigarras está hoje na lembrança de muitos deles. (Foto: Arquivo)

Poucos cá da terrinha vão se lembrar dos tempos áureos da Praia das Cigarras. Foi entre os meados das décadas de 1960 e 1970. Sabemos que será difícil aos nossos filhos entenderam este quadro. Mas, tentemos explicar.

Nesse período não havia a Mogi-Bertioga, tampouco a Rio-Santos litorânea. Pelo que, restava aos mogianos bons de bolso – ao menos remediados – as alternativas de Caraguatatuba e Santos, ou São Vicente, para usufruir suas poupanças e seus momentos de lazer.

Antes do advento da estrada que vai de São José dos Campos a Caraguatatuba, atual Rodovia dos Tamoios, o caminho para o Litoral tinha mesmo de ser a Estrada Velha do Mar ou a Anchieta pós 1949. Também a estrada de ferro e seus planos inclinados para vencer a Serra do Mar.

Mas, quando vieram a Via Dutra (1951) e a ligação São José-Caraguá (1957) os da terra optaram pelo Litoral Norte e elegeram Caraguatatuba como sua praia preferida. Passei algumas férias lá a convite de meus tios Tico e Miriam Arouche. Há detalhes que ficam na memória: tio Tico tirava as calotas do seu Belair ou Impala e as colocava no porta-malas; sob elas deixava algum dinheiro para usar na temporada. Tempos em que se usava pouco cheque, não havia cartão de crédito e muito menos caixa eletrônico.

Quando completou 18 anos, meu primo Roberto Luiz ganhou um fusca, também por ter entrado na faculdade (não em Mogi, onde não havia nenhuma). Nas férias de verão lá fomos, com ele, seu irmão José Eduardo e meu irmão Luiz Guilherme, para a temporada em Caraguatatuba. Por cuidado do pai, um motorista mais experiente seguiu na direção e de lá retornou de ônibus. Foi pela estrada para Guararema, pegou a via Dutra e peregrinou rumo ao Litoral, com parada na padaria em frente ao Cemitério de Paraibuna. Quem já fez essa viagem sabe a frase sobre o pórtico: “Nós que aqui estamos por vós esperamos”.

Adolescentes embasbacados com a repentina liberdade, certa noite esquecemos a chave dentro do carro trancado. Não houve jeito além de estourar o quebra-vento (não há mais isso em carro algum); após o que descobrimos que não havia peça sobressalente na cidade. Combinamos então: íamos de carro à praça principal e, enquanto Roberto e meu irmão saíam para o footing; eu e Eduardo ficávamos de olho no carro. E vice-versa. Foi nessa temporada que nos apareceu amigo de uma geração à frente. Era o Paulo, que logo apelidamos de Paulo ‘Taqueupa’ pelos motivos que o termo sugere. Paulo entrava no banco da frente do fusca, Roberto à direção e circulávamos pelas áreas mais movimentadas da Caraguá do início dos 1960, com ele a berrar e gesticular, meio corpanzil para fora do carro, como em uma campanha eleitoral:

Povo de minha cidade, povo de Caraguatatuba; vamos à vereança, serei eu o representante dessa plebe ignóbil que tudo pode”. Escutei uma vez, olhei a reação dos passantes e cochichei ao Eduardo: “Acho melhor descermos, isso não vai dar certo”. Quase cai da cadeira, há alguns anos, quando descobri que Paulo Andere, o Paulo ‘Taqueupa’ virou padre e atuava em uma paróquia na zona Sul de São Paulo.

Quando Caraguatatuba começou a encher demais nas temporadas de verão, alguns mogianos migraram para São Francisco, distrito de São Sebastião e fizeram da localidade seu porto seguro. Estavam por lá, entre outros, o ex-prefeito Waldemar Costa Filho, quase vizinho do médico Golbert Frizzera Borges, de Alfredo Nahum, Manoel Bezerra de Melo, Ernani Bicudo de Paula, Teóphilo Salustiano, Tuffy Elias Andere e Januário Figueira da Silva.

Também São Francisco deixou de servir a alguns, principalmente aos que queriam privacidade e espaço. Dentre estes, gente como Boris Grinberg, Anésio Urbano e José Urbano Neto. Migraram: a ocupação da Praia das Cigarras, quase um condomínio fechado de alto luxo, foi empreendimento de Arthur Audrá. Deputado federal por São Paulo e chefe da Casa Civil do último governo de Adhemar de Barros (1963-1966), era um importante empresário no Vale do Paraíba. Tinha a Cia. Fabril de Juta de Taubaté, que chegou a 10 mil operários, e a Fazenda Maristela (pioneira na inseminação de reses), em Tremembé. Também incursionou pela literatura (‘O Cruzeiro 54’ e ‘Grupo dos Onze Romances’) e pelo cinema, ao tentar abrigar, na Maristela, uma companhia cinematográfica.

Na Praia das Cigarras Audrá construiu o melhor hotel que havia na região e que servia de clube para os proprietários do condomínio. Ali imperava seu filho, Alberto G. Audrá, o Beto. Era um representante da mais alta linhagem de paulistanos bem de vida, de personalidade metropolitana, nada a referenciar-se ao provincianismo que imperava no Vale do Paraíba; também em Mogi das Cruzes.

Por conta da presença de mogianos na Praia das Cigarras, Beto Audrá acabou se aproximando de gente daqui e passou a ser presença constante das festas da “juventude bem lançada”, como identificada pelo colunista social de então, Mutso Yoshizawa. Beto vinha em um Thunderbird, o esportivo compacto lançado em 1963 pela Ford. E fazia furor entre as casadoiras locais. Casou-se com uma das mais bonitas entre elas: Dalva Rudge.

Quando o governo central endureceu, cassou Adhemar de Barros e lançou Arthur Audrá no ostracismo político, Beto se exilou na Praia das Cigarras e passou a cuidar do posto de gasolina e da garagem de barcos que montara por ali em 1969. Nesse espaço, operando um equipamento de solda elétrica, sofreu uma descarga – morreu eletrocutado.

CARTA A UM AMIGO
Manuel de Melo em dose dupla

Foi em setembro de 1978, 40 anos atrás. Corria uma campanha eleitoral. Para deputados e senadores. Mogi havia inscrito vários candidatos a deputado. Federal e estadual. Dois deles se elegeram: Manuel Bezerra de Melo e Maurício Najar. O que se conta, aqui, é a maratona de 24 horas iniciada na manhã de um domingo no aeroporto de Congonhas e encerrada após viagens de 400 quilômetros de carro, cinco horas de avião e três de sono.

O Bandeirante da TAM havia decolado 10 minutos antes da pista de Congonhas. A 1.600 metros de altura, a rodovia Castelo Branco parecia uma pista de autorama. No meio do avião de 16 lugares, uma poltrona de cada lado, estavam o candidato Manuel Bezerra de Melo e o missionário Manuel de Melo, fundador e líder maior da Igreja Brasil para Cristo, congregação que, segundo ele, reunia, àquela época, 1,5 milhão de adeptos. Atrás, lendo o jornal do dia, estava Maurício Najar; ao seu lado, Luiz Teixeira, vereador em Mogi e presbítero da mesma igreja. Iam juntos, para uma peregrinação por cidades do Interior de São Paulo.

COMÍCIO – Na mesma campanha eleitoral de 1978, Padre Melo promoveu comício, dia 18 de agosto, para o lançamento da pedra fundamental do Hospital Luzia de Pinho Melo.

Em Bauru o avião para por não mais que 10 minutos. Tempo suficiente para que dois ou três passageiros desembarquem. Marília chega 40 minutos depois. Ela não estava no roteiro original e, por isso, o número de fiéis presentes ao aeroporto para a recepção não era grande. Só 40 ou 50 pessoas, aquelas que o pastor local conseguiu convocar às pressas. Era gente humilde. Os homens de paletós surrados, gravatas estreitas e camisas coloridas. As mulheres, de saias além joelhos, blusas sem decote.

Manuel de Melo, o missionário, iniciou a preleção de 15 minutos lembrando as realizações de Jesus Cristo, a confiança que se deve ter no Salvador, a gratidão que não pode ser esquecida. Às vezes, interrompia a preleção e iniciava um estribilho melódico. Todos os acompanhavam. No final, uma lembrança:

Meu povo, eu quero lhes apresentar dois grandes amigos de nossa igreja. O reitor Manuel de Melo e o grande advogado Maurício Najar. Os dois são velhos amigos de nossa igreja e, agora, são também candidatos. O reitor a deputado federal e o dr. Maurício a deputado estadual. Vocês sabem que nunca peço nada para mim, mas quero agora lhes pedir algo. Se vocês puderem me dar isto, eu vou ficar alegre, não vou ficar triste. Se não puderem me dar, eu não vou ficar triste, mas também não ficarei alegre”.

O povo de Brasil para Cristo ouvia atento, diria até compenetrado. De tempo em tempo, erguia aos céus volantes de propaganda eleitoral dos candidatos.

Aquelas cenas se repetiriam por várias vezes em outras cidades ao longo de todo o dia. Perante uma aglomeração de 500 pessoas em Araçatuba e outras 1.500, à noite, na Vila Ribeiro, bairro proletário de Lins. Ali, Manuel de Melo, o missionário, se suplantou.

Por quase duas horas, sem intervalo, falou aos seus seguidores do alto de um palanque instalado para a ocasião. Em determinado momento, subiu numa estreita tábua, no limite do palanque e sobre ela circulava num vai-e-vem constante. Falando, pregando, orando. Alguns pastores, temerosos, faziam as vezes de anjos da guarda. Ele não caiu.

Apresentou seus “grandes amigos”, Manuel de Melo, o candidato e Maurício Najar. Pediu algo que o deixaria alegre e não triste. Repetia a ladainha.

Quando o encontro terminou, a comitiva voltou para Araçatuba em busca de um hotel. Ali, Manuel de Melo, o candidato, falou de seus planos políticos. Eleito, dizia que iria instalar um escritório em São Paulo com seis salas. A sua e outras cinco para deputados estaduais que o acompanhariam. Para Brasília dizia que iriam cinco assessores de alto nível. Sobre Mogi das Cruzes, fez algumas confidências.

Incomodava-lhe, por exemplo, a oposição de alguns setores da Cidade que o rejeitavam.

Eu não sei a resposta exata para isso. Eu sei que há pessoas, na Cidade, que gostariam que o Padre Melo continuasse sendo um padre, pobre como quando chegou a Mogi das Cruzes. Não sei porque, sei que existem. Eu nunca respondi às críticas que sempre me foram feitas nesse aspecto, porque acho que elas não merecem resposta. Talvez um dia eu fale, eu diga tudo o que já ouvi. Talvez nunca fale e continue deixando que essas pessoas falem sozinhas. Realmente não sei”.

Na manhã de segunda-feira, 7h30, o avião decolou rumo a São Paulo. No pequeno aeroporto de Araçatuba, Manuel de Melo, o missionário e Manuel de Melo, o candidato, separaram-se por alguns minutos do grupo. No momento do embarque, ao invés de entregar o cartão da companhia aérea que estava em sua mão esquerda, o missionário entregou um cheque que estava na mão direita. O engano durou frações de segundos.

Manuel de Melo, o candidato, elegeu-se naquele ano; mudou-se para o Ceará e elegeu-se deputado federal por lá. Voltou a Mogi, elegeu-se vice-prefeito e assumiu a Prefeitura com a morte do titular. Vive hoje em Fortaleza. Maurício Najar elegeu-se deputado estadual naquele ano e deputado federal em seguida Morreu em 2001, tinha 67 anos. Manuel de Melo, o missionário, morreu em 1990, tinha 61 anos. Sua igreja Brasil para Cristo resiste, sem a mesma força de outras que surgiram depois.