EDITORIAL

A pureza do devoto

A participação nas rezas e cortejos é um dos patrimônios de dona Albertina

Dona Albertina Maria Ferreira personifica a figura mais pura e autêntica do devoto da Festa do Divino Espírito Santo. O devoto é o grande esteio da manifestação caipira surgida do encontro entre o santo e o profano desde quando os pioneiros imigrantes organizaram os primeiros festejos em Mogi das Cruzes para reproduzir a tradição que veio de Portugal.

A essência dessa expressão mogiana cultural e católica está na mulher que rezava três horas seguidas no Império, levava a palavra de fé e do Divino aos vizinhos e, na Entrada dos Palmitos, subia no cavalo para se apresentar aos da cidade. Repetia, assim, o que viveu na infância.

Ela era uma das rezadeiras, com uma diferença, trazia o DNA da vida na Serra, em meio à natureza, onde a luz demorou a chegar, e o asfalto está ainda por vir.

Durante o ano, ela batia de porta em porta dos sítios e casinhas do Itapeti, rezava o terço e recebia os primeiros donativos para custear do festejo. Principalmente quando a Festa era menor, as rezadeiras eram âncoras para os festeiros.

Também era a proprietária de um dos carros de boi que desfilam na Entrada dos Palmitos. E cuidou, assim, de perenizar a representação do que viveram os pais e avós, e ela própria. No passado, os moradores desciam a Serra do Itapeti com a produção de alimentos como o palmito, que era vendida ou entregue a familiares “da cidade”. A Festa do Divino Espírito Santo celebra o campo, a colheita, a união entre as pessoas.

A participação nas rezas e cortejos é um dos patrimônios de dona Albertina, que faleceu nesta semana, aos 76 anos.

A ela, a Nhá Zefa Onça, dona Rita do Café, dona Manna de Deus, e a tantas outras mulheres e homens, se deve a secularização dos ritos religiosos e pagãos surgida da resistência popular à condição do modo de viver da cidade, da expansão da urbanização, e do distanciamento entre o homem e a natureza.

Dona Albertina não servia para viver na cidade, mas não deixou a cidade de lado. Foi aprender a escrever depois dos 55 anos (ler, ela aprendeu só) quando a escola para adultos chegou à Serra.

O que ela viveu se encaixa em um dos conteúdos da pesquisa Entrada dos Palmitos, aspectos pagãos da Festa do Divino, da professora de Geografia, Neusa de Fátima Mariano, da Universidade Federal de São Carlos. “Nessa irredutibilidade da festa antiga, a esperança por um futuro promissor é mantida”. No caso de dona Albertina, as mudanças foram aceitas. Mas, fechado o Império, ela voltava às origens, ao silêncio da Serra do Itapeti, onde residia em um dos seus picos mais altos.