CHICO ORNELLAS

A Revolução de 1932 em Mogi

QUARTEL – O 1º Grupo Escolar de Mogi das Cruzes em 1932, transformado em quartel general das forças constitucionalistas. (Foto: arquivo)

Mogi de A a Z

QUARTEL – O 1º Grupo Escolar de Mogi das Cruzes em 1932, transformado em quartel general das forças constitucionalistas. (Foto: arquivo)

Pouco se falou estes dias sobre a presença de Mogi na Revolução Constitucionalista de 1932, cujo 87º aniversário transcorre nesta terça-feira. Na realidade, o único movimento revolucionário do século XX no País determinado por um ideal – o ideal paulista de defesa do Estado de Direito. Os demais, todos os demais foram determinados pela ânsia do poder. Como o de 1964, quando uns temiam que outros assumissem. Jogaram fora a Constituição. Muito ao contrário daquele 9 de julho de 1932, quando paulistas se ergueram em armas para exigir uma Constituição.

E como foi esse período por aqui?

Tinha 40 mil habitantes a Mogi das Cruzes que ingressou nos anos 30 do século passado. Eram 15 mil no centro do município e 25 mil na zona rural e nos distritos. O município, em extensão territorial, era muito maior que o atual e incluía os territórios, depois emancipados, de Arujá, Biritiba Mirim, Itaquaquecetuba, Poá e Suzano. Não foram anos fáceis esses. Se a estrutura política do País mudou – e muito – em decorrência da revolução de 1930, que conduziu Getúlio Vargas ao poder, na Cidade as mudanças foram ainda mais radicais. O poder político que havia era exercido por partidários do PRP, o Partido Republicano Paulista, derrotado na revolução. E não havia forças antagonistas na Cidade, com o que se desestruturou por completo o controle político. A tal ponto, que a Prefeitura passou a ser exercida por um coronel reformado da Força Pública, Eduardo Lejeune. Cioso de seu poder e comprometido com o espírito revanchista da nova ordem, o interventor cuidou de baixar, entre seus primeiros atos, alguns que revogavam homenagens prestadas a partidários do antigo regime. E, em Mogi, deixaram de existir, por conta da pena do coronel Eduardo Lejeune, as ruas e praças que levavam os nomes de Washington Luiz, Deodato Wertheimer, Carlos Alberto Lopes, Joaquim de Melo Freire e Arrigo Rossi.

Isso foi em 1931, mesmo ano em que um grupo de mogianos levou ao palco do Cine Parque a peça “Manhã de Sol”, de Oduvaldo Viana. Integravam o elenco: Aurora Negreiros, Sebastião Oliveira, Lulu Marcondes, Moacir Viana, Guiomar Pinheiro, Eugênio Pavan e Ruth Marcondes.

A situação política parecia calma até maio de 1932, quando estudantes paulistas começaram a reagir ao poder central e conduziram a uma conflagração. Depois do 23 de maio em que foram assassinados, na Praça da República, em São Paulo, os jovens Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo, imortalizados na sigla MMDC, o 9 de Julho de 1932 seria inevitável. Mogi das Cruzes aderiu de pronto ao movimento constitucionalista e, acredite quem quiser, até o coronel Eduardo Lejeune se alistou como voluntário nas frentes de batalha.

A revolução teve, pelo menos, o condão de reaproximar antigos desafetos. Grandes amigos no passado, os médicos Deodato Wertheimer e Milton Cruz andaram se desentendendo depois da revolução de 30. Mas, arregaçaram as mangas na Revolução Constitucionalista e, juntos, cuidaram dos feridos atendidos na Santa Casa de Mogi, transformada em hospital de campanha. Para ali também eram enviadas as levas de retirantes da Capital, que pensavam encontrar em cidades como Mogi um sítio mais seguro para sobreviver à guerra que se vislumbrava. As aulas do 1º Grupo Escolar (na Praça Coronel Almeida) foram suspensas e o prédio transformado em quartel do movimento revolucionário.

De pronto, um contingente de 200 mogianos alistou-se como voluntário para as frentes de batalha. A revolução foi rápida. Para Mogi das Cruzes também triste: quatro dos voluntários da Cidade morreram: Diogo Oliver, Jair Fontes de Godoy, um menino de 16 anos chamado José Antônio Benedito e um jovem, filho de uma das mais respeitadas e antigas famílias da Cidade – Fernando Pinheiro Franco. A morte deles comoveu toda a população local, em especial a de Fernando Pinheiro Franco, cujo nome acabou sendo dado, em seguida, à principal avenida da Cidade.

Testemunhas do sepultamento de Fernando dizem que só outro enterro havido em Mogi despertou tamanha comoção e movimentou tanta gente: o do médico Deodato Wertheimer, que morreu em 15 de agosto de 1935 e cujo enterro foi acompanhado, a pé, por milhares de pessoas. Quando o caixão estava chegando ao Cemitério de São Salvador ainda havia gente no Largo do Carmo.

Carta a um amigo

EM MÉRIDA – Ao lado de alguns de seus seguranças com mochila às costas, Juan Manoel Santos, presidente da Colômbia, fala em Mérida (México).

Quase Cuba

Meu caro Zé Carlos

Falávamos sobre viagens em um dia destes e você me contou que já havia percorrido perto de 60 países e mais de 100 cidades fora do Brasil; os países elencou todos – que memória! Cheguei em casa e fui a um exercício. Consegui me lembrar de 26 países e 74 cidades em que estive. Metade a trabalho, metade a passeio. Daquelas às quais fui a passeio tenho referências detalhadas; mas das que visitei a trabalho, poucas. Algumas, confesso-lhe, ficam no entorno da imaginação – quase um sonho.

Assim é, por exemplo, com Kingston, Capital da Jamaica. Estive lá em 1999 para uma apresentação em um congresso de jornalistas. Foram três dias de viagem, 24 horas apenas em Kingston. Não me pergunte como é – não sei, não conheci. Às quase 9 horas de voo entre São Paulo e Miami sucederam-se 3 horas de espera para o voo final de menos de 40 minutos para a ilha caribenha. Alguém me esperava no aeroporto e levou-me direto para um resort paradisíaco. Cheguei e dormi. No café da manhã encontrei um casal de amigos, jornalistas norte-americanos: Gary e Rose Neelemann, pais de David, o idealizador e presidente da Azul, empresa aérea em operação aqui no Brasil. Dividimos a mesa e eles me convidaram para um almoço fora. Em um lugar, disseram, único no mundo. Não dava, eu precisava preparar a apresentação da tarde.

Foi o que fiz. Às 15 horas um debate sobre o ensino do Jornalismo na América Latina, ao qual fui já com a mala pronta para voltar ao aeroporto e, novamente, enfrentar o voo Kingston-Miami-São Paulo. Quando cheguei em casa, 5 horas da manhã, não sabia se era sábado ou terça-feira.

Essas experiências deixam marcas. Algumas que poderiam soar desagradáveis, mas para as quais sempre encontro motivos para rir. Como em 2010, em Mérida, no norte do México, para a 66ª Assembleia Geral da Sociedade Interamericana de Imprensa.

Não costumo suspeitar de programações para as quais sou convidado – “a cavalo dado não se olham os dentes”. Devia. Mas, também desta vez, segui à meia-noite de 4 de novembro para a Cidade do México. Quando cheguei a Mérida, depois de 2 horas de espera na escala, eram 2 da tarde em São Paulo (11 horas locais). Ou seja: 14 horas, tempo suficiente para me levar a Frankfurt. Fiquei lá 2 dias, embarquei de volta na noite de domingo, 7 de novembro.

Não poderia dar outra coisa.

Estávamos em um grupo de sete jornalistas, incluindo gente de Monterrey (México), Lima (Peru), Santiago e Concepcion (Chile), Buenos Aires (Argentina) e Bogotá (Colômbia). Cada um esperando sua conexão, falávamos de tudo e de nada. O eixo da conversa era a exposição que o presidente da Colômbia, Juan Manoel Santos, havia feito no almoço de encerramento da assembleia havia poucas horas. A mim – dizia aos amigos – impressionou a constatação de que Santos, eleito com 68,9% dos votos colombianos, conseguiu 9 milhões deles, o que equivale a menos de 5% do colégio eleitoral brasileiro (147,3 milhões).

Ao mexicano Aurélio Collado havia despertado atenção o aparato de segurança em torno do presidente da Colômbia. O hotel estava cercado por peças de artilharia e o presidente, no salão, tinha ao seu redor um grupo de homens vestidos de branco, cada um com uma mochila às costas. No meio do grande espaço onde ocorria o almoço para 500 talheres, um homem de 2,15 de altura parecia um farol em constante rastreamento: pairava sobre o grupo e se apresentava ainda mais alto em meio àquelas pessoas, todas sentadas à mesa.

Eu escutava Aurélio e atentava aos avisos de embarque do pequeno aeroporto de Mérida. Então, baixou meu ‘diabinho da guarda’ no cochilo do anjo da guarda: eu ouvi, juro que eu ouvi a convocação de meu voo para a Cidade do México, levantei-me, me despedi, entreguei o cartão de embarque e segui. Estava no corredor do avião quando ouvi a voz de Aurélio: “Chico, Chico, você vai para a Havana?”.

Pois foi exatamente isso que aconteceu e, não fosse Aurélio, eu teria ido parar em Havana. Cidade, aliás, que ainda não conheci. Mas tem tempo.

Grande abraço do

Chico

FLAGRANTE DO SÉCULO XX 

TEMPO DE ANTÃO – Assim era, em 1932, a atual Avenida Voluntário Fernando Pinheiro Franco. A primeira rua à esquerda é a atual Dr. Deodato Wertheimer e, no terreno vazio à direita, seria construída a Estação Rodoviária da Praça Firmina Santana.

GENTE DE MOGI

MÁRTIR – Ele tinha 20 anos, quando se alistou nas fileiras paulistas conflagradas, em 1932, no que ficou conhecido como Revolução Constitucionalista. Foi dos primeiros a integrar, em 12 de julho de 1932, o 1º Batalhão de Caçadores de Mogi das Cruzes. Designado para o Batalhão Piratininga, tombou às 7 horas do dia 15 de agosto de 1932, ao defender a ponte de Vila Queimada, no município de Queluz. Fernando Pinheiro Franco dá nome a uma das principais avenidas da Cidade.

O melhor de Mogi

A Colônia Japonesa. Foi, sem dúvida, a corrente migratória que mais influiu para o desenvolvimento da Cidade e a sua caracterização como cinturão verde. Mantém núcleos de cultura que preservam sua identidade e evolui sem esquecer suas origens.

O pior de Mogi

O limite de velocidade de 80 quilômetros por hora na Mogi-Dutra duplicada. Afinal, por que se gastou milhões na obra? Para manter o mesmo limite? Ou se mantém o limite para garantir a receita de multas? A Via Dutra, de características semelhantes, tem limite de 110 quilômetros e, nas avenidas Marginais de São Paulo, 90 quilômetros em trechos urbanos! Está difícil de explicar.

Ser mogiano é….

Encontrar pelo menos cinco conhecidos a cada passada pelo Varejão, nas manhãs de domingo.

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