ARTIGO

A vida é sucessão de tapas na cara

Lucas Meloni

b/lucasmeloni

Instagram @lucasmeloni_

Se possível fosse, eu gostaria de viver nos universos dos livros que leio. Lá, as personagens são mais apaixonantes, humanas, reais. Escaparia da falsidade cotidiana, inclusive da minha, de responder que está tudo bem a alguém quando nada está bem. Bom seria estar nos livros porque saberia também do meu final.

Acho que se minha existência estivesse trilhada em linhas de um escrito, teria mais norte do que a que realmente vivo. Talvez houvesse mais respostas às minhas perguntas da vida, às minhas dores da alma. Viver fora dos livros é uma sucessão de tapas na cara, uma agressão cotidiana na busca pela sobrevivência. A vida na literatura me parece ser mais gloriosa. Viveríamos infortúnios, claro, mas quem não quer ficar registrado na História de alguma forma? Há aqueles que serão lembrados pela sua vontade de viver e pela diferença que fizeram e outros pelos espaços que deixaram de ocupar.

Os tapas na cara são despertadores para que, enquanto estivermos respirando, ocupemos os espaços a nós destinados. Os erros são os convites da vida para que voltemos à realidade e nos fazem perceber que somos limitados. Não somos tão incríveis como em alguma fase chegamos a cogitar.

As personagens dos livros são questionáveis. Até hoje debatemos se Capitu (a moça dos olhos de cigana oblíqua e dissimulada) traiu ou não Bentinho em “Dom Casmurro”, uma obra do final do século 19. Nós somos seres inquestionáveis. Não abrimos brecha para que falem de nós. Desta forma, cortamos a aproximação. Não falamos sobre nossos problemas e não desabafamos quando precisamos. Caminhamos a passos largos, veja que irônico, para o isolamento no século em que a comunicação digital nos permite conversar com pessoas em qualquer lugar do mundo. Quem vive nos livros têm vida aberta.

Quem é do escrito tem história para contar. Quero tê-las também. Na realidade, buscamos tanto o lugar comum e, convenhamos, o comum não rende coisas a contar. É desinteressante. O tapa moral na cara é o antídoto para sarar o mal da mesmice. Quando eu morrer, quero ser lembrado como alguém que fugiu do trivial de alguma forma. Quero ser o alguém que achou respostas a algumas perguntas da vida e o bálsamo para algumas dores da alma tentando ser uma pessoa melhor. Se eu não conseguir, pelo menos eu tentei.

Lucas Meloni é jornalista