A Vila Dignidade e as histórias de vida dos idosos de Mogi

Terezinha mora há dois anos na Vila Dignidade. (Foto: Elton Ishikawa)
Vila Dignidade tem 22 casas em Mogi. (Foto: Elton Ishikawa)

Vinte e duas casas coloridas em um condomínio sob o céu da Vila Cecília, no distrito de Braz Cubas, falam mais sobre resiliência do que muitos livros. Os habitantes são da terceira idade e exemplos de que a vida pode ter passado por diversos altos e baixos, mas que talvez só agora na maturidade ela compense toda a capacidade de resistir exigida em tantos momentos. Na Vila da Dignidade, hoje, 18 idosos têm teto, luz, água, comida, vida em sociedade e a oportunidade de realizar sonhos. Dignidade.

O abrigo é o primeiro da cidade para pessoas que chegam à terceira idade sem residência fixa e também sem um vínculo familiar que preste assistência. Nele, idosos em situação de independência ganham uma casa com um quarto, banheiro, sala e cozinha, além de uma área no fundo, e o básico dos móveis e eletrodomésticos.

Há um ano, Leila Rodrigues Mathias passou a coordenar a Vila Dignidade, e as casas coloridas já fazem parte das medidas adotadas para dar vivacidade ao local. Sem tom político, o nome dela é falado por quem vive lá como uma grande mãe, que os ajuda a lidar com as dificuldades diárias, que vão desde um cano entupido, até os problemas de relacionamento.

E as histórias por lá são as mais diversas, porque representam o que muitos trazem na bagagem. Na maior parte dos casos, segundo Leila, eles preferem não falar de família. Houve uma situação, por exemplo, de um senhor que viveu por quase duas décadas na rua, foi para lá e teve medo de cair na cama. Nos primeiros dias, ele embolou os cobertores e dormiu no chão.

“Eu falei para ele que isso ia mudar, que eu iria ajudá-lo. Encostei a cama na parede e o outro lado eu coloquei a cômoda. Falei para ele que não teria como cair”, relembra.

Eles têm autonomia para sair, fazer compras, cozinhar. Mas Leila está lá para cuidá-los como uma mãe que zela pelo filho. Há caso que precisa orientar sobre a roupa, higiene, e reprimi-los quando necessário.

“Eu falo para eles para não me verem como uma funcionária, porque aqui a gente vive em família. Como boa família, eles me ligam de madrugada. Ontem mesmo, durante a apresentação da orquestra, uma casa começou a pegar fogo aqui. Eu corri pra cá”, diz.

Silvana Aparecida Leite Costa trabalhou por muitos anos na limpeza de escola. Há cinco, ela está na Vila da Dignidade. A convivência faz ela se entristecer quando as casas ficam vagas. Isso ocorre quando o idoso se torna dependente e tem de ser transferido. “Hoje eu já sei como cada um é, então a gente se apega. Quando um deles morre, a gente fica muito triste, é família”, diz.

Maioria faz tratamento psicológico

A questão psicológica é tratada com a maior parte dos idosos, não só pelo histórico de vida, mas também pelo envelhecimento. A assistente social Camila Cristina Taceli explica que o acompanhamento oferecido por meio de atividades e consultas é para lidarem com a perda de capacidade, que reflete diretamente no psicológico da pessoa na terceira idade. “A gente faz um trabalho para eles continuarem ativos dentro da capacidade atual deles, mostrando que hoje é um novo momento da vida, que pode ser aproveitado de outras formas”, explica.

Uma vez por semana ela vai até a Vila para fazer a identificação das necessidades dos idosos e faz o encaminhamento à rede municipal. Parte dessas demandas também é identificada pela faxineira e a coordenadora do local, Silvana Aparecida Costa e Lelia Mathias, respectivamente.

Atualmente, a Vila da Dignidade tem quatro casas ociosas, mas só duas devem ser ocupadas nos próximos dias. As outras duas devem esperar um retorno de dois moradores que debilitaram e precisaram de acompanhamento médico.

“Agora para as outras a gente está fazendo a triagem, são cerca de 80 idosos na fila. Para agora, a gente faz a triagem de uns 10, para saber qual deles está no perfil com a análise de três eixos: renda mensal de até dois salários-mínimos, que tenha o vínculo familiar fragilizado, e sem habitação”, detalha.

Dos 18 idosos hoje na Vila da Dignidade, apenas três não têm aposentadoria. Esses são assistidos com cesta básica e de higiene pessoal pela Prefeitura de Mogi.

A primeira casa

Só aos 67 anos, a aposentada Terezinha José Pereira entrou pela primeira vez em uma casa em que poderia chamar de sua. É a de número 10 na Vila Dignidade. Durante toda a vida, trabalhou como faxineira na mineradora Cosim, depois passou pela Universidade de Mogi das Cruzes, e por último trabalhou como diarista e fazia salgados para custear os R$ 400 de aluguel. Nem mesmo a aposentadoria já na terceira idade possibilitou ter esse lar. Mas ela veio e hoje já está do jeito que ela sempre quis: jardim de flores na frente, hortaliças plantadas no fundo, cortinas vermelhas na sala, enfeites, armários, sofás, geladeira, fogão. Uma lar. “Demorou, mas hoje é tudo do jeito que eu quis. Me basta agradecer”, diz.

Terezinha mora há dois anos na Vila Dignidade. (Foto: Elton Ishikawa)

Dona Terezinha é uma das mais ativas do local. Quando a reportagem chegou ao condomínio, ainda conversando com a coordenação do local, ela tratou de pedir licença para acompanhar a entrevista. Puxou uma cadeira e ali fixou, a ouvir e contribuir com a conversa sobre o dia a dia na Vila Dignidade.

Ansiosa para mostrar a casa, mas pedindo para que não “colocasse reparo”, já que no dia anterior havia ido assistir à apresentação da Orquestra Sinfônica de Mogi das Cruzes, e não teve tempo de deixar tudo arrumado, ela abriu a porta da casa, logo após mostrar o jardim – um de seus orgulhos.

Começa a entrevista e ela fica a caminhar pela casa. Ainda contando do sonho de ter o imóvel, após anos caminhando até a Secretaria de Assistência Social a fim de acompanhar a liberação de moradias populares da cidade, ela tem um branco e não consegue dizer a ideia. Ela levanta e vai atrás dos documentos e mostra, com os olhos cheios de lágrimas, o RG, que comprova os 69 anos completados em 17 de agosto.

“Eu tomo remédio para a diabetes e pressão, e acho que eles estão me deixando muito esquecida. Agora mesmo eu só atendo o telefone, porque não consigo mais ligar. Hoje foram os meus olhos que amanheceram assim, lacrimejando”, diz enquanto limpa as lágrimas.

Nascida em Santos Dumont, em Minas Gerais, veio para São Paulo com os 16 irmãos e a mãe, logo após a morte do pai, ela diz poucos puderam conhecer a casa. Um dos irmãos e uma cunhada vão visitá-la, às vezes. A única filha que teve, acredita ela, nem sabe o endereço atual da mãe.

“Quando o meu marido me batia, eu decidi voltar para Minas. Mas ele foi lá e pegou a menina. Ela só apareceu quando eu aposentei, para me pedir uma moto. Eu disse para ela que não tinha condições, porque se tivesse daria até mais. Só que depois disso ela desapareceu. Não tenho mais notícia”, ressalta.

Tão logo Terezinha se levanta e quer me mostrar o restante da casa. A horta que mantém no fundo, com couve, hortelã, erva cidreira, e até jiló e inhame. Casa apresentada, a reportagem pede para fazer uma foto. Ela pede tempo para lavar de novo o rosto e pentear o cabelo. Terezinha quer sair bonita no registro que tem como paisagem o seu lar.

Maria, a Piedade

Há 70 anos, quando nasceu, Maria Targino ganhou entre nome e sobrenome o Piedade: uma promessa da mãe para que ela resistisse à saúde debilitada. Casou, teve seis filhos, cuidou de outras crianças, foi babá da delegada Valene Bezerra, passou muita roupa para criar os filhos, e também sofreu muito com o relacionamento. Esse excesso de passado resultou em uma depressão e até tentativa de suicídio. Mas, mais uma vez, ela resistiu, e hoje tem entre as alegrias da vida a casa para morar: um sonho realizado.

Maria Piedade Targino. (Foto: Elton Ishikawa)

Todos os dias, quando levanta, Maria lê o salmo 23 e faz uma reflexão sobre a vida. Ultimamente, ela prefere deixar para trás o que foi o passado. Pouco falou dele. Lembrou só do dia em que foi contemplada com uma moradia popular, há muitos anos, mas quando chegou ao apartamento no bairro do Rodeio, descobriu que ele tinha sido invadido por uma família formada pelo casal e três filhos.

“Uma criança veio e agarrou a minha perna. Parecia que ela pedia clemência para deixar a família dela lá. Um dos meus filhos tinha ido comigo, e perguntou o que a gente ia fazer. Eu voltei na prefeitura, devolvi as chaves e disse que não poderia entrar naquela casa, porque pra isso uma família ia precisar ir para a rua. Eu não me sentiria bem assim”, relembra.

Há pouco mais de quatro anos, ela foi contemplada com uma das casas da Vila da Dignidade. Teve alguns percalços com alguns vizinhos, mas também fez família com outros. A coordenadora Leila ela chama de filha, mas se emociona ao lembrar do vizinho de porta, Albrecht Strasse, que morreu há um ano, e nas décadas de 1960 e 1970 foi crítico de cinema em O Diário. “Todos os dias, ele me chamava para pedir café. Gostava muito. A gente conversava bastante, ele tinha uma inteligência sem igual. Até hoje, toda vez eu abro a porta e vejo a casa dele, fico triste”, conta.

Maria tem contato com os seis filhos, um deles, morador de Jundiapeba, é o que ela vê com mais frequência.


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