ENTREVISTA DE DOMINGO

Adilson e Sueli Oliveira, 55 anos juntos

Sueli e Adilson Ariza, 74 e 78 anos respectivamente, e casados há mais de cinco décadas, relembram as histórias vividas em Mogi das Cruzes. (Foto: Eisner Soares)
Sueli e Adilson Ariza, 74 e 78 anos respectivamente, e casados há mais de cinco décadas, relembram as histórias vividas em Mogi das Cruzes. (Foto: Eisner Soares)

Os tempos de estudos em escolas da Cidade, os bailinhos nas casas das famílias, as amizades feitas na juventude e preservadas até hoje, a participação no Cursilho de Cristandade e o trabalho desenvolvido na Associação de Proteção de Assistência Carcerária (Apac) marcam a vida do casal Adilson Ariza de Oliveira e Sueli Teixeira Ariza de Oliveira. Nascido na Capital Paulista, ele veio com a família para Mogi das Cruzes aos 3 anos de idade e se considera mogiano. Nadava no coxo do Rio Tietê, saía nos blocos de rua no Carnaval, frequentava os cinemas Urupema e Avenida e os bailes do Itapeti Clube. Fez o primário no Instituto Dona Placidina, iniciou o ginásio no Liceu Braz Cubas e o concluiu no Instituto de Educação Dr. Washington Luís. Em seguida, estudou Contabilidade no Liceu Braz Cubas e se formou na turma de 1977 da Faculdade de Direito da Universidade Braz Cubas (UBC). Sueli nasceu em Rio Claro e chegou a Mogi aos 10 anos, com os pais, para morar na região da Praça da Bandeira e depois em César de Souza. Cursou do primário à oitava série do ginásio no Colégio Puríssimo Coração de Maria, em sua cidade natal. Depois, fez o Magistério no Liceu Braz Cubas, Educação Física na primeira turma do Clube Náutico Mogiano e Administração Escolar em Suzano. Na entrevista a O Diário, o casal conta suas histórias na Cidade:

Quais as recordações dos tempos de infância e juventude?

Adilson – Nasci em São Paulo, mas aos 3 anos de idade minha família veio morar em Mogi das Cruzes, então, me considero mogiano. Tive uma infância muito boa, aprendi a nadar no coxo do Rio Tietê, onde meu pai curou minha bronquite me jogando na água fria às 5 horas. Também costumava ir ao Clube Náutico para pular do trampolim e brincar com as boias de pneus grandes de tratores. No Carnaval, formávamos blocos para sair às ruas, como uma vez em que, com um grupo de rapazes, coloquei uma faixa na frente do pijama escrito ‘As Olímpicas’, satirizando as meninas da fanfarra do Washington Luís. Em outra ocasião, usamos os uniformes emprestados das escocesinhas, que também fizeram sucesso na fanfarra da escola, e saímos pelas ruas de Mogi no Carnaval.

Sueli – Eu sou de Rio Claro, mas quando tinha 10 anos, minha família veio morar em Mogi, já que meu pai era fiscal de rendas e foi transferido para cá. Morávamos na Praça da Bandeira e, na época, minha irmã Elzira conheceu e começou a namorar o irmão do Adilson, o Ari, com quem se casou anos mais tarde. Nós nos mudamos para uma chácara em César de Souza e como eu estudava no Centro, quando tinha aulas de Educação Física, ficava na casa da minha amiga, Ana Maria, irmã do Adilson. Depois, voltamos para Rio Claro e quando a Elzira vinha para Mogi, eu a acompanhava e ficávamos na casa da dona Zilda e do seu Manoel Rudge, que também eram fiscais de renda e amigos do meu pai. Lá, assim como na casa de outras famílias, havia os bailinhos e foi em um deles que, já aos 14 anos, revi o Adilson e começamos a namorar, mas ele foi para o Exército e reatamos quando eu tinha 15 anos, me casei aos 18 e vim morar em Mogi.

Onde foram os estudos?

Adilson – Fiz o primário no Placidina (Instituto Dona Placidina) e a primeira série do ginásio no Liceu Braz Cubas, mas fui para São Paulo e depois conclui o curso no Washington Luís (Instituto de Educação Dr. Washington Luís). Em seguida, estudei Contabilidade no Liceu e me formei na turma de 1977 da Faculdade de Direito da Universidade Braz Cubas (UBC).

Sueli – Do primário até a oitava série do ginásio estudei no Colégio Puríssimo Coração de Maria, em Rio Claro. Depois, fiz o Magistério no Liceu Braz Cubas, Educação Física na primeira turma do Náutico e Administração Escolar em Suzano.

Em quais escolas a senhora lecionou?

Sueli – Dei aulas para o primário em uma escola isolada de Mogi, até que me formei em Educação Física e fui lecionar em Sabaúna e nas escolas Laurinda Cardoso Mello Freire e Lucinda Bastos, em Mogi. Fui diretora durante sete anos na escola José Ribeiro Guimarães, no Botujuru, e outros três na Pedro Malloze, onde me aposentei.

Em quais locais o senhor trabalhou?

Adilson – Aos 16 anos, comecei a trabalhar como escriturário na Casa Bancária Paulicéia, em São Paulo. Nesta época, morei em um apartamento na Capital com os amigos Mário Kauffmann, Mauricio Najar, Abib Neto e Roque Komatsu, que eram estudantes de Direito e mais velhos do que eu. Depois, servi o Exército em Caçapava e, de volta a Mogi, trabalhei na farmácia Droga Ariza, na Rua Coronel Souza Franco, 373, que por 50 anos foi do meu pai (Aureliano Ariza), na área de contabilidade. Depois, fui para a empresa de pneus e recauchutagem Auto Solex, com o Ricardo Strazzi e os irmãos Nabil e Salomé Salomão. Depois, compramos a Sometra, mas foi uma fase difícil, na época do regime militar, então não deu muito certo e saí para trabalhar com seguros.

E como foi o trabalho na área de seguros?

Adilson – Em 1966, abri a empresa em sociedade com o Mário Bourg, na época em que havia outros três corretores de seguros na Cidade. Depois, trabalhei na montagem da corretora de seguros do Grupo Urbano e também em uma indústria de móveis para piscina e jardim em fibra de vidro, em São Paulo. Foram 14 anos viajando, até que voltei a trabalhar aqui. Fui nomeado juiz classista de Itaquá e atuava na Justiça do Trabalho fazendo a conciliação entre o empregado e o patrão. Enquanto isso, na parte da manhã, trabalhava montando minha carteira de seguros. Foi assim que em 1994 criei a Chest, onde trabalhei com seguros de todos os tipos até o ano passado e que hoje está com minha filha Ana Mara.

Senhor Adilson, qual a relação do seu pai com o jornal O Diário de Mogi?

Adilson – Meu pai cedeu gratuitamente o prédio na Rua Barão de Jaceguai para o Tote (Tirreno Da San Biagio, fundador de O Diário) montar o jornal no início de tudo. Quem me contou isso foi o próprio Tote, uma vez que me encontrou na Urbano, hoje Original Veículos. A amizade valia mais do que o dinheiro. Aliás, tenho vários grupos de amigos de escola, do Exército…. Um deles é formado pelo Sérgio Knippel, Luiz Geraldo Alves, Paulito Costa, Roberto Bottini e Marinho Veiga, que se reúne todas as sextas-feiras, às 8 horas, para tomar café juntos. O Marcos Souza Leite, que faleceu recentemente, também fazia parte deste grupo.

Ficaram mais lembranças da Mogi das Cruzes de antigamente?

Adilson – Outra distração era ir aos cinemas. Aos sábados, frequentávamos o Avenida e, aos domingos, o Urupema. Além disso, havia os inesquecíveis bailes do Itapeti Clube, com excelentes orquestras, principalmente aqueles a rigor realizados nos finais de ano, onde usávamos smoking. As mulheres iam de vestidos longos e sapatos de salto fino. Aliás, os homens colocavam terno e gravata até para as sessões de cinema à noite. Eu ia à missa todos os domingos. Mogi era uma cidade pacata, tranquila e podíamos andar a noite, sem qualquer perigo. Começou a mudar com a abertura das faculdades de Direito da Universidade Braz Cubas e de Medicina da Universidade de Mogi das Curzes. Este foi o grande divisor de águas na Cidade porque muita gente vinha para cá estudar, alguns voltavam para casa em ônibus fretados, mas outros ficavam aqui e, mesmo depois de formados, permaneciam em Mogi. Dizíamos que o horizonte de quem se forma em Mogi é a Serra do Itapeti.

Sueli – A chácara que morávamos na Vila Suíssa, onde hoje é a Höganäs, ocupava quatro quarteirões e tinha várias árvores frutíferas. Por perto havia a casa do seu Dante Stoppa, a Cerâmica Marcatto e a casa da família Marcatto, onde convivi com a Catarina Marcatto e os filhos, e o armazém do seu Ari. Lá os produtos ficavam em recipientes e eram retirados com uma concha para serem pesados na frente do cliente. Foi um tempo muito bom, adorava andar de bicicleta e passear as amigas Sonia Knippel e Terezinha Cardoso. O Chiquito e o Zair Marcatto tinham um veículo que conhecíamos como baratinha, que trazia um banquinho no lugar do porta-malas. Em César, também costumávamos encontrar com o padre Herval Brasil, que era capelão da Marinha e uma vez me salvou porque estava brincando no Tietê e o rio começou a me levar.

O casal teve envolvimento em outras atividades na Cidade?

Adilson – Fazíamos parte da Apac (Associação de Proteção e Assistência Carcerária), que tinha sede em frente à Padaria Flor de Mogi, onde hoje está a Delegacia da Mulher, e sempre estávamos na Cadeia visitando os presos e os envolvendo em várias atividades com o objetivo de salvá-los. Este trabalho teve grande apoio da Igreja Católica, principalmente do bispo da época, dom Paulo Rolim Loureiro, do ex-prefeito Waldemar Costa Filho, do então juiz Walter Cruz Swensson, do sargento Garcia, do promotor Gustavo Dantas de Melo, entre outros. O grupo era presidido pelo Luiz Augusto Viana do Rio e também contava com o trabalho do Arnaldo Boquita, Marcos Bastos Machado, Benedito Ferreira de Souza, Miguel (ele não se recorda o sobrenome), Waldomiro Garcia, entre outros, além de suas esposas. Na época da Codemo (Companhia de Desenvolvimento de Mogi das Cruzes), os presos foram os melhores vendedores de asfalto da Cidade. Agora, estou me dedicando à Casa São Vicente de Paulo, que tem 103 anos, mas já participava da Confraria de São Vicente.

Sueli – A Apac envolvia as famílias e o terceiro estágio era a saída dos presos para trabalhar fora. Preparávamos almoços uma vez por mês para eles, comemorávamos os aniversários, participávamos das missas aos domingos no presídio e depois os levava para almoçar em casa, fazíamos reuniões e tudo o que fosse possível para recuperá-los. Uma vez, levamos 70 deles até o Tabor, onde participaram de evento com presidiários de Taubaté, São José dos Campos, São Sebastião, entre outros locais. A proposta era recuperar estas pessoas para que pudessem ser reinseridos na sociedade. Também levamos vários deles para participar do Cursilho de Cristandade, onde aprendemos que Deus é amor. Lembro que a irmã Conceição, do Placidina, também nos ajudou muito neste trabalho e eles as tratavam como uma rainha. Quando ela visitava as celas, os presos colocavam todos os colchões no meio para ela se sentar no alto. Ela tinha o presídio nas mãos.

Vocês estão casados há 55 anos. Qual o segredo para manter o matrimônio?

Sueli – É valorizar e preservar a família, com muito amor e compreensão. Temos uma família unida e cheia de amor, que não é perfeita, mas para nós é a melhor do mundo. Um sempre se preocupa com o outro.

Adilson – A família é a base de tudo, o ar que respiramos.