CHICO ORNELLAS

Adutora do Rio Claro

ESPLANADA – Os galpões da Esplanada, na área hoje ocupada pelo Mogi Shopping Center, resistiram por 40 anos, muito depois de concluídas as obras da Adutora do Rio Claro. Da sonhada estrada de ferro ao Porto de São Sebastião não sobrou nada.

Foi a maior obra pública até então empreendida em Mogi das Cruzes. E transformou a Cidade. Mas, como tudo por aqui, demorou. E muito. Começou no início do século passado, quando São Paulo, despontando como metrópole a partir da riqueza gerada pelo café, passou a enfrentar dificuldades no abastecimento de água. Dentre as alternativas, pensou-se na adução das águas do Rio Claro. A seu favor, tinha – em relação ao Rio Tietê – as condições sanitárias; já àquele tempo temia-se pelo uso das águas do Tietê sem tratamento. Contra, a distância: quase 100 quilômetros até a Capital.

Saturnino de Brito, o engenheiro que idealizou, entre outras obras, as avenidas marginais dos rios Tietê e Pinheiros, incluiu o Rio Claro como manancial paulistano em 1905 e, em 1906, Euclides da Cunha avaliou sua vazão em 200 mil metros cúbicos/dia. O primeiro projeto é de 1912. E aí começaram as questões: um dos projetistas, José Mattoso Sampaio Corrêa, pretendeu assumir a responsabilidade por tudo. A nascente do Rio Claro estava em terras de sua propriedade e ele se dispôs a empreender a ideia em troca da exploração, por 20 anos. Proposta recusada, plano abandonado.

Sampaio Corrêa voltou à carga em 1925 e, desta vez, a sugestão – sem concessão – foi aprovada e as obras da adutora iniciadas no ano seguinte, simultaneamente às dos reservatórios da Mooca (72 milhões de litros) e da Lapa (26 milhões de litros).

Já se disse que tudo por aqui é demorado? Pois questões políticas geradas a partir da morte de Carlos de Campos, então governador (dizia-se presidente) do Estado, levaram à paralisação das obras entre 1930 e 1932. Retomadas em 1933 com projetos ampliados, ficaram prontas em 1939: eram 78 quilômetros de canalização (outros 8 seriam concluídos em seguida) que levavam 86,4 mil m3/dia, então a maior contribuição de abastecimento de água para a Capital, compartilhando essa marca com o sistema Guarapiranga.

Hoje, os números são outros e todo o sistema Alto Tietê (que Rio Claro integra com Tietê, Claro, Paraitinga, Biritiba, Jundiaí, Grande, Doce, Taiaçupeba-Mirim, Taiaçupeba-Açu e Balainho) responde por metade da contribuição do sistema Cantareira: aqui 15 mil litros/segundo; Cantareira, 33 mil litros/segundo.

Mas, para a Mogi das Cruzes da década de 1920 e seus 20 mil habitantes de então, aquele projeto era um assombro. Assombro maior até que a Usina Hidrelétrica de Salesópolis, que Ricardo Vilela empreendeu em 1914 para gerar a energia que alimentaria sua fábrica de chapéus em Mogi.

Milhares de trabalhadores braçais embrenhavam-se nas matas entre Casa Grande e o bairro da Mooca, em São Paulo. A linha da adutora corre ao sul, paralela ao pé da Serra do Mar e há, hoje, uma pequena ponte na estrada Mogi-Bertioga que passa sobre ela.

A logística da obra era incrível para a época. Em Mogi das Cruzes, na área hoje ocupada pelo Shopping Center, foram construídos galpões ferroviários e escritórios. Os galpões, que os daqui chamavam de Esplanada, serviam para o armazenamento de peças que composições da Estrada de Ferro Central do Brasil traziam, incluindo os dutos. Havia acampamentos em Casa Grande e Capela do Ribeirão. O resto era no braço, com pás e picaretas.

No sonho grande da época, o espaço então ocupado pela Esplanada seria, no futuro, o ponto inicial da estrada de ferro que ligaria os trilhos da Central do Brasil ao porto de São Sebastião, alternativa para o porto de Santos. Os interesses de então impediram: ao lobby de Cândido Gaffrée e Eduardo Guinle (concessionários do porto de Santos) e da São Paulo Railway (concessionária da Estrada de Ferro Santos a Jundiaí) não interessava um porto concorrente, tampouco uma ferrovia que o viabilizasse.

Ainda assim o projeto da ferrovia seguiu em frente. Enquanto resistiram as construções da Esplanada e alguns dutos remanescentes, abandonados no pátio, o tema ia e voltava no debate governamental, incentivado por deputados da terra, como Henrique Peres e Chiquito Franco. Isso até meados da década de 1970. Foi enterrado pelo primeiro Plano Diretor da Cidade (1967), pelo fim das obras de duplicação da adutora (1977, sob tutela da Sabesp) e pela inauguração do Mogi Shopping Center (1991).

Carta a um amigo

E então, há 25 anos…

Paco meu caro

Um velho companheiro de trabalho, desses que a gente encontra de quando em vez, mas nunca esquece, escreveu-me há algum tempo, depois de ler passagens como esta, dizendo que eu tinha uma afinada memória afetiva. E uma arcaica memória seletiva. Pois, lembrei-me de pronto desta observação ao devanear dia destes sobre a nossa própria amizade. Tudo porque faz exatos 25 anos que nos conhecemos! Como lembrei-me disto? Fácil.

Foi em janeiro de 1994. Atendendo a convite do Departamento de Estado norte-americano, eu viajaria para os Estados Unidos. Iria cumprir um programa de 21 dias que incluía visitas a escolas de jornalismo e a jornais. Eu devia a Nanci, minha mulher e ao caçula Frederico, uma viagem também aos Estados Unidos. Os mais velhos – Felipe e Clarissa – já haviam ido à infalível Disneyworld. E quando foram, 8 anos antes, Frederico tinha apenas 5 anos. Eu lhe disse, então, que a viagem dele seria depois e que ele não se arrependeria. Fizemos nossos planos: eu ficaria os 21 dias da visita oficial e os encontraria em seguida, para percorrer as duas costas da Flórida e estender o périplo à Europa, com incursões por Espanha e Portugal. O programa, agora você deve estar se lembrando, entusiasmou também nossa querida Neid Da San Biagio. Foram todos e, numa manhã no final de janeiro de 1994, eu os encontrei no Aeroporto de Miami. Passamos 10 dias inesquecíveis.

Logo no início, a convite de um amigo comum, que nós dois preservamos, marcamos um jantar para um restaurante imperdível em Miami. É o Chart House, em uma marina de Coconuto Grove, onde encontramos um grupo de brasileiros e norte-americanos para uma noite memorável. Seguindo o roteiro que meu irmão Guilherme nos forneceu, subimos em direção a Orlando, costeando o Golfo do México. Com uma escala em Tampa, hóspedes de Helen, americana que tem o Brasil como sua segunda pátria e Mogi como sua segunda cidade. Helen, quando adolescente, viveu por aqui um bom tempo, em casa de Tote e Neid Da San Biagio.

Findo o roteiro da Flórida, seguimos de Miami para Madri e de lá, de carro, para Pamplona. Seria minha primeira ida à Universidade de Navarra, a convite de professores espanhóis que eu conhecera pouco antes no Brasil. E com os quais estabelecera uma relação de camaradagem, a partir de um programa de bolsas de estudo que criara para o curso de jornalismo em Pamplona. Mariana Caetano, a primeira contemplada – e hoje uma brilhante editora, estava na universidade e nossa viagem serviria também para reencontrá-la.

Chegamos a Pamplona na hora do almoço e fomos direto para o Faustino, o legendário restaurante da comunidade acadêmica. De lá, para um passeio pelo campus. Foi aí que nos apresentamos rapidamente. Encontro que você definiria, alguns meses depois, agora no Brasil, como “muito estranho”. Tudo porque eu lhe parecera um homem muito sério, de poucas palavras.

A primeira impressão, sabemos nós, nunca é definitiva. Alguns meses depois eu fui ao seu encontro no aeroporto de São Paulo, onde você chegava para ministrar aulas de jornalismo. Era um sábado e seguimos direto, de Guarulhos, para o almoço no Clube Paineiras do Morumbi. Ali no restaurante, puxando conversa, você me perguntou se eu conhecia Piquê. Eu lhe respondi que “sim, Nelson Piquet”. Você estranhou a resposta, pois referia-se a um antigo companheiro que eu, àquele tempo, ainda não conhecia – Tony Piquê. Demorou bem dois minutos para você entender e soltar um expressado “Ah, o piloto de Fórmula 1”. E eu reagi: “Caiu a ficha?” E você novamente com ar de surpresa, desconhecendo uma expressão comum aos brasileiros.

Pois é, Paco. Tudo isto está fazendo 25 anos. Tempo suficiente para que tenhamos nos reencontrado todos os anos. Seja na Espanha, com nossas idas a Bilbao, San Sebastian, Burgos, San Francisco Xavier, Coruña; seja no Brasil, com suas visitas a Mogi (e nossa Festa do Divino Espírito Santo), Riviera de São Lourenço, São Paulo, Campos do Jordão. Este ano marcamos novos encontros e já os estou a recordar: o próximo, em poucos dias, quando o visitarei, à sua mãe e seu irmão, na Galícia.

Um grande abraço do

Chico

GENTE DE MOGI
FOTÓGRAFO – Ele chegou a Mogi em 1936, montou bem cuidado estúdio fotográfico e nele trabalhou por quase 20 anos, até sua morte, em 1953. João Benedicto Fittipaldi era figura constantes nas récitas culturais, esbanjando a oratória que dominava. Pena que a cidade não preserve, como deveria, seu acervo iconográfico.

O melhor de Mogi

O culto à lenda de São Longuinho, o santo da Igreja da Freguesia da Escada, em Guararema. Nos remete a uma das melhores características da Cidade: a arraigada identidade de muitos com tesouros sentimentais. No caso de São Longuinho, o milagreiro das coisas perdidas, não deixar de dar três pulinhos quando encontrar o que procura.

O pior de Mogi

Ele é civilizado, bem cuidado na aparência. Mas falta-lhe algo essencial para instituição que se dispõe a preservar a memória: o Cemitério Parque das Oliveiras tem uma página capenga na internet, onde não se consegue nem localizar a sepultura dos ali reverenciados.

Ser mogiano é….

Ser mogiano é… ter disputado campeonato de bocha na cancha do Cine Parque.