CIRCUITO

Agente social Osni Damásio da Silva defende a solidariedade consciente

Osni Damásio da Silva. (Foto: Eisner Soares)

É o que pede o teólogo e agente social Osni Damásio da Silva, que desde 2013 é coordenador do Centro Pop de Mogi das Cruzes. Localizado no Mogilar, este equipamento oferece serviços especializados para pessoas em situação de rua, partindo do princípio que a solução para as problemáticas é oferecer conforto e atividades em locais seguros e distantes das drogas. Nesta entrevista Osni comenta as demandas dessa população, explica que é preciso ter consciência na hora de ajudar e ainda diz que a chave é o fortalecimento da relação entre sociedade civil e poder público.

Heitor Herruso

Nesta época de final de ano as pessoas costumam estar mais sensibilizadas a doações e assistências sociais. Como você enxerga isso?

Há períodos em que as pessoas ficam mais solidárias, como nos meses de junho, julho e agosto, durante o inverno, quando muitos grupos se desdobram para doar cobertores e agasalhos, e no Natal também. Mogi tem esse perfil, e a gente acha muito bacana ter essa empatia coma condição do outro. Reconhecemos a solidariedade, mas entendemos que poderia ser feita de maneira mais responsável e consciente, pensando junto com o poder público em alternativas que não fossem apenas pontuais, o que acaba reforçando, financiando e fomentando a situação de rua.

Como assim financiando a situação de rua?

Nosso maior desafio no inverno, quando queremos levar alguém para o abrigo, é quando um grupo leva um monte de cobertores e marmitas para as pessoas, o que faz com que muitas vezes nossos argumentos sejam vencidos, afinal, esses itens oferecem algum conforto, mesmo que mínimo, ali na rua. As necessidades estão presentes em todos meses do ano, e quando alguma entidade nos liga para perguntar o que e onde doar, chamamos os representantes para conversar e explicar a melhor forma de fazer isso. Costuma-se pensar que a pessoa em situação de rua tem que aceitar qualquer coisa, e que precisa daquilo para sobreviver, o que não necessariamente é verdade.

Nesse sentido, o que falta em Mogi?

Temos cerca de 160 pessoas acolhidas nos quatro abrigos da cidade, e nos últimos dois anos 79 superaram essa situação, alugando uma casa e criando um currículo para reinserção no mercado de trabalho. O que precisamos é juntar mais a sociedade civil e o poder publico, porque este último não vai superar essa problemática sozinho.

O que faz um agente social?

Um agente social é um educador por essência. A base da atuação dele está na relação com o usuário atendido e na construção de busca de elementos para junto com o usuário superar uma situação vulnerável, seja situação de rua, adolescentes sem cumprimento de medidas socioeducativas ou muitas outras. A proposta do profissional desta área é construir alternativas para superar ações de indicadores de vulnerabilidade social. Para atender alguém é preciso considerar a realidade do outro e tentar entender, mapear o contexto dessa pessoa para estabelecer um vínculo e descobrir o que a atrai para aquele ambiente.

Então o trabalho consiste em muito diálogo?

Sim, precisa se dispor do que se acha sobre o outro, pois não cabe preconceito com relação a ninguém. É possível atuar em várias áreas, como prevenção de violações de direito, atendimento a criança e adolescente em situação de rua, medidas socioeducativas, população adulta de rua, coordenação de serviços, ou seja, em qualquer cenário em que exista um usuário que precisa ser contatado fora do enquadramento de “salinha”. Isso quer dizer que não é numa sala convencional, como fosse um consultório, que o agente vai conseguir conversar. Ele pode atuar debaixo de uma árvore, no meio de uma rua, numa praça, num abrigo, principalmente enquanto a pessoa está em outra atividade, lavando roupa, mexendo em horta. É nesses momentos em que encontramos elementos para subsidiar o trabalho técnico dos agentes e psicólogos.

Além da conversa, há alguma outra ferramenta aplicável?

Se o agente domina alguma atividade, pode utilizá-la ou buscar ações grupais e linguagem artística, o que é muito comum nos serviços de convivência e fortalecimento de vínculos. É válido desenvolver habilidades artísticas, como dança, capoeira, pintura, tela e outras, porque o aplicador não é um oficineiro apenas; tem um olhar no exercício da função para interagir e conduzir este publico, observando os perfis dos educandos e repassando para a equipe técnica.

O que é o Centro Pop?

Em 2009 surgiu um documento muito importante na assistência, que é a Tipificação Nacional De Serviços Socioassistenciais. A partir dele temos em Mogi sete Centros de Referência da Assistência Social (CRAS) e dois Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS), além de um Centro Pop, equipamento da Proteção Social Especial de Média Complexidade, voltado para pessoas em situação de rua. Ou seja, é um local pensado para ser referência, que oferece elementos básicos para quem precisa, como banho, café da manhã e um teto, de forma acolhedora, com atrativos e atividades.

Você disse que além de acolher, é importante mapear o contexto das pessoas. Como isso funciona?

O acolhimento é apenas uma parte do processo. Nosso maior interesse é mapear as demandas deste sujeito, o que fazemos a partir de algumas perguntas, como: Quem é ele? Quanto tempo está na rua? Qual a forma de sobrevivência na rua? De onde veio? Tem documentação? Ainda tem vínculo familiar? Se sim, estão fragilizados, ou o contato é frequente? Se não, quando foram rompidos? Caso fizéssemos contato, a família o receberia de volta?

Qual a maior necessidade da população de rua?

Vivemos num sistema capitalista que “coisifica” as pessoas, e atendemos um público que está na contramão disso. Nesse sentido a população de rua causa vários sentimentos nas pessoas, como dó, medo, compaixão e raiva, mas é preciso ter coragem para olhar para elas como alguém que existe e está ali, precisando de cuidados. Então a necessidade é diminuir o estigma da população de rua, mas sem aceitar as dificuldades que ela enfrenta no ambiente urbano, para conseguirmos fazer com que acessem mais as políticas públicas de saúde, habitação, trabalho e emprego.

Você conheceu pessoas consideradas bem-sucedidas profissionalmente que passaram a viver nas ruas?

Muitas. Exemplos são um vendedor de carros, um piloto de avião e um senhor idoso que tem inteligência absurda. Nesses casos, a frustração se torna algo muito complicado, e o álcool e a droga entram como um “céu” para estas pessoas, que têm de lidar com perdas sociais e afetivas, que vão desde o emprego à falta da família. Aliás, é comum atendermos pessoas que não querem que entremos em contato com a família, pois ela não sabe que o parente está ali, e ele não quer que ninguém o veja daquela maneira, sem forças para sequer pensar em resgatar tudo o que tinha.

E o contrário também acontece?

Sim. Fui num supermercado, por exemplo, e no açougue o rapaz me perguntou se eu não lembrava dele, que já tinha passado pelo Centro Pop. Temos muitas histórias de quem superou, como um outro rapaz, que foi para São Paulo, faz parte do Movimento Nacional da População em Situação de Rua (MNPR) e sempre faz contato com a gente para saber como estão os processos aqui em Mogi.

Como agente social, o que você pediria para o Papai Noel e porquê?

Menos injustiça e mais igualdade social, que é a base da política da assistência social para lidar com as desigualdades e relações humanas neste contexto excludente. Se tivermos um sistema macro no qual a distribuição de renda seja maior, teremos menos crianças nas comunidades que vão se tornar população de rua no futuro.


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