CHICO ORNELLAS

Agosto, mês das bruxas

AO POVO – “Hipotecar plena e irrestrita solidariedade ao movimento cívico lançado pelo jornalista Carlos Lacerda...”

Foram 19 dias entre dois fatos, naquele agosto de 1954, há 64 anos. Fatos absolutamente imponderáveis. Afinal, a trajetória política de Getúlio Vargas em nada indicava que o ditador (1930-1945), que voltou à Presidência (1951-1954) pelo voto direto, optaria pelo suicídio, como saída para a crise deflagrada pelo homicídio que vitimou um major da Aeronáutica.

AO POVO – “Hipotecar plena e irrestrita solidariedade ao movimento cívico lançado pelo jornalista Carlos Lacerda…”

Se houve um, o único indicativo seria a frase que Getúlio pronunciou, tão logo soube do atentado na Rua Tonelero (Rio de Janeiro): “Carlos Lacerda levou um tiro no pé; eu levei dois tiros nas costas”.

Lacerda, então um influente jornalista que fazia cerrada oposição ao governo central, a partir do jornal “Tribuna de Imprensa”, e que se elegeria deputado e depois governador da Guanabara, se despedia do major Rubens Vaz à porta do edifício onde morava, quando foi atingido por um tiro no pé. Outros disparos mataram o militar, em ação que teria sido feita por guarda-costas de Getúlio.

O presidente, então com 72 anos, já não tinha o mesmo vigor e combatividade dos tempos em que se fez ditador. Quando promoveu, paralelamente a um dos governos mais autoritários da América Latina, profundas reformas institucionais. Estabeleceu (1941) a Consolidação das Leis do Trabalho, à época uma avançada coletânea que regulava as relações capital/trabalho.

Negociou, com os norte-americanos, a entrada no Brasil na II Guerra obtendo, em troca, a montagem da Companhia Siderúrgica Nacional (1941, em Volta Redonda), embrião de importante ciclo da industrialização nacional.

Mas o “pai dos pobres”, como fazia-se conhecer pela controlada imprensa da época, não teve forças para afastar as acusações de corrupção que infernizaram seu último governo. Um tiro no peito, em seu quarto do Palácio do Catete, pôs fim sua carreira, cujo ato final seria sua carta testamento, encerrada com a frase: “Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história”.

O atentado da Rua Tonelero foi na madrugada de 5 de agosto, o tiro no quarto do Palácio do Catete, na madrugada de 24 de agosto de 1954. Nestes 19 dias entre os dois fatos o País incendiou-se, em seguidas manifestações contrárias ao governo central. Getúlio virou uma espécie de Geny da vez. Em Mogi das Cruzes não foi diferente.

Os advogados José Miragaia Ribeiro e Dauro Paiva e os empresários Newton Straube e Alexandre Aires encabeçaram abaixo-assinado em solidariedade a Carlos Lacerda e repúdio ao atentado contra o major Rubens Vaz.

O tumulto originado a partir do crime da Rua Tonelero incendiou-se de vez, após pronunciamento de Carlos Lacerda, transmitido pela TV Tupi na noite de 20 de agosto. No manifesto que circulou por aqui, sob o título “Ao Povo”, os mogianos afirmam que telegrafaram “aos chefes militares da Nação, dizendo da confiança que lhes deposita o povo mogiano na apuração rigorosa desses crimes e falcatruas apontadas e consequente punição dos responsáveis”. Era um claro pedido de intervenção militar; que viria 10 anos depois, em março de 1964. Todos sabemos no que deu.

CARTA A UM AMIGO
Amigos sem prazo de validade

Meu caro Renato

Permita-me compartilhar, com meus leitores, o agradável dia que sua visita a Mogi, no sábado passado, permitiu a todos nós.

Falamos pouco do tudo que esta amizade de 45 anos coleciona. Começou em 1973, quando você atuava na sucursal paulista do jornal O Globo, abrigada no Edifício Zarvos, esquina as ruas São Luiz e Consolação. O jornal O Estado de S. Paulo, a esse tempo, estava no centro da Cidade, ali em frente, prédio hoje ocupado pelo Hotel Jaraguá. Nele, eu era repórter e, por várias vezes, nos cruzamos em pautas semelhantes.

É desse tempo uma impagável passagem:

AMIGOS – Com Renato Lombardi, uma amizade de 45 anos; sem um único ruído.

Um colega do Estadão havia feito reportagem denunciando algo nas atividades de Sílvio Santos. No dia em que a matéria saiu, Nelson (era seu nome) atendeu a um telefonema na mesa que dividíamos. Ficou vermelho e respondeu algo como “você está me ameaçando”. Quando desligou, me contou que um assessor de Sílvio Santos o intimidara ao telefone.

Não perdi a oportunidade: disse-lhe que deveria cuidar da segurança e sugeri um investigador de polícia meu amigo. De imediato, liguei para Renato (a quem Nelson não conhecia), na sucursal do Globo e o convenci a se fingir de investigador, para garantir a segurança do amigo.

Por uma semana, o colega de Redação foi acompanhado pelo ‘segurança’ até o estacionamento onde deixava o carro, na Rua Santo Antônio. E a cada dia era instado a pagar uma gratificação. No sábado, juntamo-nos todos e fomos a uma feijoada no restaurante Ao Franciscano, ali perto. Ao fim do aperitivo, Renato chegou, aboletou-se na nossa mesa sem cumprimentar ninguém. Compartilhou a feijoada conosco e, ao fim, pediu a conta dizendo “hoje o Nelson paga”. Saldou o serviço com as gratificações que recebeu durante a semana.

Você trocou O Globo pelo Estadão quando este já estava no prédio da Marginal Tietê. Lá passamos a nos ver diariamente, eu cuidando da edição. Era comum você chegar, final da tarde, e me contar o que tinha para escrever e estabelecíamos, invariavelmente, uma discussão: o espaço disponível para publicação era sempre menor do que o reivindicado. Renato reclamava, eu negava; ele subia a voz, eu encerrava o assunto com uma frase: “Você ganha por linha publicada?”

Certa noite combinamos uma cena para o dia seguinte, uma sexta-feira.

Mais uma vez você chegou da rua, relatou o material que tinha, ouviu o espaço disponível e reclamou, reclamou, subiu o tom da voz e se exaltou de vez. Sacou um revólver 38 da cintura, apontou para o alto e gritou:

Hoje você me paga, vamos resolver o assunto a tiros”. Irene, redatora da editoria de Política, desmaiou na hora, a uns 7 metros de onde estávamos. A Redação em peso correu socorrê-la e nós resolvemos dar por encerrada a peleja.

Tudo acabou na pizza que reunia o pessoal, no final do “pescoção”, como ainda hoje chamamos a jornada prolongada que antecipa material para a edição de domingo.

Em tempo: Simone, que você conheceu em casa no almoço de sábado, pede para agradecer-lhe o cumprimento que lhe mandou em seu programa de segunda-feira, pela TV Record.

Abraços do

Chico

GENTE DE MOGI
VEREADORA – Foi a primeira mulher a se eleger vereadora em Mogi das Cruzes, para cumprir mandato de 1952 a 1955. Baiana de Camamu, chegou a Mogi em 1947, à conta de trabalho que exercia no Exército da Salvação. Aqui foi governanta de meninos no Lar Batista, auxiliar de enfermagem, professora na Escola Isolada do Rodeio, criou a Escola Popular de Datilografia, a Organização do Trabalhador Mirim e a Guarda Mirim Feminina. Morreu em fevereiro de 2004, prestes a completar 101 anos.

O melhor de Mogi

Da série “Mogianos de Valor”: padre Vicente Morlini. Com certeza, o seu trabalho torna melhor a vida de dezenas de desamparados.

O pior de Mogi

O que a Secretaria de Governo, responsável pela área, fez até agora para coibir os seguidos roubos de peças sacras no Cemitério São Salvador? (pergunta enviada pelo advogado Bila Affonso).

Ser mogiano é….

Ser mogiano é… lembrar do projeto, da iniciativa privada, para a construção de um novo mercado municipal no bairro do Vila Santista. Ocuparia o quarteirão delimitado pelas ruas Santos Cardoso, Campos Salles, Fausta Duarte de Araújo e Benedito Ferreira de Souza. Não saiu do papel.