COVID-19

Agricultura de Mogi das Cruzes já sente efeitos da quarentena

entre os argumentos dos que defendem mudança está o aumento da produção; quem é contra teme pela saúde. (Foto: Arquivo)
DIFÍCIL Fernanda, de Jundiapeba, fala dos prejuízos aos produtores. (Foto: arquivo)

Agricultores que destacam a produção de Mogi das Cruzes nacionalmente, como o cogumelo, hortaliças e temperos, começaram a reduzir o plantio entre o final de semana e ontem – grande parte deles vende diretamente para restaurantes, feiras livres, varejões e outros, e também abasteciam programas governamentais, como a merenda escolar. Sem compradores, culturas inteiras, como a do cogumelo shimeji, do produtor Mario Chien, estão suspensas.

Com uma colheita de 2 mil quilos do shimeji, Chien deu férias coletivas para 40 trabalhadores, que deverão permanecer em casa, até a retomada as atividades, em data impossível de ser prevista.

Os cogumelos nas estufas da propriedade localizada no bairro da Porteira Preta passaram a circular em um vídeo pelas redes sociais na segunda-feira e mobilizaram algumas pessoas interessadas em encontrar um meio de vender o produto. Porém, Chien disse a O Diário que teria meios de fazer o transporte para entregar aos consumidores.

A ideia de se criar uma plataforma de venda não foi abandonada pelo advogado Silvio Alkimin, que mobilizou uma série de pessoas e produtores com o objetivo de se criar uma plataforma online que unisse essas duas pontas.

Essa ação segue em frente, mas sem contar com a produção de shimeji, que deu início ao movimento solidário, de socorro ao campo. “O problema é que eu já dispensei os trabalhadores porque é preciso atender à determinação de quarentena”, afirmou Chien, acreditando que o impacto econômico do combate à pandemia do coronavírus, que provoca a doença denominada Covid-19, irá afetar drasticamente os cerca de 80 médios e pequenos produtores existentes em Mogi das Cruzes.

“O agricultor, pequeno em especial, não tem como se manter. Ele vive do que vende, não conseguimos imaginar como será o resultado desses dias”, afirmou.

Aos 55 anos, há 12 anos ele produz apenas o shimeji, uma iguaria que ganhou o gosto em receitas e no paladar brasileiro. Mário Chien vende basicamente para restaurantes e empresas especializadas na revenda e entrega. Desde a semana passada, sem consumidores, esses locais passaram a cancelar os pedidos, em um efeito que se agravou com a determinação da quarentena, iniciada ontem.

AÇÕES Boxistas do Mercado Municipal e outros fornecedores de alimentos devem fazer vendas online. (Foto: Elton Ishikawa)

‘É uma bola de neve porque o trabalhador vai sentir, o motorista que faz as entregas também, o dono do restaurante, todos, enfim”, comentou, acrescentando, no entanto, que pela saúde pública, o momento é de se prevenir a doença.

Para uma retomada da produção, quando as medidas determinarem a reabertura dos mercados, segundo Chien, serão necessários mais de dois meses para recomposição das propriedades e a espera pelo crescimento do shimeji.

Familiar

Situação semelhante prevê a agricultora Fernanda Vieira, do bairro Chácara Vieiras, no distrito de Jundiapeba. Ela e os cerca de 350 produtores familiares daquela região começaram a mudar a rotina de cuidados com as safras de cebolinha, salsinha e couve. “Eu tenho 6 mil metros de área cultivável, vou manter a metade, porque quando tudo isso mudar, preciso ter o produto para entregar. Mas não posso garantir toda a minha cadeia porque terei um custo que não sei quando será reposto”, explica.

Fernanda mantém uma página nas redes sociais, O Diário do Agricultor, onde dá dicas sobre o campo. Está trabalhando com a reposição de mudas e os cuidados com as plantas, que precisam ser cuidadas, podadas, e etc, mesmo sem a expectativa de recomposição da atividade agrícola. “O agricultor não pode parar”, resume.

Um das preocupações é com a maioria dos produtores sem caixa. Muitos contratados recebem por semana trabalhada. “O campo já teve muitos problemas no ano passado porque o agricultor se via em algumas situações, como uma forte chuva de granizo, que pode elevar os preços. Não tivemos isso, e não imaginávamos que passaríamos por uma situação como a atual, que exige tranquilidade porque as pessoas não podem circular, precisam cuidar primeiro da saúde. A alternativa é apenas uma: esperar”, comenta a agricultora que ontem estava fazendo aniversário, sem qualquer comemoração. “Esse ano será sem festa”, partilhou.

Movimento menor levou à tomada de decisão

As decisões de suspender as feiras, varejões e o fechamento do Mercado Municipal foram embasadas, segundo o secretário municipal de Agricultura, Renato Abdo, no acompanhamento dos pedidos de compras e do movimento nesses locais. Sem conseguir prever quando a cadeia de produção e vendas irá se restabelecer, o engenheiro agrônomo disse que o momento exige cuidados individuais com a saúde de compradores, fornecedores, feirantes e agricultores. Uma medida estudada para possibilitar as vendas e o escoamento da produção rural deverá ser lançada entre hoje e amanhã – uma plataforma de vendas e compras intitulada Agrigu – Mogi é Agro, que foi projetada pelo Polo Digital.

Comerciantes, feirantes, boxistas do Mercado Municipal e outros fornecedores de alimentos frescos serão informados sobre como fazer parte desse “market place”, que irá unir as duas pontas do mercado rural e de produtos alimentícios, como a carne.

O secretário afirmou que a decisão de fechar o Mercado Municipal levou em consideração a redução da circulação de consumidores e a decisão de comerciantes. Ontem, segundo ele, por volta das 11 horas, grande parte dos boxes já estava fechada ou sem movimento. O local está aberto para os mercadistas que estão atendendo clientes por delivery, segundo ele informou.

As feiras livres e varejões também registraram queda de movimento. Nesses locais, desde o final de semana, outra preocupação que, segundo ele, pesou na decisão de suspender esse tipo de comércio, foi a presença de muitos idosos fazendo compras. “Nós observamos que muitas pessoas, com mais de 60 anos, continuavam indo às feiras, o que era um risco à saúde deles e dos demais cidadãos. Com o decreto estadual, estabelecendo a quarentena, foi o momento de suspendê-las”.

Ao comentar o impacto econômico a feirantes e à rede de produção rural (trabalhadores, agricultores familiares, e etc.), Abdo destacou que “infelizmente, esse grupo está no mesmo rol dos donos de restaurantes, padarias, etc. Todos estão sendo obrigados a suspender as atividades para prevenir o coronavírus”.

Até a sexta-feira passada, segundo ele, o setor de food service (restaurantes, bares, etc) sentiu mais a queda dos pedidos. Depois do final de semana, o autosserviço, que atende supermercados e mercados, também viu reduzir o volume de compras.

Sem conseguir estimar sobre quando o setor de alimentos frescos começará a se recuperar, o secretário afirmou que medidas para atenuar os prejuízos estão sendo planejadas e serão executadas com o passar dos dias. “Nós temos uma situação extrema, e que está mudando de hora em hora. Vamos assistir os agricultores, mas como isso será feito, ainda está por ser desenhado”, disse.

Segundo ele, as medidas de quarentena visam reduzir o impacto de uma alta curva de pacientes doentes na rede de saúde e também a volta da normalidade, em um menor tempo possível.

A Secretaria Municipal de Agricultura aposta, agora, na liberação da plataforma digital que poderá atender aos pedidos de compra. O Agrigu foi desenvolvido pelo Polo Digital e está recebendo ajustes para ser disponibilizado à população mogiana. “Nas redes de WhatsApp, as pessoas estão fazendo encomendas, entregando produtos, mas essa nova plataforma garantirá ao vendedor a gestão do negócio”, aposta ele.

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Uma nova declaração foi dada ontem pela direção do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) do Alto Tietê sobre o funcionamento das empresas durante a quarentena, que vigora desde ontem em São Paulo. “A indústria não integra os setores econômicos que constam no decreto estadual de paralisação das atividades pelos próximos 15 dias”, afirma a nota.

Empresas estão adotando medidas para enfrentar a contaminação do coronavírus e em resposta a medidas tomadas por fábricas como a GM do Brasil, que suspendeu as atividades após as primeiras determinações de isolamento social que paralisam os negócios. Em Mogi das Cruzes, há exemplos como o da NGK, que colocará a maior parte de seus funcionários em férias coletivas a partir de sexta-feira. Outras unidades adotam o revezamento de trabalhadores. Caso da Petrom, instalada na Vila Moraes.

O Ciesp, em nota, reafirma que “muitos setores produtivos não podem ser interrompidos, sob o risco de um caos ainda maior, como é o caso dos segmentos de alimentos, medicamentos e produtos de higiene. Por isso, a recomendação é para que cada empresa implante alternativas a fim de manter a atividade dentro de condições seguras, mesmo que em patamares reduzidos”.

A entidade ressalta, no entanto, que mesmo diante da responsabilidade de manter a atividade industrial, principalmente para evitar o desabastecimento generalizado da população, “a suspensão/manutenção das operações nas plantas fabris é uma decisão de cada empresa, a qual deve avaliar a sua demanda no momento, disponibilidade de matéria-prima e os impactos das medidas preventivas necessárias”.


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