Alimentação pode controlar a ansiedade

Cinthia Gonçalves Martins
Cinthia Gonçalves Martins

Nutricionista formada pela Universidade de Mogi das Cruzes (UMC), Cinthia Gonçalves Martins decidiu se especializar em nutrição funcional, área que entende cada organismo como único. Dessa forma, além de trabalhar no Grupo de Apoio a Pessoas com Câncer (GAPC) local, ela atende o público em geral, proporcionando não somente resultados positivos de emagrecimento como também a melhora de diversos sintomas individualizados por meio da mudança de hábitos alimentares, como doenças respiratórias e ansiedade. Outra vertente do trabalho da mogiana é a defesa de causas ambientais para a manutenção de uma vida saudável, assunto que comenta nesta entrevista.

Como surgiu o interesse pela nutrição?

Em casa sempre tivemos alimentação saudável mas não há ninguém da área da saúde na família, então foi algo que surgiu em mim desde pequena, pois sempre me interessei por culinária e alimentos. Para um trabalho da escola, aos 10 anos, fiz panfletinhos sobre alimentação saudável e já dizia que queria ser nutricionista.

Quando eu estava na faculdade minha mãe descobriu que ela é celíaca, ou seja, tem alergia a glúten, e não é por questão de intolerância. Há 10 anos não existia toda a quantidade de produtos sem glúten que temos hoje, então começamos a fazer muita coisa em casa, e passei a estudar bastante este lado da culinária sem glúten, sem leite, sem soja. Descobri a nutrição funcional e me interessei ainda mais.

E o que é nutrição funcional?

O grande diferencial dela em relação à nutrição tradicional é a visão de que cada organismo funciona de forma única. Pensando assim, não dá para pegar diretrizes padrão, como era comum fazer antigamente, quando havia uma pirâmide e recomendações iguais para todos.

Não dá para englobar todos num modelo só. Às vezes, por mais que um alimento seja considerado excelente e faça bem para uma pessoa, ele pode fazer mal para outra. Então na nutrição funcional analisamos características e sintomas individualmente e relacionamos isso com excessos ou deficiências de nutrientes e também o consumo de alimentos que possam causar alergias.

Então esta área vai além das dietas tradicionais?

Sim, essa é apenas uma parte, pois muitas vezes os hábitos alimentares podem desencadear vários sintomas que não costumam ser relacionados a alimentação, como quem tem rinite ou muitas dores de cabeça, ou até mesmo quem é muito ansioso. A nutrição funcional visa reequilibrar o organismo, e portanto não somente amenizar as queixas, mas agir na causa delas

Quais são os métodos de tratamento?

Podemos analisar exames de sangue para identificar se há deficiência de algum nutriente, e existem também alguns procedimentos que analisam se há alergias ou intolerâncias. Mas como estas etapas costumam ser mais caras, costumamos analisar na prática que tipos de alimentos funcionam melhor para solucionar os sintomas relatados pelo paciente.

Pode citar alguns dos sintomas possíveis de serem tratados desta maneira?

Alguns exemplos do que pode ter alguma influência da alimentação são doenças respiratórias, como sinusite, rinite, asma, e também toda a parte intestinal, principalmente intestino preso e digestão   lenta. Também dor de estômago e desordens estéticas, como celulite, e até mesmo partes mentais, como pessoas muito ansiosas, com memória ruim ou falta de concentração.

Os pacientes te procuram com estas queixas ou elas são relatadas depois?

De modo geral os pacientes procuram um nutricionista quando querem emagrecer. Mas quando os analisamos como um todo descobrimos alguns sintomas, e ao corrigir a alimentação estas questões acabam se resolvendo.

É possível ter abordagens diferentes para pessoas com os mesmos sintomas?

Sim, porque em cada pessoa uma doença pode ser causada por uma razão diferente. No sentido de que cada organismo é único, um ramo da nutrição que está crescendo muito é a nutrigenética, na qual os genes são analisados para se descobrir a predisposição genética que o paciente tem para desenvolver certas doenças. É um trabalho de prevenção, e o futuro da área é esse, cada vez mais individualizado.

Como a nutrição funcional enxerga a alimentação?

Tirando casos mais específicos, como os atletas, que precisam ter quantidade de calorias calculada para objetivos
específicos, no geral não costumamos contar calorias. Tentamos muito mais melhorar a qualidade da alimentação, identificando o que a pessoa precisa comer mais ou menos em relação a nutrientes. O pensamento está muito relacionado a qualidade e é possível comer de tudo, a depender da maneira que o organismo funciona.

Então você defende uma vida saudável?

Sim, tanto em relação a nutrição quanto em relação ao meio ambiente. Defendo, por exemplo, o uso de embalagens comestíveis e biodegradáveis (não necessariamente precisam ser consumidas, pois têm gosto de isopor), que se desfazem sozinhas na natureza e também servem como compostagem/adubo e até mesmo como ração para animais. Hoje existem até mesmo empresas brasileiras que desenvolvem alternativas assim, pensadas para reduzir o descarte de plástico. Além desta iniciativa, outras estão crescendo bastante, como a campanha para não se utilizar mais canudinhos de plástico, optando por modelos feitos de metal, que são laváveis e reutilizáveis. Em São Paulo inclusive há estabelecimentos que não fornecem mais copos e sacolas plásticas.

A preocupação com o meio ambiente também envolve os hábitos alimentares?

Se a alimentação continuar como está hoje, o cenário ficará inviável para as próximas gerações, pois quanto mais a
população aumenta, mais se precisa gerar alimento. E como no sistema atual a carne acaba sendo o prato principal, fica insustentável pensar na quantidade de pastos necessários para os animais, ou então no volume de água e grãos necessários para o consumo deles. Hoje 60% do milho produzido no mundo é utilizado para ração de animais, e para se produzir um quilograma de carne se gasta aproximadamente cinco quilos de grãos e vegetais. Estes itens poderiam ser consumidos pelos humanos. Assim, o principal movimento  da alimentação é o vegetarianismo, que começou pela defesa dos animais, e adquiriu forte caráter ambiental.

E os alimentos orgânicos? Como você os enxerga?

Eles são uma tendência. Tanto que hoje o custo para comprá-los é menor do que quando surgiram. O legal deste tipo de alimento é que juntamos a saúde com a parte ambiental, pois não se utiliza agrotóxicos e fertilizantes químicos, então se mantém a saúde do solo, diminuindo o índice de contaminação do rio e respeitando muito mais o que seria o ciclo natural dos alimentos. Quando não se coloca agrotóxicos nas plantas, elas têm que se defender sozinhas, então acabam produzindo muito mais nutrientes para se defender de fatores como a chuva e o vento. Isso é chamado de fitoquímicos, que não fazem bem só para a planta como para nós, que comemos um produto capaz de agir como anti-inflamatório e antioxidante e melhorar nossa imunidade.

Como fazer para “confiar” nos produtos orgânicos?

Como “sofrem” mais para crescer, os orgânicos costumam ser menores e mais “feios” que outros vegetais.
Sabendo disso, uma alternativa para quem não tem condição financeira para comprá-los é observar que quanto maiores e mais bonitos, mais agrotóxicos os alimentos têm. O Brasil é um dos países que mais utiliza estas substâncias, e como elas penetram no alimento, não adianta lavar, tirar a casca ou deixar de molho, pois não vão sair. Justamente por isso é difícil fiscalizar, então é interessante comprar de produtores locais, cuja produção é mais fácil de conhecer. Aqui em Mogi temos vários e é fácil comprar nas feiras semanais. Na capital também tem coletivos que vendem estes insumos, então a dica é tentar comprar de quem está perto ou de quem é conhecido e tem grande demanda.

Enquanto nutricionista, qual seu papel neste cenário?

Meu papel envolve a conscientização principalmente de duas questões que falamos aqui. Uma delas é a saúde, pois existem estudos que mostram o consumo excessivo de carne, principalmente a processada, como os embutidos, é um fator que aumenta o risco de desenvolvimento de doenças como o câncer de intestino. Outra é a ambiental, pois a situação caminha para um colapso.

 

Deixe seu comentário