CIRCUITO

Ana Rosa Augusto: Comemorações ganham novo sentido

Ana Rosa Augusto. (Foto: Divulgação)
Ana Rosa Augusto. (Foto: Divulgação)

Com eventos e festas proibidos durante a pandemia do novo coronavírus (Covid-19), a comemoração de datas especiais, como o Dia das Mães, no próximo domingo, exige criatividade e ajuda da tecnologia para viabilizar mensagens e videochamadas, que ganham mais adeptos em tempos de isolamento social. Mas mesmo de longe, é importante reinventar as festividades a fim de manter contato com familiares, amigos e pessoas queridas e até para minimizar os efeitos da quarentena. A dica é da produtora de eventos Ana Rosa Augusto Rodrigues, 53 anos, diretora executiva da Bless Assessoria e ativista na conscientização da depressão e antibullying. Ela destaca que embora o mercado profissional de eventos esteja paralisado e com festas adiadas, as comemorações menores, principalmente de aniversários e datas festivas envolvendo apenas pessoas que moram na mesma casa, são realizadas com inovações. Serviços como o delivery ganham destaque neste período como alternativa para manter as vendas e evitar que as pessoas saiam de casa. Na entrevista a O Diário, Ana Rosa destaca que as comemorações ganharão novo sentido após o fim desta crise e prevê mudanças no mercado de eventos.

Como comemorar datas, a exemplo do Dia das Mães que será no próximo domingo, nesta quarentena?

O setor de eventos está paralisado e alguns foram adiados, mas a ordem é preservar o que temos de mais valioso: a vida. O ser humano é criativo, então, não deve deixar de comemorar datas festivas, principalmente o Dia das Mães, que já está aí, usando a criatividade. Mais do que nunca, os serviços de delivery são utilizados e há kit festas prontos. É possível encomendar almoço, café da manhã, flores, e as lojas fazem o delivery de roupas, joias, sapatos e eletroeletrônicos. Quem mora com a mãe estará com ela. Quem não pode estar junto deve enviar um presente, uma comidinha gostosa, flores, conversar pelas redes sociais ou por videoconferência. Será um Dia das Mães diferente, mas dá para comemorar e fazer carinho.

Qual a importância de manter este espírito comemorativo?

Esta importância é total porque comemorar é vida, é alegria, então mesmo pela tela do computador ou do celular, é importante as pessoas estarem presentes e festejando. Não estamos acostumados a ficar em isolamento e algumas pessoas estão realmente sozinhas, então é necessário manter não apenas as comemorações, mas ocupar o tempo, talvez retomando velhos hábitos, além de aprender outros, como ler um bom livro, escutar boas músicas e preencher o tempo, mesmo que com atividades em casa.

As comemorações em casa devem ser uma tendência após a pandemia?

Já realizei casamentos em residências em anos anteriores, mas quem opta por este evento é porque quer algo mais intimista, tem uma residência grande e isso não representa um fator econômico. Na Europa, as comemorações são para no máximo 80 pessoas, há a tendência de as pessoas valorizarem quem estará ao lado delas. Já o brasileiro gosta de festas grandes, é expansivo, então, as pessoas vão adiar um pouquinho este sonho, talvez adaptando, diminuindo um pouco a lista de convidados, mas não acredito que as festas irão para dentro de casa por conta da crise. Aquelas que serão realizadas em casa é pela opção de valores e de intimidade.

Como o mercado de eventos se adequa à atual situação?

Este mercado movimenta mais de R$ 17 bilhões no Brasil ao ano. Em um evento para mil pessoas, há mais mil trabalhando direta e indiretamente. Surgiram serviços delivery de buffets de eventos, temos doceiras se reinventando e vendendo caixinhas de doces sortidos e bolos. Mas há setores paralisados, como o de decoração. Os floristas não terão como rever o prejuízo com o adiamento de eventos porque a colheita de flores é abundante nesta época. Há decoradores ajudando a vender parte da produção, mas muita coisa irá para o lixo. Os buffets preparados para atender eventos no começo da pandemia descartaram materiais. Conseguimos adiar e renegociar datas, mas alguns eventos foram cancelados. Aqueles adiados terão motivos em dobro para serem comemorados, pois iremos festejar o mais precioso: a vida.

O que deixou principalmente de ser realizado?

Para quem tem juízo, todos os eventos presenciais deixaram de ser realizados. A não ser aquele em que a pessoa está em casa, apenas com quem mora com ela. Não podemos seguir o exemplo da influenciadora, que além da contaminação de convidados no casamento da irmã, no início da pandemia, no último final de semana fez festinha privada no apartamento, desrespeitando os vizinhos. Ela e quem estava no evento perderam os patrocínios. Quem ama festa e eventos é porque gosta de vida, de gente, e se você gosta do outro vai preservá-lo.

Como ficaram eventos agendados com muita antecedência?

Quem foi mais rápido, se adequou à nova data com mais facilidade. A maioria dos eventos passou para o final do ano, quando já temos uma agenda, porque trabalhamos com antecedência, então, tudo vai se aglomerando. Também é a hora de distinguir os verdadeiros profissionais, porque há muita informalidade, pessoas sem capacitação e formação na área. Organizar festas exige convivência entre o cliente e o profissional, que participa de um momento no qual a pessoa abre o coração para realizar seu sonho. E um sonho não tem preço, tem valor, assim como a vida.

Quais os prejuízos neste período?

O prejuízo será de 40% se tudo isso permanecer até julho. Se for mais tempo, não houve um cálculo. Quem trabalha com eventos fecha o ano e a concentração maior de festas é entre maio e outubro. Buffets de São Paulo fazem vaquinha e preparam marmitas para as famílias dos profissionais informais que ganham por evento e estavam passando fome. No condomínio onde moro, trouxemos um caminhão de floristas de orquídeas de Mogi e o pessoal comprou 70 vasos. Isso deu ideia para que fossem a outros condomínios. A solidariedade ajuda.

O que aprenderemos com esta pandemia?

A primeira lição já temos, porque o ser humano gosta da vida em sociedade, de ter gente por perto, de se confraternizar, e está sendo despertado para valores como empatia e solidariedade. É um momento de ter fé, esperança, valorizar coisas que a gente estava perdendo, como o privilégio de ficar em casa, estar mais em família ou, às vezes, em um momento só nosso, fazendo coisas que não se fazia neste mundo de tanta correria. É o momento para repensar valores e muita gente sairá melhor. Em outras pandemias, a sociedade foi transformada. Precisamos refletir, pesar os verdadeiros valores e trabalhar para que estejam mais presentes na nossa vida. Aquilo que a gente ama não pode ser deixado para depois, como na música do Geraldo Vandré, que diz que quem sabe faz a hora e não espera acontecer. É preciso valorizar o agora. Aliás, a música ‘Trem bala’, que já despertou muitos para diretrizes que realmente fazem sentido e têm significado, é um verdadeiro hino hoje. O ser humano estava feito um trem descarrilhado, mas a situação o obriga a parar para refletir.

As comemorações terão novo sentido?

Em um primeiro momento, haverá o euforismo, todo mundo vai querer sair, se confraternizar, seja nas residências, bares ou restaurantes. Depois, as coisas irão se assentar, até pela questão econômica, e as pessoas vão se planejar melhorar para as festas. Muita coisa irá mudar e será ressignificada, com valorização das confirmações de presença e dos convites enviados online, maior peneira na lista de convidados e na aceitação de convites feitos em cima da hora. Alguns serviços criados nesta crise devem ficar, outros sumirão. O mais importante é sair com saúde e ter uma balança financeira, se conter para passar este ano e ver o mercado se abrir. Há clientes fazendo agendamentos para 2021. Precisamos ser otimistas, criar ideias, fazer ensaios pré-weeding online, conversar por videoconferências e preparar tudo com mais tempo.


Deixe seu comentário