NICOLE FUKE FACHINETTI

Analisando o urbanismo do Centro de Mogi

Nicole é arquiteta e está prestes a concluir a especialização em engenharia e manutenção hospitalar. (Foto: Henrique Campos)
Nicole é arquiteta e está prestes a concluir
a especialização em engenharia e manutenção hospitalar. (Foto: Henrique Campos)

Formada em Arquitetura pela Universidade de Mogi das Cruzes, Nicole Fuke Fachinetti foi convidada pela reportagem de O Diário para um passeio nas ruas do Centro, a fim de analisar as fachadas e outros aspectos da principal área comercial da Cidade. Sócia da mãe, Emília Fuke, num escritório de arquitetura, construção e paisagismo, ela está prestes a concluir a especialização em Engenharia e Manutenção Hospitalar, pelo Centro Universitário FEI, na Capital, tema sobre o qual também fala nesta entrevista.

As fachadas comerciais do Centro são pintadas com cores que não necessariamente combinam entre si, e apresentam diferentes estados de manutenção. Esse quadro precisa de mudança?
Em vários casos, sim. Algumas construções, como casas que acabaram virando lojas, precisam passar por um processo de restauração (para manter o visual original do projeto) ou retrofit (para modernizar o visual), e para isso é necessário contratar um especialista nessas áreas. E edificações que não se enquadram nisso mas precisam de uma reforma também precisam de um arquiteto.

E o que poderia ser feito para equalizar a situação?
A Lei Mogi Mais Viva (nº 6.334/2009, que estabelece regras para a prática da publicidade em Mogi das Cruzes) ajuda não permitindo uma poluição visual de marketing, mas poderia se pensar um pouco mais na padronização das fachadas. Outra coisa que poderia ser feita é mexer nas calçadas, pois isso ajuda a criar espaços para que as pessoas vejam as lojas do ponto de vista da rua, e não a partir da janela do carro. De um modo geral, se todos seguissem as normas e fizessem as devidas manutenções a situação estaria melhor. Devido ao grande número de informações visuais, o Centro pede uma fachada mais agressiva, diferente de um shopping, por exemplo. Mas vale lembrar que são válidas cores diferentes, porém prevalecendo o bom senso do entorno. Todos os problemas podem ser evitados contratando um arquiteto, que vai avaliar a melhor saída. Vale a pena, porque depois “o barato sai caro”.

Você é a favor da revitalização do Centro, a exemplo do que foi feito na Rua Professor Flaviano de Melo?
Essas reformas são boas para os comerciantes, porque valorizam o pedestre. A ideia é que as pessoas deixem de utilizar os carros, preferindo fazer compras a pé. Assim, se as lojas forem convidativas, permitem a integração com o passeio e chamam o público a entrar. Os trechos reformados pensaram na circulação de pedestres, bicicletas e carros, e como o pior do Centro é a calçada, acredito que isso poderia se ampliar para todo o bairro, mas não sei quais as dificuldades políticas deste processo. Outra discussão é que perdem-se vagas de estacionamento, mas se colocar na balança acho que vale a pena, porque a rua é pública, e tem gente que deixa o carro lá o dia todo.

Essa tendência de priorizar o pedestre é algo que acontece também em São Paulo e no mundo todo. Inclusive para o novo Plano Diretor da Cidade, que imaginará a Mogi dos próximos 10 anos, estão sendo feitos estudos sobre o urbanismo de todos os bairros.

Falando em outros bairros, há na Vila Oliveira uma discussão sobre urbanismo: enquanto uma parte dos moradores anseia por um zoneamento misto, composto não só de casas e prédios residenciais mas também por comércios, escolas e outros serviços, outra parte quer manter a característica residencial. Como você vê isso?
Eu sou contra a verticalização da Vila Oliveira, porque acredito que lá não há estrutura para isso. Quando a verticalização acontece, aumenta muito o número de moradores, e aí surge a necessidade de ter ruas que comportam mais carros, mas com calçadas largas e pontos de ônibus, sem esquecer dos pedestres. Por outro lado, quem mora lá tem a ideia de fazer tudo sem sair do bairro: ir à padaria ou ao parque, trabalhar ou levar o filho na escola sem precisar pegar o carro e gastar gasolina para vir ao Centro e outros locais. Para resolver, devem haver parâmetros e fiscalização. Não dá para fazer um bar ou uma balada em qualquer lugar, de qualquer jeito, por exemplo. A questão é complicada, e para isso estão sendo realizadas audiências públicas, onde os moradores podem expor suas opiniões.

Então em sua opinião o cenário ideal é que os bairros sejam mais estruturados?
A tendência hoje é que as cidades não sejam setorizadas, ou seja, que não haja divisão entre pontos residenciais, comerciais e de lazer, porque quando isso acontece o morador tem que se deslocar, causando trânsito e perdendo qualidade de vida. O Centro, por exemplo, é um bairro que tem muitos comércios, mas não há movimento a noite. Se mais pessoas morassem ali, haveria mais vida.

Agora em março você deve concluir a especialização em Engenharia e Manutenção Hospitalar. O que faz um profissional desta área?
Fiz este curso, mas voltado para a arquitetura, o que me ajudou a pensar na infraestrutura em geral. Nesta área, mais do que pensar na disposição dos cômodos e suas respectivas normas técnicas e de segurança, nos preocupamos com duas tendências da área da saúde: a “desospitalização”, que consiste em manter o paciente o menor tempo possível no hospital ou em outros estabelecimentos assistenciais em saúde, como clínicas e consultórios, e também a humanização do atendimento. Essas práticas fazem bem para a recuperação emocional e psicológica do usuário, e podem ser favorecidas por projetos novos ou pequenas intervenções com cores e acabamentos, principalmente na recepção e nos quartos. A intenção é que o ambiente fique mais humano, mas tem partes que não podemos mexer, como centro cirúrgico e a farmácia.

Os hospitais particulares de Mogi estão nesse caminho?
Na verdade não. Os hospitais da Cidade são todos antigos, de uma outra época, em que o pensamento era cuidar somente de doenças, sem preocupação com a parte psicológica dos usuários. Hoje sabe-se que deve ser diferente, mas mesmo as instituições particulares de Mogi não tem humanização. Apesar do orçamento de um hospital ser apertado, e a preferência ficar sempre para a compra de uma máquina ou um equipamento, nem sempre as modificações são caras, e poderiam entrar no planejamento.

E como está a rede pública em relação a isto?
No SUS (Sistema Único de Saúde), essa tendência está chegando mais devagar. No Hospital das Clínicas Luzia de Pinho Melo, por exemplo, há um novo Centro Oncológico, que apesar de ser uma construção recente, não é nada humanizada. Uma das saídas é a manutenção das unidades por setores, o que deve ser combinado entre o arquiteto e a administração, num planejamento que leva meses.