CIRCUITO

André Kuramoto fala sobre projeto de bike que promove inclusão

O mogiano André Rocha Kuramoto faz tudo o que pode filantropia. Mesmo trabalhando na capital, na Secretaria de Habitação do Estado, por quase duas décadas ele se dedicou ao Instituto Sopa (Sociedade Organizada Pão que Alimenta), e há cinco anos fundou o Ciclo Sensorial, que oferece passeios de bicicleta e outras modalidades para deficientes físicos e mentais. Sobre este último tema, na entrevista a seguir ele explica a importância de se trabalhar com pessoas com deficiência e diz que falta engajamento da comunidade local.

Como surgiu o Ciclo Sensorial?

O Ciclo Sensorial foi um sonho que surgiu por meio de uma reportagem que vi na TV, com um cego sendo conduzido na bicicleta. Na entrevista, ele falou que quando estava pedalando não precisava se preocupar em decorar o local, contar os passos e outros procedimentos, sendo possível prestar atenção em sons, cheiros e no vento. Isso me balançou, e percebi que queria proporcionar estas sensações às pessoas. Na época eu participava de um grupo de ciclismo chamado Free Bikers, e anunciei que faria o projeto.

O que significa o nome da iniciativa?

O nome é Ciclo Sensorial pois proporcionamos atividades que geram novas sensações para a pessoa, o que a estimula a continuar. Essas sensações se iniciam e se fecham no mesmo ponto, com a ideia de que isso pode ser renovado o tempo inteiro, é um ciclo mesmo. Os participantes podem tanto querer continuar pedalando como procurar novas modalidades, de modo que o sentimento nunca se encerra e sempre se renova.

Que outras modalidades vocês oferecem?

A ideia sempre foi fazer um projeto de mobilidade para pessoas com deficiência, e a mobilidade é ampla, não fica restrita somente à bicicleta. Como sou cicloturista desde a adolescência, imaginei que começar com bicicleta fosse mais fácil, para ganhar experiência com as várias deficiências. Mas sempre quisemos expandir tanto o atendimento como as modalidades e já fizemos corrida de rua e eventos de patins, caiaque e até paraglider.

Por que é importante trabalhar com deficientes físicos e mentais?

A bicicleta proporciona uma sensação de liberdade enorme. Nos leva para muitos lugares que um carro não levaria, e a partir da nossa própria força. O grande motivo por trás disso tudo é fazer com que qualquer pessoa tenha esta mesma sensação, de se sentir capaz e apoiada por instrutores que podem prepará-las. Mas o mais importante é que elas se sintam verdadeiramente incluídas, porque infelizmente existe uma distância muito grande na nossa sociedade entre pessoas com e sem deficiência. De modo geral, não se sabe abordar pessoas com deficiência e se acaba as excluindo.

Como foi o início dos trabalhos?

Quando anunciei o primeiro passeio, as pessoas começaram a ajudar com dinheiro ou peças de bicicleta e equipamentos de ciclismo, como capacetes, luvas e squeezes. Em pouco tempo convidei o primeiro cego, que topou, mas ainda não tínhamos uma bicicleta para ele. Então marquei o passeio para dali a duas semanas, e esse era o prazo que tínhamos para arranjar bikes de dois lugares. Conseguimos três delas, e no domingo dia 4 de maio de 2014 saímos do Mogilar com destino à Sabaúna, com 40 pessoas ao todo, sendo quatro cegas e uma com baixa visão.

Qual o sentimento que ficou deste primeiro passeio?

Todos se sentiram bastante realizados, porque fizemos algo junto dos deficientes. Ou seja, a programação não foi para eles, foi com eles, e isso faz diferença. Porque uma coisa é servi-los e outra coisa é convidá-los para que eles também façam parte de algo. Todos interagiram para tentar se conhecer e criaram novas amizades, então ao invés de segregar, fizemos pessoas com e sem deficiência ocuparem o mesmo espaço e o mesmo tempo.

Ao longo dos anos o Ciclo Sensorial passou a trabalhar com outros tipos de deficiência?

Sim. O segundo passeio, em junho de 2014, com saída do Parque Centenário, reuniu 200 pessoas, sendo novamente três cegos e uma pessoa de baixa visão. Depois, a próxima deficiência foi a paralisia cerebral. Compramos um carrinho chamado trailer bike, que não necessitou de muitas adaptações e levava uma criança acoplada na bicicleta. Mais tarde, fizemos um passeio com 10 cegos, essa pessoa com paralisia cerebral e outra que não tinha um dos braços. Na sequência, incluímos os cadeirantes. Adquirimos uma espécie de triciclo chamado handbike, em que se pedala com as mãos, e começamos a atender este público. Também já trabalhamos com surdos, que representam um desafio, pois se comunicam com as mãos, só que as estão utilizando para segurar o guidão.

Já são cinco anos de convivência com cegos, surdos, cadeirantes e pessoas com paralisia. Que histórias você já ouviu?

Conhecemos pessoas e histórias muito interessantes. A maioria das pessoas com deficiência não sabem da possibilidade de pedalar, então quando explicamos que dá para fazer isso, é sempre uma surpresa gostosa. Mas há casos como o de uma menina cega, que é explorada pela família por causa da verba repassada a ela pela Lei Orgânica da Assistência Social (Loas). Ela não é cuidada como deveria, vive suje dentro de casa e ainda tem de cuidar de outra criança, enquanto a família usa o dinheiro para benefício próprio.

O Ciclo conta com algum equipamento de segurança?

Na medida do possível contamos com apoio, inclusive do poder público. Não é fácil adquirir estas ajudas, e na maioria das atividades somos nós quem tomamos a frente, muitas vezes com carro de apoio com ferramentas, água e primeiro socorros.

E como são os passeios?

Os pontos são escolhidos pela segurança de trânsito, pela iluminação e pela paisagem. Fazemos principalmente trajetos até o distrito de Sabaúna e até a vila de Luís Carlos, em Guararema. Quando inauguraram as ciclofaixas no centro da cidade também fizemos passeios por ali, e temos atividades maiores, como a Rota da Luz, até Aparecida, e trilhas voltadas a pessoas cegas de baixa visão, todas em Mogi, como nas cachoeiras da Pedra Furada e Véu da Noiva, na Mogi-Bertioga (SP-98).

Qual a estrutura do grupo?

O Ciclo é bem dinâmico. Começamos fazendo passeios grandes e trimestrais, e hoje oferecemos atividades semanais. Às quartas-feiras à noite realizamos treinos para quem quer aprender a pedalar, e aos domingos de manhã fazemos os passeios. Oferecemos essas atividades e também bicicletas e acessórios de maneira gratuita. No máximo, se formos fazer um piquenique, pedimos para o participante levar um suco ou algo assim. Nossas ações somente são pagas quando há algum serviço agregado, como workshops, que ajudam a arrecadar fundos para o projeto, que é tocado por voluntários.

Como trabalham os voluntários?

Para os interessados em se tornar voluntário, passamos algumas instruções, explicando como tudo funciona e quais características são necessárias para o trabalho. Entendemos como voluntário desde a parte do apoio e patrocínio como as pessoas que conduzem as bicicletas e as que nos oferecem lanches. Hoje temos cinco pessoas fixas nas atividades, mas há outras que atuam também, embora gostaríamos de ter mais envolvimento da comunidade mogiana.

Você comentou que falta engajamento da comunidade. O que poderia ser feito para que mais pessoas participassem de iniciativas sociais?

Em todas as esferas está faltando um olhar diferente do cidadão, de cada um de nós, de saber olhar para o próximo. Geralmente as pessoas acabam se sensibilizando quando acontece uma tragédia na família deles. Quando alguém perde a perna ou fica cego todos começam a prestar atenção em ONGs e ações, mas quando a situação está longe, considera-se intangível. Então falta um olhar diferente de todos, porque são cidadãos também aqueles que estão no poder público e nas empresas. Já em relação a investimentos, acho que eles acontecem, mas não de maneira estruturada. Há instituições consagradas que tem um fluxo grande de recebimento de recursos, mas é importante fazer com que os demais grupos e iniciativas sejam auxiliadas também.


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