ENTREVISTA DE DOMINGO

André Luiz Moreira França, da política à gastronomia

André Luiz Moreira França. (foto: Eisner Soares)
André Luiz Moreira França. (foto: Eisner Soares)

As dificuldades da infância simples, vivida em César de Souza, onde nasceu, levaram André Luiz Moreira França a descobrir a aptidão pela gastronomia. Muito novo, ele aprendeu com a mãe, Terezinha Moreira França, a cozinhar para os irmãos mais novos, já que deles cuidava enquanto ela trabalhava como empregada doméstica para sustentar, sozinha, a casa. No bairro, André fez o primário na escola estadual Sebastião de Castro e o ginásio na Rubens Mercadante de Lima, concluído na Leonor de Oliveira Melo. Em seguida, iniciou os estudos de Eletrotécnica na Escola Técnica Estadual (Etec) Presidente Vargas e logo se transferiu para Nutrição, onde conheceu Eliana Mara de Oliveira França, com quem se casou ao final do curso e é seu braço direito na cozinha do restaurante Pé de Jaca, às margens da rodovia Mogi-Bertioga. Mas bem antes de se dedicar exclusivamente à gastronomia, André trabalhou como auxiliar protético em uma clínica dentária, na cozinha industrial da atual Suzano – antiga Companhia Suzano de Papel e Celulose – e comandou comércio de ferragens e acessórios para serralheiros na rua Ipiranga. Foi no grêmio estudantil que descobriu o gosto pela política, reforçado nos tempos em que atuou no Sindicato de Refeições Coletivas e na Federação dos Servidores de Refeição Coletiva, em São Paulo. Em Mogi, acompanhou a fundação do diretório municipal do PSDB, atuou em campanhas eleitorais de Junji Abe, comandou diretorias e secretarias na gestão do ex-prefeito, e assessorou o vereador Francisco Moacir Bezerra de Melo Filho. Atualmente dedica-se ao restaurante da família, é filiado ao PSB e diz que a política é viciante, por isso está sempre em suas rodas de conversa. Confira a entrevista a O Diário:

Como foi a infância na cidade?

Minha infância foi de dificuldade, em uma casa simples, em César de Souza, onde nasci. Minha mãe (Terezinha Moreira França), que hoje está com 74 anos, era empregada doméstica e criou sozinha os três filhos (André, Márcia, Otoniel), além do Anderson, que ela trouxe para morar conosco e sempre nos acompanhou. Sou o mais velho e como ela era empregada doméstica, eu cuidava dos irmãos enquanto ela buscava dinheiro para a gente sobreviver. Por isso também deixei a escola por alguns anos e comecei a trabalhar cedo para ajudar no sustento da casa.

Qual o primeiro emprego?

Fiz várias coisas, mas o que me marcou bastante foi o trabalho em uma clínica dentária popular, como auxiliar de protético, quando tinha 13 anos. Aos 18 anos, fui servir o Exército em Caçapava e, de volta a Mogi, retomei os estudos na escola Leonor de Oliveira Melo, terminei o ginásio e lá revi o diretor da Rubens Mercadante, professor Dion Severino Muniz e a esposa dele, Olga Muniz. Foi aí que comecei na política, porque assumi o grêmio estudantil e comecei a participar de movimentos estudantis e da União Mogiana dos Estudantes Secundaristas. Isso aprofundou meu gosto pela política, fui para a política partidária e acompanhei a fundação do PSDB, no ano de 1988, em Mogi, junto com Egberto Malta Moreira, quando o Mário Covas era o presidente do partido. Eu era um jovem ativo e ficava panfletando nos faróis da cidade. Fui candidato a vereador para ajudar a dar número na legenda, mas foi uma campanha caseira, sem dinheiro e o material era basicamente xerox que distribuíamos nas ruas. O candidato a prefeito era o Egberto e Wilson Urbano Filho era o vice. Recebi 142 votos.

Depois da clínica dentária, onde mais você trabalhou?

Trabalhei em cozinha industrial, fiquei um tempo na Companhia Suzano e aí vem de novo a questão da política, porque acabei indo para o Sindicato de Refeições Coletivas, onde fui secretário e tesoureiro e depois entrei na Federação dos Servidores de Refeição Coletiva, em São Paulo. Quando minha mulher engravidou eu estava em empresa terceirizada e afastado pelo Sindicato, mas recebendo pela empresa. Fiz acordo, sai e com ela montei um comércio na rua Ipiranga que vendia ferragens e acessórios para serralheiros. Ali fiquei até o ano 2000, porque em 1999, quando o Junji veio para o PSDB, do qual eu era membro da executiva, ele me chamou para trabalhar na campanha, ao lado da Mel Tominaga, Elias, Aroldo Saraiva e Gilberto Moro. Esta eleição foi difícil e ele disputou o segundo turno com o Chico Bezerra na única vez que deu segundo turno em Mogi. No governo do Junji, comecei assumindo o Demapo (Departamento Municipal de Materiais para Obras), fui secretário interino de Esportes, secretário de Transportes, chefe-adjunto de gabinete e secretário de Serviços Urbanos. Fiquei sete anos e meio e saí no final do segundo mandato porque o partido me pediu para ser de novo candidato a vereador e tive 798 votos.

Como foi a experiência na Prefeitura?

Nunca tinha participado da administração municipal, era jovem e cheguei com responsabilidades grandes, porque o Demapo cuidava da coleta de lixo, que não era terceirizada; da limpeza pública, com as chamadas margaridas; do lixão; da manutenção da cidade toda, incluindo o asfalto nas estradas. Foi uma experiência incrível, tanto pelo conhecimento adquirido na administração pública como pelas amizades que fiz e até hoje me acompanham no restaurante. Fico feliz quando chego aos bairros e os moradores vêm falar comigo. Conheci desde pessoas humildes até as mais abastadas da sociedade. Estes anos na administração me fizeram crescer muito. Cada cidadão deveria passar pelo menos dois anos lá para saber o que é. Dizem que basta querer e ter vontade política para fazer, mas não é isso. Existe uma série de fatores que dificultam. Isso nos faz crescer e saber administrar com o pouco de recurso que temos. Mas a política é viciante porque é um desafio, com diferentes problemas a cada dia e é preciso estar preparado para fazer algo diferente.

E depois da gestão do Junji?

Quando o Bertaiolli assumiu, em 2009, não retornei para a administração. Fiquei desempregado até o março daquele ano, quando o Junji começou as articulações da campanha para deputado federal e como eu era um dos líderes do PSDB, o acompanhei na região para que começasse a articular a campanha dentro dos diretórios do PSDB. Fiquei com ele até a eleição para deputado. Depois de eleito, ele me deixou porque havia um hiato entre a eleição, em outubro, até que ele assumisse, em março. Mas isso é coisa da vida e sempre falo que cargo público, por comissão ou quando você está em um partido, você dorme empregado e acorda desempregado.

Quando você retornou?

Um dia ao shopping e encontrei o Chico Bezerra. Tomamos café e ele perguntou se eu iria para a Brasília ou ficaria aqui. Disse que não faria uma coisa e nem outra e que este era o jogo da política. Ele me chamou para conversar no gabinete e disse que precisava de mim em seus projetos e na eleição, porque a maior dificuldade é montar uma boa chapa para concorrer a uma ou duas cadeiras no Legislativo.

Como foi a convivência com o Chico, adversário do Junji, para o qual você trabalhou na eleição de 2000?

Na política temos adversários e não inimigos, principalmente eu que nunca disputei diretamente um cargo executivo. Sempre nos respeitamos. Fiquei com ele até 2017, quando mudamos o restaurante para o novo endereço e não dava mais para conciliar, porque precisava tocar o negócio com minha mulher e filho. Saí da Câmara, mas continuo filiado ao PSB e faço parte da executiva. Embora ainda hoje as pessoas me procurem para esta questão política, me dedico ao restaurante. Sinto falta do dia a dia na política, embora aqui no restaurante a gente também faça política. Não tem jeito. Volta e meia, quando consigo dar atenção no salão, o assunto sempre volta para a política, sobre quem serão os próximos candidatos a prefeito e a vereador e acabo acompanhando os bastidores.

Como ficou o relacionamento com o Junji?

Tranquilo e sem rancores. Somos amigos e de vez em quando ele vem ao restaurante com a família. O relacionamento é de respeito. Na última campanha dele a deputado federal, não tive envolvimento porque estava no PSB, o Chico Bezerra foi candidato ao mesmo cargo e eu trabalhei para ele. Na política é assim.

De que forma lidar com isso?

Não é fácil, uma hora somos adversários e depois estamos juntos. Na política você tem que aprender a defender as ideias e não entrar no choque entre as pessoas. É como no futebol, onde hoje o jogador beija o escudo de um time e amanhã está em outro. É uma relação profissional, principalmente para nós, assessores. Claro que no meu caso houve todo um carinho porque fui um dos fundadores do PSDB em Mogi e depois não tinha mais sentido ficar lá, servindo um parlamentar de outro partido.

E o gosto pela gastronomia?

Quando criança, aprendi a cozinhar com minha mãe para fazer a comida dos meus irmãos. Ela me ensinou a fritar alho, cebola e a preparar o básico. Depois, quando havia algum churrasco, deixavam para eu cuidar. Na infância, participava da Festa do Divino, principalmente andando a cavalo na Entrada dos Palmitos. Tinha o afogadão do povo, gostava de ver aqueles homens preparando o prato e pensava que um dia também poderia estar lá. E isso aconteceu há 20 anos, quando o Airton Nogueira me levou para fazer parte do grupo responsável pelo preparo do afogado servido todas as noites na quermesse. Hoje, também ajudo no afogadão do povo.

Quando você montou o primeiro Pé de Jaca?

Em 1 de dezembro de 2014, no meio da crise financeira do país, montamos o restaurante no primeiro endereço, na Mogi-Bertioga. O nome surgiu porque quando começamos, ao lado havia uma loja de móveis feitos com pés de jaca. Começamos eu, minha mulher, meu filho e um garçom. Na quinta e sexta-feira, saía da Câmara na hora do almoço, ia para o restaurante, e retornava. Terminava o expediente e voltava a trabalhar porque não é só preparo, tem a parte de compras em São Paulo, principalmente no Mercadão de São Paulo e em atacadistas, pagamentos, manutenção e outras tarefas. A nossa cozinha é brasileira, tradicional e caseira. Temos preocupação especial com a apresentação do prato porque quando eu e minha mulher estudávamos Nutrição, aprendemos que as pessoas comem pelos olhos, depois vêm o aroma e paladar e existe uma explicação para o brinde, já que a audição é o único sentido que não ativamos na hora de comer. Então, apostamos na cozinha tradicional brasileira, mas com o requinte de uma boa apresentação.

Por que a mudança de endereço?

O local ficou pequeno, havia fila de espera e problema de logística, porque fazíamos o pré-preparo dos pratos aqui e levávamos para lá. Então, meu sogro começou a construir aqui, a obra levou um ano e meio e quando ficou quase pronto já viemos para cá. Em um domingo, contando com free lancers, chegamos a 35 pessoas trabalhando. Sempre que posso saio da cozinha para conversar com os clientes e tenho vontade de abraçar a todos porque é disso que a gente vive. Além da comida boa, o atendimento tem que ser cortês e é preciso fazer o diferencial.

Como você avalia a Mogi das Cruzes de hoje?

Mogi deu um grande salto depois do ano 2000, com o fim da era Waldemar (Costa Filho) e o início da era Junji, onde foram criados o Pró-Mulher, Pró-Criança, Pró-Hiper, construídas várias creches e escolas e também os parques. Depois houve a continuidade, com o Bertaiolli, que já tinha sido vice do Junji, seguiu a mesma linha, e agora com o Marcus Melo. Esta continuidade garantiu o constante desenvolvimento de Mogi. A cidade tem crescimento, qualidade de vida e os órgãos de estatística apontam Mogi como bom local para se morar. Nossos problemas são pontuais e com o tempo serão resolvidos.

Quais os problemas?

O que me preocupa, vejo com tristeza e nem sei se ocorre por conta do poder público municipal, estadual ou federal, é que muitos comércios do centro estão fechados. Em São Paulo, há algumas ações neste sentido, como o projeto ‘Vem Pro Centro’ e os comerciantes investindo nesta região, porque é preciso ter atrativos. Aqui, a revitalização da Vila Helio é uma ideia que deveria se estender por todo o centro. Outra questão que precisaria ser resolvida é a da falta de estacionamento no centro. Mogi é uma cidade com quase 500 anos, com as mesmas características e ruas estreitas que poderiam se transformar em calçadões, com bolsões de estacionamento e deixando o centro mesmo mais restrito aos pedestres.

Há possibilidade de você se candidatar nas próximas eleições municipais?

Não existe convite e da minha parte não há pretensão. Estou me dedicando ao restaurante, mas nunca digo nunca porque a política está na veia e no sangue, já que meu filho também gosta. A política é muito dinâmica, muda e a gente nunca sabe o futuro.

Qual sua avaliação da atual política?

É difícil fazer política hoje e isso foi uma das coisas que me optar por ficar um pouco fora, além do compromisso com o restaurante. Hoje, como sempre, fica tudo na vala comum de que quem é da política não presta. As pessoas generalizam. Temos problemas, mas há bons homens públicos que podem resolver o problema do país. E como comerciante torço muito para que isso aconteça.

No comando que temos hoje é possível que isso aconteça?

Criou-se uma expectativa grande, mas não podemos nos esquecer que estamos em um país presidencialista, que depende de um congresso para governar. Sempre defendi o parlamentarismo. É preciso entender que não basta mudar um presidente, seja ele quem for, sem pensar grande, no todo, porque ele nunca vai governar sozinho. A população precisa valorizar desde o voto de vereador até presidente da República, porque tudo se encaixa, um depende do outro. Senão fica cada vez mais difícil gerar emprego e administrar.

Nas redes sociais você tem milhares de seguidores. A que você atribui esta popularidade?

Sempre tive, até por conta da política, facilidade com as redes sociais, ainda na época do Orkut. É preciso ter muito tato para lidar com as redes sociais porque elas podem te levantar ou te derrubar. Não sou de ficar fazendo críticas, mas às vezes acontece, como na recente postagem que fiz sobre o estacionamento do Mogi Shopping e bombou. No geral, minha rede social pessoal é mais leve e uso a página do restaurante para atrair clientes e mostrar meu trabalho.