CHICO ORNELLAS

Ao mestre, com carinho

LICEU BRAZ CUBAS – Formandos de 1963 do curso ginasial do Liceu Braz Cubas, no pátio da escola na Rua Francisco Franco. (Foto : arquivo pessoal)

Mogi de A a Z

LICEU BRAZ CUBAS – Formandos de 1963 do curso ginasial do Liceu Braz Cubas, no pátio da escola na Rua Francisco Franco. (Foto : arquivo pessoal)

Nesta terça-feira, dia 15, celebra-se o Dia dos Professores; nada mais justo que lhes tributar agradecimentos. Lembrei-me que, há 23 anos, após um ano inteiro de preparativos, os colegas da 2ª turma da Faculdade de Direito Braz Cubas comemoraram o Jubileu de Prata de sua formatura, com um jantar no mesmo local onde se reuniram para o seu baile de formatura, em 1972: o Clube Náutico Mogiano. Verdade que nem todos foram, mas os quase 100 advogados que se reencontraram tiveram tempo suficiente para relembrar tanto tempo passado.

De minha parte, ao reencontrar um professor querido que não via desde então – o procurador de Justiça José Roberto Baraúna, da cadeira de Direito Penal –, fiz um passeio pelas lembranças mais distantes. Fui até uma sala do primeiro ano primário do Instituto Dona Placidina, onde eu e Fernão Guedes Júnior éramos os únicos homens em uma sala feminina, dirigida pela professora Maria Cecília Arouche de Toledo Ramos. Era uma festa: além de só meninas na classe, a professora ainda era minha tia e madrinha de batismo. Tudo porque, abaixo da idade mínima para matrícula no ensino oficial, o que meus pais conseguiram foi incluir-me naquela sala.

A alegria durou pouco. Quando atingi os 7 anos de idade me mandaram para o segundo ano primário, já no Coronel Almeida. Fui com medo ao primeiro dia de aula, levado por Adelina, a babá que meu avô me arrumou logo que nasci e que ficou em casa por 16 anos. Saiu porque se casou, com Emílio, em festa que eu fiz questão de ajeitar.

Mas o medo não foi além de um ou dois dias. A partir do primeiro momento, recebido pela professora Geralda Freitas, que a professora Nilcéia Cristófaro substituiu no ano seguinte, senti-me em casa. Ainda hoje posso andar de olhos fechados pelo velho prédio do Largo da Matriz, sem tropeçar em degrau nenhum das centenárias escadarias de madeira escura, que levam às salas do andar superior.

As classes do curso primário eram reforçadas por aulas particulares que um professor loiro, baixinho e bravo, me dava em sua casa na Rua Braz Cubas. Quando me encontrava com ele e relembrava esse período, me dizia José Sebastião Witter, depois diretor do Museu Paulista, que eu era gago. Meus pais sempre negaram. Diziam que, na verdade, eu era preguiçoso e trocava letras. O “t” pelo “d”, o “g” pelo “c”, o “p” pelo “b” e assim por diante. Acho que era disléxico. De qualquer forma, por um ou outro motivo, tornei-me freguês dos professores particulares, que me acompanharam pelo resto da vida. Witter no primário; Nyssia Freitas Meira e Nyllia Maritan Abbondanza no ginásio.

Quando terminei o primário no Coronel Almeida, passei um ano no curso de Admissão da professora Jovita Franco Arouche, outra tia, que então dividia, com a Associação das Famílias Cristãs, uma casa na Rua José Bonifácio, vizinha da Prefeitura. A casa era propriedade de outra tia – Josefina “Finoca” Franco Borges Vieira – e quase compartilhava quintal com o de meus avós, o espaço mágico das minhas maiores aventuras infantis.

Um ano de preparatório ao ginásio não me garantiu vaga no Instituto de Educação Dr. Washington Luiz. Sorte minha: fui parar no Liceu Braz Cubas, exatamente defronte à casa onde morava, na Rua Isabel de Bragança. Franzino, aos 11 anos de idade, me constrangia a cada recreio: era obrigado a me postar junto ao portão da escola para digerir o lanche que Adelina levava por ordem de minha mãe. Em compensação, as moças do curso Normal, pouco mais velhas, paparicavam a cada recreio a bandeja de geleias, torradas e chocolate.

Foi no Liceu onde convivi com alguns professores inesquecíveis. Como Emílio Giusti, de Português ali, depois de línguas neolatinas – sânscrito incluído – na Universidade de Lyon/França. Também Dalmo de Almeida (Geografia); José Paiva (Desenho) e Ricardo Amorim (inglês). Ao Ricardo devo, ainda hoje, a gratidão por me ter ameaçado reprovar se não conseguisse decorar os 30 verbos básicos de sua disciplina. Também ao Paulo Marcondes de Carvalho, que corrigiu – e gostou – da minha redação no exame de admissão. E o diretor Plínio Boucault. Amigo.

Fechado o ginasial, com a repetência da terceira série, enfim fui ter ao Washington Luiz para o colegial. Matriculei-me no Clássico pela manhã e, à noite, no Normal. Fiquei pouco no curso noturno: minha mãe temia que, formado professor primário, não fosse em frente na busca de uma graduação superior. Mal sabia ela que estava mesmo era interessado nas alunas do Normal.

Foi no Instituto que encontrei gente como Horácio da Silveira, apaixonado pela Civilização Egípcia e pela Revolução Francesa. E Jair Batalha que, em vida, deu nome ao Clube de História que fundamos ali, para editar a Revista Cartouche, especializada em temas históricos. Eu respondia pela seção “Jornal na História”, apresentando fatos passados como se tivessem então ocorrido: “Notícias procedentes de Lisboa dão conta de que Pedro Alvares Cabral aportou, o mês passado, em terras desconhecidas do além-mar”.

No Washington Luiz eu fazia dupla com um rapaz de humor encardido: Arístio Serra. Foi com ele que, em janeiro de 1965, no segundo ano colegial, respondemos a um anúncio do Diário de Mogi (“Oferecemos oportunidade para jovens estudantes com aptidão para o jornalismo”). Conseguimos nosso primeiro emprego.

Encerrado o curso colegial, era tempo de prestar vestibular. Envolvido, já há dois anos, com o jornalismo, a primeira ideia era tentar a Escola de Comunicações e Artes da USP. Comentei isso com o Tote. A resposta foi de pronto, a um tempo em que o diploma de jornalismo não era obrigatório para o seu exercício: “Vai fazer Direito que jornalista você já é”.

Vestibular prestado na Braz Cubas, matriculei-me no curso diurno. Euclides Ferreira da Silva Junior e Eduardo Malta Moreira cortaram-me o cabelo no trote. Nunca mais cresceu.

Ali, por 5 anos, Boris Grinberg diretor, encontrei professores como Amaury Mascaro Nascimento, José Carlos Martins de Souza, Paulo Marcondes de Carvalho, Sebastião Cascardo, Sérgio Augusto Nigro Conceição, Wagner Del Giglio. E José Roberto Baraúna, o procurador de Justiça que lecionava Direito Penal e que, numa noite de 23 anos atrás, me levou a todas estas lembranças.

A eles todos sou grato

Carta a um amigo

Coisas da infância

Meu caro Chico

Há, na vida da gente, muitos acontecimentos que, se não são anotados, acabam ficando no esquecimento; principalmente histórias de crianças.

Minha neta de 5 anos pergunta ao pai:

– Pai o que é plebiscito?

– Plebiscito, minha filha, é um tipo de eleição… Espere um pouco… Quem falou disso pra você?

– Foi a minha amiga Clô. Ela disse que, se a gente chegar perto de um plebiscito, é perigoso a gente cair e morrer.

Meu sobrinho, também de 5 ou 6 anos, em tempos passados:

Estávamos em minha casa no final de semana onde havia, num galpão coberto, uma mesa grande com um relógio na parede, desses que têm frutas nos quartos de hora.

Reparei-o olhando fixo para o relógio e perguntei:

– Você já sabe ver as horas?

– Sei sim tio.

– Então que horas são?

Resposta pronta:

– Abacaxi 5.

Grande abraço,

Carlos Roberto Godoi Cintra”

FLAGRANTE DO SÉCULO XX

EM PORTUGAL – No início do século passado a família Alves dos Anjos achou que era tempo de viver um tempo na Europa. E foi-se para Portugal. Escolheu Espinho, cidade da região de Aveiro que, na época, tinha 10 mil habitantes (hoje são 30 mil). A foto é de 1905, preservado por Nabor Arouche Alves; seu pai, Benedicto Alves dos Anjos é o garoto sentado na banqueta. (Foto: arquivo pessoal)
(Foto: arquivo pessoal)

GENTE DE MOGI

SENHOR DOS SEGREDOS – Por anos a fio administrou as muitas mesas de sinuca e o bar do Bilhares Glória, na Rua Flaviano de Mello, quase esquina com Deodato Wertheimer. Testemunhou desavenças e conchavos políticos, jamais negou uma resposta a conselho perdido, tampouco pendurar uma conta. O Glória faz falta hoje, mais ainda Armando Nardelli, que morreu em outubro de 1994.

O melhor de Mogi

Pode ser modesto, para uma cidade de 459 anos. Mas é muito melhor que nenhuma a atenção da atual administração com o Arquivo Municipal, que acaba de ganhar espaço no casarão da Rua Coronel Souza Franco.

O pior de Mogi

Triste, muito triste, constatar que Mogi das Cruzes, a capital econômica da região Leste da Grande São Paulo e do Alto Tietê, tem a única estação ferroviária não renovada, da linha Coral da CPTM. Talvez algum político consiga nos explicar.

Ser mogiano é….

Ser mogiano é… ter sido amigo de Crisóstomo Ubbink. Não conhece? Tudo bem, e se o chamarmos de Frei Fofinho?

www.chicoornellas.com.br

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