DE MOGI

Aos 11 anos, MC Caverinha é sucesso na internet

(Foto: Eisner Soares)
Considerado um fenômeno da rede, MC Caverinha compõe as musicas de seu shows. (Foto: Eisner Soares)

Lançado no último dia 4, no YouTube, o clipe de “Só Não Pisa no Meu Boot” já contava, ontem, com mais de 3 milhões de visualizações. No Spotify, onde está disponível desde 1º de abril, a música foi ouvida quase 300 mil vezes. Detentor do hit, Kauê de Queiroz Benevides Menezes, o MC Caverinha, postou uma foto no Instagram pela primeira vez em janeiro, e por lá já conta com 460 mil seguidores. Vendo números tão grandiosos na internet, poucos imaginam o que o garoto de apenas 11 anos, já passou na vida real.

Morador do Conjunto Santo Ângelo, em Mogi das Cruzes, o fenômeno do trap tem dois caminhos para chegar em casa. Os dois são de terra. Em dias de chuva, o barro inevitavelmente toma conta das vias. Para ele, que é apaixonado por seus tênis e vai a pé todos os dias para a Escola Estadual Professora Lucinda Bastos, ter que passar ali pode ser tornar um sofrimento. A sorte do menino é poder contar com a ajuda de Kaique Benevides Menezes, 19, que muitas vezes carrega o irmão nas costas durante o trajeto, apenas para que ele não suje o “boot”.

Na vida do MC, entretanto, a ajuda do irmão é muito maior do que qualquer “carona”. Oito anos mais velho que Caverinha, Kaique já se apresentava cantando funk e levava o pequeno Kauê para acompanhá-lo, dançando. Em uma apresentação dos dois em uma Fábrica de Cultura, o menino que tinha apenas 4 anos de idade decidiu o que queria. “Eu fui no ouvido dele e falei: ‘Agora eu posso cantar?’. E ele falou: ‘Você não quer que eu cante com você?’. Eu lhe disse que não precisava, chamei todo mundo para frente e foi assim que comecei a cantar”, relembra.

O governador João Dóoia (PSDB) anunciou, no início do mês, a redução de verba para as Fábricas de Cultura, mas com a repercussão negativa ele recuou. Caverinha foi um dos manifestantes na internet, ao fazer um apelo para que os espaços não fossem afetados. O menino é grato ao lugar onde já conquistou inúmeros prêmios de canto e dança, os quais ele exibe, orgulhoso. “Ele já ganhou a disputa do ‘passinho’ que teve participantes de todas as Fábricas de Cultura”, orgulha-se o pai, Rubens Benevides Menezes.

Já reconhecido nos espaços culturais, o pequeno Kauê se apresentava também nos eventos da Prefeitura de Ferraz de Vasconcelos, aonde morava, até então. O sucesso na internet começou no início, quando Kaique postou no Facebook a primeira música do irmão, intitulada “Chama no Money”. Em apenas um dia o vídeo, gravado no quintal de casa no Conjunto Santo Ângelo, já tinha sido compartilhado mais de 20 mil vezes e os comentários não paravam de surgir.

Hoje, Caverinha é seguido por muitos famosos no Instagram, diz que acha “da hora” e fica feliz com cada interação. O MC, inclusive, já tem uma nova música para ser lançada. A letra – “Vão dizer que tudo é sorte/ mas é talento e trabalho./ Quem nasceu pra ser patrão,/ nunca vai ser funcionário./ Joga na conta, todo meu cash,/ casa pra ‘mã’ e o resto a gente investe” vai ganhar ainda a voz de Matuê, um dos destaques do trap nacional, de quem o menino é fã.

Irmão é seu eterno parceiro

Kauê e Kaique, juntos na vida e também na música. (Foto/ Eisner Soares)

A família é grande. Kauê de Queiroz Benevides Menezes, o MC Caverinha, mora com cinco irmãos: Kaique, de 19 anos; Laisa, 16; Kauã, 14; Kelvin, 6, e Kassio, 4. Mas que a conexão do cantor com o mais velho é diferenciada, isso é inegável. Os próprios pais dos meninos, Charlene Cristina de Queiroz e Rubens Benevides Menezes, reconhecem que Kaique é como um pai para Kauê. Nesses anos de parceria, os dois já vivenciaram inúmeros episódios pela música e, agora, vivem juntos o sucesso do mais novo.

Certa vez, Caverinha – que ainda morava em Ferraz de Vasconcelos – tinha uma competição de dança para participar na Fábrica de Cultura do Itaim Paulista. Junto ao irmão mais velho, fez o trajeto a pé, algo em torno de 7 quilômetros e uma hora e meia de caminhada. “Ele foi o vencedor e depois de dançar, chorou muito. Ninguém sabia o que era, mas ele estava com o pé inteiro machucado e sangrando, porque o tênis estava apertado e era o único que ele tinha”, disse Kaique. Hoje, os pares de tênis do MC são incontáveis.

Foi também ao lado de Kaique que o menino começou no funk e chegou ao trap, gênero que mistura elementos do rap com a música eletrônica. Na internet e imprensa especializada, inclusive, Caverinha já é chamado de “Príncipe do Trap”. As músicas são repletas de expressões em inglês, disciplina que é a preferida do menino na escola. “É por isso que eu falo para minha mãe não deixar eu falta,r que terça-feira é o dia que tem inglês”, revela o MC.

Kaique também é cantor e já tem uma música gravada ao lado de outros Mcs para ser lançada em breve. Além disso, os irmãos pretendem gravar uma nova composição, já que gostam de compor. Foi assim que eles criaram o hit “Só Não Pisa no Meu Boot”. O irmão mais velho tinha um tênis que gostava muito e um dia chegou em casa “bravão” porque sujaram, como ele mesmo conta. Foi quando Caverinha teve a ideia da música, que eles fizeram juntos e já tem alcançado números impressionantes.

Vida marcada por muitos sustos

Na casa de Kauê de Queiroz Benevides Menezes, o Mc Caverinha, um fator já conquista logo na entrada: a simpatia de todos os integrantes da família do menino. A mãe, Charlene Cristina de Queiroz, 37, não tira o sorriso do rosto, mesmo que as histórias que tenha para contar sobre o passado sejam de sofrimento. Quando o filho ainda não era um fenômeno na internet, mas já era reconhecido em alguns lugares, eles moravam em Ferraz de Vasconcelos, onde foram contemplados com um imóvel da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU).

“Quando isso aconteceu, as pessoas começaram a confundir as coisas. Falavam que ele já tinha me dado um apartamento, que estava tirando fotos em carrão e em casas bonitas. Mas isso era tudo do empresário”, conta a mãe. Depois disso, começaram a surgir boatos sobre um possível sequestro do garoto. Foi quando, há três anos, decidiram se mudar para Mogi das Cruzes.

Por aqui, investiram R$ 35 mil em um novo apartamento no Conjunto Bom Pastor. O imóvel que foi vendido como sendo de um proprietário, era na verdade do programa “Minha Casa, Minha Vida” e não poderia ter sido repassado. Com medo de serem despejados, se mudaram novamente. Encontraram, então, uma casa no Conjunto Santo Ângelo e deram pelo imóvel um carro que tinham, além de um dinheiro que foi pego de um empréstimo feito no banco pelo irmão de Charlene.

Este foi, talvez, o maior trauma da vida de Caverinha. Um dia, às 7 da manhã, uma oficial de Justiça acompanhada da polícia, de tratores e um caminhão, bateu à porta da família, afirmando que a propriedade era irregular e que seria destruída naquele momento. Eles tiveram de sair dali às pressas, deixando muitas coisas para trás.

Após ficarem 15 dias na casa do irmão de Charlene e quatro meses morando em apenas um cômodo, a família agora paga um acordo para que a casa que vivem atualmente – também no Santo Ângelo – seja deles. Não à toa, o maior sonho do pequeno Kauê é presentear a mãe com uma nova casa.