CLÁUDIO GATTI

Após o Louvre, fotógrafo mogiano expõe em Veneza

Gatti procura humanizar personagens. (Foto: Eisner Soares)
Gatti procura humanizar personagens. (Foto: Eisner Soares)

Mogiano, Cláudio Gatti produz fotos inusitadas de empresários brasileiros e personalidades, revelando o lado surpreendente de quem está nas mais altas posições da hierarquia financeira do país, como donos de bancos e representantes de grandes conglomerados empresariais. Estampadas na capa de revistas de circulação nacional, como ‘Isto É Dinheiro’, ‘Veja’, ‘Quem’, ‘Caras’, ‘Valor Econômico’ e outras, as fotos de Gatti chamaram a atenção de olheiros internacionais, que o levaram para expor no museu do Louvre, em Paris, há dois anos. Agora, entre 2 de junho e 30 de julho, novos cliques o alçam à Bienal de Veneza, uma das instituições culturais de maior prestígio no mundo.

Para entender como o mogiano de 48 anos teve acesso a estas oportunidades, é preciso conhecer sua formação. Na verdade, a fotografia não era o “plano A” de Gatti, que optou inicialmente pela formação em Engenharia Mecânica, na Universidade Braz Cubas (UBC). À época – início da década de 1990 -, ele trabalhava no departamento de audiovisual desta instituição de ensino, montando e ajustando retroprojetores.

Aos poucos, um dos chefes o convenceu a aprender a mexer com fotografias, e lá foi o então jovem se aventurar num laboratório em que ficou pelos próximos 10 anos, não só revelando e tratando imagens como ajudando alunos dos cursos de comunicação social. Um dos estudantes que recebeu suas orientações foi Evaristo Costa, conhecido por ter apresentado o ‘Jornal Hoje’, da Rede Globo, entre 2004 e 2017.

Depois de experimentar os “bastidores” da profissão, Gatti migrou para a parte prática, trabalhando como assistente de fotografia em São Paulo. Nesse momento, desistiu de se formar engenheiro e foi estudar o ofício do clique no Senac. Algum tempo depois, já com certo know how, decidiu entrar no mercado propriamente dito. Com a ajuda de alguns colegas, foi indicado para fotografar eventos em que estavam personalidades como Jô Soares, Ziraldo e Arnaldo Antunes, pela revista ‘Isto É Gente’.

À medida em que buscava aplicar um olhar diferente de outros profissionais, o mogiano se voltou cada vez mais para o formato retrato – estilo no qual, mais tarde, decidiu se especializar. E de uma revista ele foi para a outra, a maioria como freelancer.

Dos quase 20 anos da carreira de Gatti, há pelo menos 12 ele tem registrado grandes empreendedores, principalmente para a revista ‘Isto É Dinheiro’, mas também para outras publicações. É justamente nesse nicho que o fotógrafo se destaca, procurando humanizar os personagens, os tirando de um “pedestal” e os colocando próximos do leitor.

Tanto é que, ao fotografar o hoteleiro e diretor do complexo WTC São Paulo, João Nagy, Gatti encantou e ganhou lá um espaço permanente para a exposição de seus cliques. Uma das imagens em exibição neste complexo de negócios é bem famosa e já figurou numa capa da ‘Dinheiro Rural’, exibindo o ex-presidente da Nestlé, Ivan Zurita, tomando e derrubando leite no próprio corpo.

Este e outros registros, como um que mostra o ex-presidente do grupo Fiat Chrysler para a América Latina, Cleodormino Bellini, lavando a roda de um carro, fizeram tanto sucesso que instigaram, em 2017, uma equipe de curadores a convidar o fotógrafo a expor no museu do Louvre, em 2017, num carrossel que envolveu outros profissionais da América Latina, como pintores e artistas plásticos.

Quando retornou desta agenda para o Brasil, Gatti decidiu investir em novas exposições, menores, que o colocaram novamente na mira de olheiros internacionais. Ao acertar um trabalho com a galeria Saphira & Ventura, de Nova York, que o encaixou numa mostra em homenagem à Tarsila do Amaral, ele acabou sendo convidado para expor alguns de seus cliques na Bienal de Veneza, onde aconteceu um vernissage no começo do mês, uma prévia da exposição marcada para começar em junho.

Mesmo com esse reconhecimento, Gatti diz que “a ficha ainda não caiu”, e revela continuar fotografando de maneira despretensiosa. No entanto, por mais que seu objetivo principal sejam os retratos para capas de revistas, ele tomou gosto pelas mostras e já pensa nos próximos passos nesse sentido, que devem incluir eventos sobre a relação comercial Brasil x Estados Unidos, a Organização das Nações Unidas (Onu) ou outra entidade ligada a atividades sociais e educação.

Detalhes ingênuos fazem a diferença

“Tem horas que não é preciso pintar o pavão, pois ele pode já estar pintado”. É assim que Cláudio Gatti encara o ofício de fotografar, procurando observar, em cada cenário e também em cada executivo, detalhes que podem até parecer bobos, mas que rendem bons registros.

Para ele, percepção é tudo. Como no caso de um clique do empresário e filantropo sírio Eli Horn, que, radicado no Brasil, doou mais da metade da própria fortuna e mesmo assim foi flagrado num ato de simplicidade, descalço, só de meias, no ambiente de trabalho.

Em outras situações, a persistência é o que define a imagem, assim como aconteceu no retrato do catarinense Luciano Hang, dono da Havan, uma das maiores redes de lojas de departamento do país. Gatti conta que, para garantir a foto com este homem, o 11º mais rico do Brasil segundo a Revista Forbes, foi preciso acompanhá-lo durante o dia todo, para só assim, no início da noite, convencê-lo a posar enrolado na bandeira nacional ao lado do avião com as mesmas cores azul, verde, amarelo e branco.

Há também o acaso, a exemplo do registro de Maria Claudia Beldi, presidente do banco Finaxis, em que a sorte contou a favor. Convidado para fotografar a executiva no apartamento dela, o mogiano se deparou com uma profissional de alto gabarito sentada no chão, sem sapatos, brincando com o cachorro da família. Ao ver a cena, apertou o botão.

Outro fator que conta é a ousadia. No registro do Marcelo Fernandes, proprietário dos restaurantes Kinoshita e Attimo, na capital, Gatti “exagerou” até chegar ao clique certo. Primeiro, fotografou o homem com um polvo na cabeça. Depois, o clicou em adoração ao bicho. Por fim, acertou com o clique agressivo dele mordendo o animal.

Às vezes, porém, como Gatti admite, seus cliques “passam um pouco, ficam mais engraçadinhos”. Mas ele diz preferir assim “do que esses caras atrás da mesa, que é o que a maioria faz”. “Não me preocupo quando meu retrato excede, e sim quando não trago. Porque penso que é melhor pecar pelo excesso do que pela falta”, resume.

Esse pensamento o faz garantir cliques raros, excêntricos. Além dos “causos” contados aqui, algumas histórias de suas fotos podem ser conferidas a seguir. Já outras, – como a de Lazaro Brandão e Luiz Carlos Trabuco, do Bradesco, fotografados apontando para o horizonte – podem ser encontradas no site dele – gattifotografo.com ou então na Bienal de Veneza, a partir do próximo mês.

Ideia surgiu com bicicleta no escritório

Foto: Cláudio Gatti

Aqui, o dono da construtora Vitacon, Alexandre Lafer Frankel, 38, pode ser visto “pedalando” no ar, com a bicicleta erguida por um guindaste. A foto, no entanto, não estava prevista para sair assim. Foi obra do pensamento rápido de Gatti, como ele mesmo conta. “Quando cheguei no escritório dele, vi que o ambiente era de bom gosto, e que resolveria o retrato facilmente. Mas vi uma bicicleta que estava no canto, e decidi perguntar se ele a usava. A resposta foi ‘eu vou e volto com ela, não uso mais carro em São Paulo’. Até então não sabia que a matéria falava de mobilidade urbana, mas quando descobri que a empresa dele constrói apartamentos de 10 metros quadrados, percebi que a pauta tinha tudo a ver com isso. Quis saber se ele tinha alguma obra ali por perto, e de fato havia uma a poucas ruas. Quando cheguei lá, vi uma grua, e logo pensei em amarrar a bicicleta ali. Expliquei ao Alexandre que queria ele suspenso, e na hora topou. O pessoal da obra fixou a bike e fizemos a foto”.

Inspiração

Os retratos que Gatti fez do governador do Estado de São Paulo, João Doria (PSDB) e do atual CEO do Bradesco, Octavio de Lazari, foram inspirados numa foto de Michael Bloomberg, ex-prefeito de Nova York, publicada numa lista da revista ‘Time’ que nomeia as 100 personalidades mais importantes do mundo. O clique original eternizou o político norte-americano em cima de uma árvore, posição que também pode ser vista com os personagens brasileiros.

Segundo o fotógrafo, a primeira referência à Bloomberg foi feita na imagem de Lazari. “Precisei fotografá-lo para uma matéria de capa da revista ‘Dinheiro Rural’. Na ocasião, levei um chapéu e milho de pipoca, para remeter ao agronegócio, mas o diretor de comunicação do Bradesco disse que ele não posaria daquele jeito. Como precisava mudar a foto, comecei a olhar o ambiente. Percebi que havia uma árvore por perto, e que o logo do banco ficava ao fundo. Como eu tinha a imagem do Bloomberg na bolsa, foi fácil convencê-lo”.

Depois, foi a vez de Doria, mas este já de caso pensado. Gatti queria fotografá-lo para inserir no material de uma exposição com o tema do escultor ítalo-brasileiro Victor Brecheret, e o encontrou para isso no Parque do Ibirapuera, na capital. “Já queria colocá-lo à semelhança do Bloomberg, pois eles são grandes amigos, ambos empresários que ascenderam à política. Encontrei uma figueira, deixei tudo preparado. Quando ele veio, nem precisei mostrar a foto. Foi só falar sobre a inspiração para que ele concordasse em tirar os sapatos e subir no tronco”.