EM TEMPOS DE CORONAVÍRUS

Artistas se reinventam e apostam em palcos digitais

Sandra Vianna está entre os artistas que lançaram projetos na internet. (Foto: divulgação)
Sandra Vianna está entre os artistas que lançaram projetos na internet. (Foto: divulgação)

Fechar os olhos e sentir a energia da música, o calor das pessoas ao redor, que compartilham da mesma vibe. Fazer parte de uma plateia que canta junto, não só com os artistas, mas por eles também. Estes são momentos comumente descritos por quem foi a um show, um concerto musical. No entanto, diante da pandemia do novo coronavírus, para o bem de toda a nação, apresentações ao vivo, espetáculos e aglomerações de qualquer tipo vêm sendo canceladas e adiadas. Mogi das Cruzes não está fora deste cenário. Só que os artistas da cidade não estão parados. Pelo contrário, continuam ativos, mas na internet, nas redes sociais.

Se a palavra de ordem é a segurança, o sentimento que reina é o medo. Todos os palcos tradicionais foram fechados, o que inclui teatros, casas noturnas, bares, centros culturais. Até apresentações em praças públicas foram suspensas. Caso tudo isso acontecesse há 30 anos, as alternativas seriam escassas. Mas hoje, em 2020, vive-se a eferverscência da tecnologia e da conectividade. Logo, cantores e cantoras da cidade têm se agilizado para postar stories e vídeos, além de organizar lives que funcionam como shows ao vivo.

Na visão da mogiana Valéria Custódio, que defende a visibilidade para a MPB autoral, a situação deve ser vista de três maneiras. “É algo delicado, porque temos que tomar muito cuidado, e o ser humano é um ser sociável, que não nasceu para ficar sozinho; é um tempo de aprendizado, porque muita coisa vai mudar depois disso; e é também um tempo atípico, porque é alto totalmente novo”, diz ela. E qual a conclusão? Não parar de produzir, e não somente para não enlouquecer ou dar espaço demais ao medo, mas para continuar sendo essencialmente artista, alguém que “precisa estar e cantar para as pessoas”.

Ou seja, ainda que não sejam revertidas exatamente ou diretamente em cachê, os vídeos devem ser encarados como uma “obrigação” para os músicos, acredita Valéria. “Enquanto não entenderem que isso faz parte do trabalho deles, suas atuações não estarão completas nessa era”, resume ela, que além das pequenas pílulas e pocket shows divulgados em plataformas como o WhatsApp e Facebook, adiantou para agora um projeto que estava sendo incubado há algum tempo: as lives, transmissões ao vivo.

Começando já na próxima terça-feira, dia 24, a mogiana poderá ser vista no Instagram, numa espécie de show, mas também uma janela que a permita conversar com a audiência sobre outros assuntos – o coronavírus, por exemplo, é um dos temas, mas virão outros debates. O formato tem convidados como o MC Acme, também da cidade, e pessoas de outros estados, como o Cadu Galvão, do Maranhão, ou as integrantes do 50 Tons de Pretas, de Porto Alegre.

Também musicista, e atualmente gestora do Espaço Cultural Canto de Cabocla, que recebe inúmeras apresentações no Centro da cidade, Sandra Vianna diz que ideias como essas, de divulgação online, têm surgido num “grupão” criado na segunda-feira da semana passada, num aplicativo de mensagens. Além dos vários artistas, faz parte da iniciativa também o secretário municipal de Cultura e Turismo, Mateus Sartori.

Aliás, a Cultura divulgou, na última quinta-feira, um edital para realização de uma mostra virtual, com o objetivo de contratar artistas e profissionais mogianos do segmento da arte por um período de três meses. O projeto, claro, é visto com bons olhos e veio no momento ideal, mas no caso de Sandra há “a questão do espaço físico, que é alternativo e não tem grande movimento, mas garante o funcionamento da casa, aluguel, pagamento de funcionários e músicos”.

Por isso, além de apoiar as apresentações em novos formatos, ela pede para que a classe artística se una e mantenha diálogo “com estruturas governamentais para que seja tomado um plano de ação efetivo”, com medidas como isenção de pagamentos e contas.

Como parte do processo democrático, tem quem concorde e quem discorde dessas ideias, sobretudo a presença digital. De acordo com Valéria Custódio, “tem alguns artistas com preconceito com as tecnologias”, mas não é o caso do cantor ferrazense Sergio Braz, que procurou novas plataformas para continuar a “tocar, cantar e compôr” mesmo com “um nó na garganta”. “É muito triste tudo isso que está acontecendo, e chega a doer o peito cantar, mas não temos outra saída, pois é o que gostamos de fazer. Continuo fazendo vídeos e postando nos status, nos stories, mas o online não é como o contato com o público”.

É como resumem bem as palavras de Sandra Vianna: “a gente sente falta dos abraços, dos olhares, da aproximação”. São coisas do dia a dia, que fazem parte dos costumes brasileiros, e que “fazem com que muitos percam o equilíbrio emocional neste momento”.


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