CHICO ORNELLAS

As fotos de 1939

ACERVO – O centro da Cidade e o Sanatório de Santo Ângelo, nas fotos preservadas pelo Instituto Geográfico e Cartográfico de São Paulo. (Fotos: arquivo)

Mogi de A a Z

ACERVO – O centro da Cidade e o Sanatório de Santo Ângelo, nas fotos preservadas pelo Instituto Geográfico e Cartográfico de São Paulo. (Fotos: arquivo)

Entre 1939 e 1940 o Exército, com câmeras fotográficas acopladas a aviões, fez um levantamento de dezenas de cidades paulistas. As fotos, hoje disponíveis na página do Instituto Geográfico e Cartográfico de São Paulo, permitem um passeio pelo interior de São Paulo – e também pela Capital.

No caso de Mogi das Cruzes há quatro fotos, duas das quais (Biritiba Mirim e Itaquaquecetuba) referem-se a antigos distritos que teriam sua emancipação política conquistada a seguir. A esse tempo, o município tinha 43 mil habitantes, incluindo as zonas rurais e urbanas das atuais cidades – com os respectivos anos de emancipação política – de Arujá (1959), Biritiba Mirim (1963), Itaquaquecetuba (1953), Poá (1949) e Suzano (1949) e que hoje integram aquilo que se convencionou chamar de “Alto Tietê”.

Para se dar a devida importância a essas fotos e ir além do crescimento demográfico, vale um passeio pela Cidade dessa década, os ‘30 do século passado.

Tinha 40 mil habitantes a Mogi das Cruzes que ingressou nos anos 30 do Século XX. Eram 15 mil no centro do município e 25 mil na zona rural e nos distritos. O município, em extensão territorial, era muito maior que o atual. Não foram fáceis esses anos. Se a estrutura política do País mudou – e muito – em decorrência da revolução de 1930 que conduziu Getúlio Vargas ao poder, na cidade as mudanças foram ainda maiores. O poder político era exercido por partidários do PRP, o Partido Republicano Paulista, derrotado na revolução. E não havia forças antagonistas na cidade, com o que se desestruturou por completo o controle político. A tal ponto, que a Prefeitura passou a ser ocupada por um coronel reformado da Força Pública, Eduardo Lejeune. Cioso de seu poder e comprometido com o espírito revanchista da nova ordem, o interventor cuidou de baixar, entre seus primeiros atos, alguns que revogavam homenagens prestadas a partidários do antigo regime. Em Mogi deixaram de existir, por conta da pena do coronel Eduardo Lejeune, ruas e praças que levavam os nomes de Washington Luiz, Deodato Wertheimer, Carlos Alberto Lopes, Joaquim de Melo Freire e Arrigo Rossi.

Isso foi em 1931, mesmo ano em que um grupo de mogianos levou ao palco do Cine Parque a peça “Manhã de Sol”, de Oduvaldo Viana. Integravam o elenco: Aurora Negreiros, Sebastião Oliveira, Lulú Marcondes, Moacir Viana, Guiomar Pinheiro, Eugênio Pavan e Ruth Marcondes.

A situação política parecia calma até maio de 1932, quando estudantes paulistas começaram a reagir ao poder central. Depois do 23 de maio em que foram assassinados, na Praça da República, em São Paulo, os jovens Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo, imortalizados na sigla MMDC, o 9 de Julho de 1932 seria inevitável. Mogi das Cruzes aderiu de pronto ao movimento constitucionalista e, acredite quem quiser, até o coronel Eduardo Lejeune se alistou como voluntário nas frentes de batalha.

A revolução teve, pelo menos, o condão de reaproximar antigos desafetos. Grandes amigos no passado, os médicos Deodato Wertheimer e Milton Cruz andaram se desentendendo depois da revolução de 30. Mas, arregaçaram as mangas na Revolução Constitucionalista e, juntos, cuidaram dos feridos atendidos na Santa Casa de Mogi, transformada em hospital de campanha. Para ali também eram enviadas as levas de retirantes da Capital, que pensavam encontrar em cidades, como Mogi, um sítio mais seguro para sobreviver à guerra que se vislumbrava. As aulas do 1º Grupo Escolar (na Praça Coronel Almeida) foram suspensas e o prédio transformado em quartel do movimento revolucionário.

De pronto, um contingente de 200 mogianos alistou-se como voluntário para as frentes de batalha. A revolução foi rápida. Para Mogi das Cruzes, também triste: quatro dos seus voluntários morreram: Diogo Oliver, Jair Fontes de Godoy, um menino de 16 anos chamado José Antônio Benedito e o jovem filho, de uma das mais respeitadas e antigas famílias da cidade, Fernando Pinheiro Franco. A morte deles comoveu toda a população local, em especial a de Fernando Pinheiro Franco, cujo nome acabou sendo dado, em seguida, à nossa principal avenida.

Testemunhas do sepultamento de Fernando dizem que só outro enterro havido em Mogi despertou tamanha comoção e movimentou tanta gente: o do médico Deodato Wertheimer, morto em 15 de agosto de 1935 e cujo enterro foi acompanhado, a pé, por milhares de pessoas. Quando o caixão estava chegando ao Cemitério de São Salvador ainda havia gente no Largo do Carmo.

Em 1933, foi fundado o Clube Náutico Mogiano e, no dia 1º de setembro de 1935, inaugurado o Obelisco da Praça Coronel Almeida. Em 1939, com recursos oferecidos pelo mogiano Benedito Sérvulo de Santana, ficou pronto o novo prédio do Instituto Dona Placidina, construído na Rua Senador Dantas, em área onde havia, desde o século XIX, o solar da família de Manuel de Mello Freire (pai da interdita Yayá de Mello Freire). Nesse mesmo ano, foi fundado o Liceu Braz Cubas, berço do atual Centro Universitário Braz Cubas.

Em 1939, o então prefeito Renato Granadeiro Guimarães deu início à mais profunda intervenção urbana já havida até então: desapropriou 16 imóveis próximos a atual Praça Firmina Santana, assegurando o alargamento da Avenida Pinheiro Franco. Finalmente, no último ano da década (1940), o então arcebispo de São Paulo, Dom José Gaspar de Afonseca e Silva, fez uma visita pastoral a Mogi das Cruzes: ficou por aqui três dias, hospedado na casa de Paulo Bourroul, no Largo do Carmo. A casa existe até hoje: abriga o centro cultural conhecido como Casarão do Carmo.

(Fotos disponíveis em http://www.igc.sp.gov.br/produtos/galeria_aerofotos.aspx)

Carta a um amigo

Juiz paga pensão

Meu caro leitor

Contemporâneo de faculdade, este amigo de quem lhe falo veio da Alta Araraquarense estudar em Mogi. Ficamos companheiros e convivemos durante os cinco anos do curso. Encontramo-nos algumas vezes depois. Poucas. Tínhamos seguido rumos diferentes: ele ingressou na Magistratura, fez-se juiz de Direito e está agora aposentado. Comentamos, dia destes, num reencontro, nossas diferenças. Mas o melhor mesmo foi a sua lembrança em torno de uma audiência no fórum da pequena cidade do Interior, onde ingressara para sua estreia na profissão:

Eu tinha 26 anos e estava com muita vontade de trabalhar. Queria colocar, em prática, o aprendizado de cinco anos de faculdade e três de estudos para o concurso da Magistratura. Cheguei à cidade e fui recebido com honras por todos. Pelo prefeito e pelo delegado; o vigário pediu desculpas pela ausência do bispo, que ficou na sede da diocese, 80 quilômetros de distância. O delegado disse que estava à minha disposição e contou-me que a cidade era calma – há três anos não havia um homicídio.

No fórum, o trabalho não era muito. Desde essa época estranho essa rotina: o juiz, em início de carreira, doido para trabalhar, vai para uma comarca como aquela de minha iniciação. Quando está em fim de carreira, cansado, colocam-no em uma vara próximo à Capital, de grande movimento. E trabalho. Mas, lá na minha pequena comarca, certa tarde apareceu-me um casal em processo de separação. Não havia como obter um acordo. O marido era um agricultor de pouca cultura e alguma posse. Tinha sucesso nas suas terras. A mulher era professora, mas nunca pode trabalhar por imposição do marido. Sem acordo possível, decidi pelo bom senso e disse ao final da audiência:

– Está bem, já que não há acordo possível, eu vou dar à senhora uma pensão de cinco salários mínimos e garantir-lhe o seguro saúde e a escola dos filhos. Eu não havia acabado de falar e o agricultor, marido teimoso, interrompeu-me, apesar dos cutucões que lhe dava seu advogado:

– Tudo bem doutor, eu lhe agradeço e concordo com tudo. Se puder, também ajudo de alguma forma.

O marido – completou meu amigo – imaginava que eu, juiz, ao decidir, estava também assumindo os encargos que eram dele”.

Abraços do

Chico

GENTE DE MOGI

Percy Benedicto de Siqueira. (Foto: Arquivo pessoal)

5PROFESSOR – Nasceu em Guararema e fez muito, ainda jovem, antes de descobrir sua vocação. Foi aprendiz de farmácia e publicitário até se encontrar como professor. Graduado na primeira turma de Letras da Universidade de Mogi das Cruzes, atuou em colégios estaduais e particulares até fundar, com Dalmo Faria de Almeida, em 1967, o Colégio Santa Mônica. Ficou ali até 1990, quando criou o Colégio Santo Agostinho, depois São Tomás de Aquino. Percy Benedicto de Siqueira morreu em novembro de 2008.

O melhor de Mogi

No próximo ano, a 1ª turma da Faculdade de Direito Braz Cubas celebra seu Jubileu de Ouro (50 anos de formatura). Dentre seus professores estiveram Paulo Marcondes de Carvalho, Walter de Abreu Garcez e Wilmes Roberto Gonçalves Teixeira. Eram tempos áureos.

O pior de Mogi

Biroscas que vendem bebidas para menor de idade. Só abrem à noite, não têm espaço para consumo e são separadas da rua por grades. Sobrevivem pela omissão dos agentes públicos. A pouca distância de muitos órgãos públicos.

Ser mogiano é….

Ser mogiano é… correr hoje para aproveitar o último dia de quermesse na Festa do Divino Espírito Santo.

www.chicoornellas.com.br