ARTIGO

Às mães

Jose Arraes

A pandemia nos retraiu e ainda bem que estamos em casa. Por incrível coincidência, neste ano, vamos ficar ainda cuidadosamente caseiros amanhã, dia dedicado às mães.

Muito mais perto dos 80 que dos 70 e egresso de família basicamente ruralista, como dói rever os anos que, somados ao tempo que estudei em colégio interno, longe de casa, não adquiri termo desta comemoração.

Eu me perjuro há muito tempo por esse meu desleixo imperdoável. Continuamente morando distante, sempre tive um bilhete aéreo no bolso para marcá-lo na emergência, e até nisto fui infeliz, pois, quando do mal súbito acamado definitivo de minha mãe, no Crato, no Ceará, e eu em Brasília, no DF, não consegui chegar a tempo de vê-la viva. Tive que me baldear em Fortaleza e somente à noite cheguei pra vê-la.

Depois, disseram, que me chamou insistentemente, não queria ir-se sem me ver, mas não aguentou, infelizmente.

Desta data em diante, me arrependi de tudo que tinha feito até então, tudo, desde as dedicações por ascensões profissionais, as buscas pelo progresso, as agruras do estudo e a procura da independência.

A sensação de que nada tinha valido me açoitou por muito temo e trouxe-me a rebeldia ao capitalismo que me impôs ir atrás do ter, do aparecer, do aspirar conquistas antes que pudesse ser filho, nada mais que um filho.

Nada valeu e trocaria tudo, aquela época e até hoje, para ter podido estar com ela naqueles últimos momentos que me chamava.

Hoje regozijo minha esposa, a minha filha que é mãe, as minhas amigas que a maternidade privilegiou e as mulheres por terem útero como órgão instalador da vida humana, e do ser, mais que ninguém dentre os humanos, saber e praticar, o significado da palavra amor, dedicação, carinho e descendência.

Neste dia especial, mãe e mães, agora, hoje e sempre, saibam, somos seus eternos filhos dependentes.

A benção àquela que me deu a vida, que está no céu, com certeza.

José Arraes é presidente do Instituto Cultural do Alto Tietê (Icati)


Deixe seu comentário