PERFIL

As muitas faces da rua Presidente Campos Salles

tradição A tradicional via mogiana é marcada pela diversificação de seu comércio e serviços. (Foto: Eisner Soares)
A tradicional via mogiana é marcada pela diversificação de seu comércio e serviços. (Foto: Eisner Soares)

As características da rua Presidente Campos Salles, importante corredor de tráfego da cidade, vêm se modificando nos últimos anos. O avanço do comércio e serviços no centro expandido de Mogi atraiu um grande número de clínicas, consultórios e empresas de medicina privada, interessadas nos antigos casarões que eram ocupados por famílias de classe média alta do município.

O aspecto da via é bem diferenciado ao longo do seu percurso. Começa em uma área nobre, no Alto Ipiranga, confluência com a Avenida Henrique Eroles, e termina em um bairro proletário, a Vila Industrial. É um corredor de ônibus, usado também por motoristas que querem se desviar do centro. Ela corta a Ipiranga, as avenidas Voluntário Pinheiro Franco e Adhemar de Barros, passa pela linha férrea e segue até a rua Casarejos, com acesso ao Mogilar e à rodovia Mogi-Dutra.

PROBLEMA Trânsito se complica toda a vez que a cancela é fechada para a passagem dos trens. (Foto: Eisner Soares)

Segundo o site MapaEmpresas, o capital social total das 52 empresas instaladas naquele endereço ultrapassa R$ 13,6 milhões. O trecho que passa pelo Jardim Santista é onde estão instaladas as clinicas e empresas que prestam serviços de saúde. Os imóveis predominantemente comerciais se concentram mais próximos ao centro. Em sua outra extremidade está instalada uma grande fábrica de papel, a Multiverde, que ocupa o espaço da antiga Papel Simão.

Ao longo da sua extensão existem também escolas, papelarias, concessionárias, agência bancária, estacionamentos, posto de combustível, imobiliária, contabilidade, academias, supermercado, padaria, casa de diversão, lanchonetes, restaurantes, imobiliárias e outros serviços. Também é endereço da Igreja Messiânica, sede do Bunkyo, da Casa da Benção e do Sindicato dos Comerciários.

O espaço mais valorizado é o trecho próximo ao centro, segundo Cláudio Iwahashi, gerente de vendas da Domus, imobiliária instalada na Campos Salles há 20 anos. Ele disse que o metro quadrado próximo à Avenida Pinheiro Franco chega a R$ 3 mil, dependendo do terreno e características do imóvel. Na parte do Alto Ipiranga a média é de R$ 2,5 mil o m². Já na Vila Industrial, o valor médio é R$ 1,5 mil o m².

Tudo indica que os poucos imóveis residenciais que ainda resistem no trecho que passa pelo Jardim Santista passarão a ser ocupados por novas clínicas. Muitos deles já estão com placas de “vende-se” e “aluga-se”. Segundo Iwahashi, isso vem acontecendo porque esses moradores se sentem isolados. “Durante o dia, o movimento de carros e de pessoas é grande, mas como são poucos os imóveis residenciais, à noite o bairro fica deserto”, explica,

BUNKYO Rua abriga associação cultural fundada por japoneses. (Foto: Eisner Soares)

O primeiro trecho da via é arborizado e cerca de 90% dos imóveis são constituídos por residências. Há também alguns edifícios de apartamentos e conjuntos residenciais. Moradora há 50 anos na primeira travessa da Campos Salles, ao lado da Praça Richer Romano Neto, a cabeleireira aposentada Aparecida Graça dos Santos conta que acompanhou a chegada do progresso. Ela disse que houve muitas mudanças nos últimos anos, com os condomínios e o crescimento do comércio nas proximidades da Henrique Eroles.

“Aumentou o trânsito e também o barulho e o movimento nas ruas. Hoje as pessoas já não colocam mais as cadeiras em frente às suas casas para conversar no final da tarde, como acontecia antes. Também não conheço mais muitos dos meus vizinhos, mas ainda considero aqui uma área nobre, um lugar tranquilo e seguro, perto do centro. Nem penso em me mudar”, diz ela.

No trecho abaixo da rua Ipiranga, o tráfego de veículos é intenso. “A situação é muito complicada em horários de pico, especialmente por causa das escolas que estão instaladas nas proximidades”, observa a funcionária de uma papelaria, Vera Lucia Teles. Mas, mesmo assim, ela garante que nunca teve problemas com segurança e nem acidentes.

Um dos locais mais perigosos é a equina com a Voluntário. Edson Roberto da Silva, funcionário de um posto de combustível instalado no local, conta que os acidentes acontecem com frequência, à noite, quando muitos motoristas avançam o sinal vermelho. “Houve aumento também no congestionamento nesse trecho por causa da passagem de nível. Cada vez que fecha a cancela, o trânsito fica parado por vários quarteirões”, observa. Ele acha que a rua já não comporta mais o volume de tráfego e defende a construção de um viaduto para fugir da cancela.

O aspecto muda muito na parte abaixo da linha, onde estão instaladas lojas de autopeças, mecânicos, restaurantes, lanchonetes, açougues, distribuidoras de água e gás, salões de cabeleireiro, transportadora, vidraçaria, fábricas, entre outros serviços. O aposentado Antônio Alves Ribeiro, de 68 anos, morador naquela região desde que tinha 12 anos, lembra que quando se mudou, o local tinha característica de área rural, com muitas chácaras.

LEMBRANÇAS Antonio Alves Ribeiro, 68 anos, vive na Campos Salles desde os 12 e espera obras. (Foto: Eisner Soares)

“Acompanhei todo o crescimento e a chegada do progresso nessa região. Mas, acho que a prefeitura precisa dar uma atenção especial aos moradores, que não contam nem mesmo com uma passarela para pedestres na passagem de nível. O certo seria a construção de um viaduto para melhorar o trânsito e o aspecto do bairro”, reforça.

Igreja Messiânica recebe 3,6 mil frequentadores

Fé Igreja Messiânica recebe fiéis que vão até lá em busca do “Johrei”, a luz purificadora de Deus. (Foto: Eisner Soares)

Um dos destaques da rua Presidente Campos Salles é a igreja Messiânica Mundial do Brasil, ponto bastante movimentado da via, que recebe diariamente dezenas de adeptos da religião. Além dos vários cultos que acontecem diariamente, o local também oferece cursos, desenvolve atividades culturais e atende às pessoas que precisam de ajuda e aconselhamento espiritual.

A Messiânica, fundada em Mogi das Cruzes por um grupo de japoneses, completa 60 anos de atividades na cidade no próximo dia 15 de setembro, mas a sua sede está instalada na Campos Salles desde 2011. Até essa data havia três unidades mogianas da igreja, que funcionavam na Vila Vitória, Vila Oliveira e Vila Industrial até que os líderes decidiram concentrar tudo da Campos Salles, em um endereço bem localizado, de fácil acesso, que se transformou na sede do Alto Tietê.

De acordo com o ministro Mattiuzzo, atualmente a igreja é frequentada por mais de 3,6 mil pessoas. Os cultos são realizados quatro vezes por dia, e uma vez por mês acontece um grande encontro “para a celebração de agradecimento por todas as graças concedidas pelo Divino”. O espaço permanece aberto todos os dias para qualquer um que queira receber “Johrei”, uma imposição de mãos que, segundo acreditam seus praticantes, é capaz de levar a luz purificadora de Deus às pessoas que o recebem e o ministram.

A religião também exalta a arte, o belo e a agricultura natural. A arte é vista como algo que eleva o espírito, contribuindo para a purificação e o bem estar espiritual, aliados a alimentação natural, que envolve a produção sem o uso de agrotóxicos nem adubos. O espaço oferece ainda cursos como ikebana e mantém um coral que ensaia semanalmente.

Segundo o ministro Mattiuzzo, a proximidade da igreja com as clínicas e consultórios tem um lado positivo, porque muitas vezes a pessoa que está enfrentando um problema de saúde faz um exame e recebe notícia desagradável acaba entrando na igreja em busca de conforto e aconselhamento.

“Temos o caso de uma jovem que precisava fazer um exame, mas como não encontrou vaga para estacionar, pediu para usar o nosso espaço. Foi assim que ela ficou sabendo sobre a prática “Johrei”. Gostou tanto que a partir daí começou a frequentar a nossa igreja e hoje diz que encontrou o caminho para a vida”, conta.

Denominação lembra um ex-presidente brasileiro

(Foto: reprodução)

Manuel Ferraz de Campos Salles, que empresta seu nome a uma da mais tradicionais ruas de Mogi das Cruzes, foi um político que marcou a história do País. Nasceu em Campinas, interior do Estado, em 1841, e cursou a Faculdade de Direito de São Paulo no ano de 1863. Logo depois de formado se filiou ao Partido Liberal e algum tempo depois decidiu criar o Partido Republicano Paulista (PRP).

Considerado um republicano histórico, conseguiu projeção para assumir em 1867 o cargo de deputado provincial, vereador e deputado geral. Quando foi proclamada a República, Campos Salles foi nomeado como ministro da Justiça por Deodoro da Fonseca. Em 1896, se elegeu presidente do estado de São Paulo. Renunciou um ano depois da posse, com o objetivo de se candidatar à presidência da República e foi eleito em 1898.

Por ter herdado uma séria crise econômica, com altos índices de inflação, uma de suas primeiras medidas foi a renegociação da dívida externa com credores ingleses. Foi o primeiro presidente a defender abertamente a privatização. Ao final conseguiu equilibrar as contas públicas. Em seu mandato foi solucionado o litígio sobre a delimitação da fronteira entre o Brasil e a França, com a demarcação da fronteira entre e estado do Amapá e a Guiana Francesa. Morreu em Santos, em junho de 1913.