PASSOU POR MOGI

As relíquias preservadas de Chang Dai-chien

Chang Dai-chien viveu em Mogi. (Foto: Arquivo)
AMIZADE amigo pessoal de Chang, o médico mogiano Nobolo Mori guarda imagens que lhe foram presenteadas pelo grande artista. (Foto: arquivo)

Em todo o Brasil, apenas dois museus têm expostos quadros do chinês Chang Dai-chien, sendo eles a Pinacoteca Ruben Berta, em Porto Alegre, e o Museu de Arte Contemporânea (MAC), em Olinda. A pouca quantidade não se repete, entretanto, em uma casa de Mogi das Cruzes, mais especificamente na residência do médico Nobolo Mori, 95, que não sabe dizer ao certo quantos exemplares têm guardados.

As obras foram recebidos em uma viagem para a China, onde Mori foi ao encontro do paciente e amigo. Por anos, o doutor foi o responsável pela saúde do pintor que é um dos mais valorizados no mundo da arte. Chang morou por cerca de duas décadas na cidade, chegando por aqui em 1954. Mori é nascido em Birigui, no Noroeste paulista, e chegou a Mogi um pouco antes, em 1947.

“Ele estava na China e me convidou para ir também. Eu fui sem pensar duas vezes. Chegando lá, ele me deu os quadros, que são muitos, mais de dez”, relembra o médico. Como eram muitas peças, Mori conta que não teria a permissão para embarcá-las no avião. “Foi um problema para eu trazer, mas sabe como é, né? Eu fiz amizade com um chefão do aeroporto, que acabou me dando a licença que eu precisava”, conta, aos risos.

Hoje, as pinturas de Chang alcançaram preços astronômicos. É o caso do quadro “Paisagem Suíça”, que há décadas estava sem identificação na reserva técnica do MAC, onde hoje está exposto, e que foi avaliado em R$ 3 milhões. Quando os presentes foram recebidos por Mori, cerca de 50 anos atrás, o valor no mercado não era o mesmo. Ainda assim, vender é uma coisa que não passa pela cabeça dele, até mesmo porque todos levam uma dedicatória para o médico.

“Mesmo que eu pudesse vender, seria impossível, porque o valor sentimental é muito maior. Ele era professor e artista, então era uma pessoa com a mente elevada, mais próxima de Deus. Eu cuidava da saúde dele, mas, mais do que isso, nos tornamos grandes amigos, convivíamos muito, íamos na casa um do outro”, frisa Mori.

Ele, porém, não foi a único a ter a oportunidade de conviver com o pintor. Nascido em Taiwan, Silvio Ho Shiao Hu, 68, residiu com a família no Km 18 da estrada de Taiaçupeba, cerca de meio quilômetro antes do sítio de Chang, batizado como Jardim das Oito Virtudes. Ele chegou a ganhar um exemplar, mas em um momento de necessidades financeiras o vendeu. Hoje, ele conta ainda com uma caligrafia e o primeiro quadro que o chinês presenteou sua família.

“Eu recebi só um quadro, porque morava em São Paulo e pouco falava com o pintor. Eu tinha sete anos quando a família dele começou a construir a casa na Chácara Oito Virtudes. E desde então, até quando fui fazer faculdade em São Paulo, convivi com os filhos e netos do Chang, diariamente, jogando bola todos os dias, até ficar escuro e sem poder ver a bola. O meu relacionamento era mais com os familiares do pintor”, explica Silvio. O irmão dele ainda tem muitas peças, já que morou durante a faculdade e depois de formado com um dos filhos de Chang.

Barbas brancas, cajado e macaco
Com uma grande barba branca, um cajado em mãos e um macaco da espécie gibão nos ombros. Era sim que o chinês Chang Dai-chien andava pelas ruas de Mogi das Cruzes durante o período em que viveu por aqui. Por muitas vezes reconhecido na cidade, o pintor ainda não recebe a notoriedade merecida em caráter nacional. Já nos países orientais, onde tem fama, é conhecido como o “Picasso da China”.

O apelido não é à toa. Apesar da morte em 1973, Pablo Picasso não deixa de estar na mídia. E, na maioria das vezes, pelos preços que suas obras são vendidas, com, por exemplo, uma pintura avaliada em US$ 113,3 milhões, o equivalente a quase R$ 500 milhões. Chang, entretanto, não está distante desses números e, em 2011, suas obras leiloadas o fizeram o artista mais valorizado do mundo, ficando à frente do espanhol e também de Andy Warhol.

Os três ainda dividem o pódio, mas com alternâncias nas posições. Ainda assim, apenas duas obras originais do chinês podem ser vistas expostas no País onde morou durante o que talvez tenha sido o período mais importante de sua carreira internacional.

Pintor, calígrafo e poeta, Chang deixou a China continental em 1949, durante a Revolução Comunista. Naquela época, refugiou-se em Hong Kong e, em 1952, passou a morar na Argentina. Dois anos depois, chegou a Mogi, onde ficou por quase duas décadas.

Na cidade, residiu por pouco tempo, em uma casa na Rua Princesa Isabel de Bragança, e depois ficou por alguns anos em um casarão da Rua Santana. A próxima mudança foi para a sua última e mais importante morada em Mogi: uma propriedade na Capela do Ribeirão, antigo nome de Taiaçupeba.

Junto com a família, construiu por lá o que ficou conhecido como Jardim das Oito Virtudes, que, além do jardim em questão, tinha lagos, pontes e esculturas naturais. No local, vivia com a esposa, Hsu Wen-po, e com sete dos 17 filhos que teve, além de funcionários, discípulos e agregados.

Chang nasceu em em 10 de maio de 1899, em Neijiang, na China. Durante seus últimos momentos no Brasil, mais precisamente em 1968, o pintor começou a apresentar problemas de saúde, como catarata, diabetes e problemas cardíacos. A família passou, então, a insistir para que ele de mudasse para osEstados Unidos. Inicialmente, ele não gostou da ideia mas, dois anos depois, resolve aceitar. A mudança na opinião de Chang se dá porque ele descobre que uma barragem inundaria seu sítio.

O acontecimento não era uma falsa previsão. O alagamento ocorrido na década de 80 encobriu a propriedade do artista, que em 2014, pela primeira vez, voltou a ser vista, após um longo período de estiagem.

Pinacoteca vai dedicar espaço ao mestre

Se hoje as obras do chinês Chang Dai-chien podem ser vistas em dois estados do Brasil, muito se deve ao empresário Assis Chateaubriand. Foi ele quem doou a pintura “Passeio ao Longo do Rio Apreciando as Flores de Ameixa” ao acervo da Pinacoteca Ruben Berta, em Porto Alegre, assim como a “Paisagem Suíça” ao Museu de Arte Contemporânea (MAC), em Olinda. Em Mogi das Cruzes, mais da história do pintor deverá ser contada em breve.

Está prevista para a Pinacoteca, que funciona no número 993 da Rua Coronel Souza Franco, uma intervenção de R$ 85 mil. Além de uma sala com cubos que mostrarão a história de diversos artistas importantes que já passaram pela cidade, onde o chinês será citado, Chang ganhará um espaço todo dedicado a ele.

No local, haverá réplicas de suas obras, além de artefatos remanescentes de sua casa na cidade, conhecida como Jardim das Oito Virtudes, e, até mesmo, materiais remanescentes do imóvel, tendo, por exemplo, parte dos azulejos da cozinha que puderam ser recuperados.

A obra original, que está em Olinda, foi avaliado pela casa de leilões Christie’s, de Hong Kong, em US$ 800 mil, o equivalente a cerca de R$ 3 milhões. Muito provavelmente, a paisagem foi pintada em Mogi, em fevereiro de 1996. O quadro tem 1 m x 1,32 m e, inicialmente, foi doado pelo pintor ao Museu de Arte de São Paulo (MASP). De lá, ele foi repassado a Chateaubriand, falecido em 1968, que fez a doação ao MAC.


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