CIRCUITO

Ator Marco Guerra apresenta atividades e jogos para escapar do tédio durante a quarentena

Marco Guerra. (Foto: arquivo pessoal)
Marco Guerra. (Foto: arquivo pessoal)

Marco Guerra é ator, agitador cultural, professor, arte educador, defensor e estudioso da figura do palhaço. Nascido em Santa Catarina, ele foi criado em solo mogiano e atualmente está isolado num sítio, ao lado da companheira. A O Diário ele mostrou um olhar positivo sobre este tempo de quarentena, em função da pandemia do novo coronavírus: a ótica proporcionada pela arte. Por isso, explica, nesta entrevista, a importância de trabalhar conceitos lúdicos agora, quando as crianças e adolescentes estão em casa, e também dá sugestões de brincadeiras, atividades e jogos para que a família não apenas “passe o tempo” com qualidade, mas promova a união e o “encontro intergeracional”.

O que é arte educação e qual o papel dela nesse tempo?

Arte educação é o ensino de artes como complemento da formação escolar das crianças e adolescentes. Nas escolas os alunos e alunas tem pouco contato com a arte. Mas as experiências mostram que elas, em geral, contribuem sobremaneira para a formação cidadã. Nesse sentido, o ensino formal trabalha na dimensão do “aprender a aprender”, enquanto as artes trabalham na dimensão do “aprender a ser” e “aprender a conviver”. Esse é o papel da arte educação nesse tempo de pandemia, mas também tempo de bullying, de intolerância, de desentendimentos vários. A arte tem urgência em nossas vidas.

Dito isso, o que fazer para entreter as crianças em casa durante a quarentena?

Pensando primeiramente que a quarentena pode ultrapassar quarenta dias, temos que evitar a rotina, desenvolvendo uma planilha de atividades diárias, porém, sentando primeiro com os filhos e filhas e esclarecendo a gravidade da situação para que eles entendam a necessidade e a realidade de ficar em isolamento. Aí sim partimos para criação da planilha também com a ajuda das crianças e/ou adolescentes, perguntando o que eles e elas gostariam de fazer em cada horário. As interações devem partir sempre de rodas de conversas, tendo em mente que brincadeiras e jogos são ótimos para passar o tempo e também excelentes para promover o encontro intergeracional.

Que tipos de interações, brincadeiras e atividades são válidas?

Eu conheço dezenas de jogos de muitos países e épocas passadas, e existem centenas de brincadeiras e jogos legais. Vou citar aqui dois interessantes, que todos os pais e mães já jogaram na infância, mas talvez seus filhos e filhas não conheçam: “stop” e “palitinhos”. No velho jogo de “stop” todos podem participar: num folha em branco deitada, escrevem um ao lado do outro os tópicos que querem utilizar, como “nome próprio”, “artista”, “marca\modelo de carro”, “nome de filme”, “nome de livro”, etc; sorteiam uma letra do alfabeto e escrevem todas essas coisas com a letra sorteada. Quem acabar primeiro grita “stop”, e nessa hora todos param e conferem o que cada um acertou e vão pontuando cada acerto. Ganha quem ao final fizer mais pontos. Já o “palitinho” é um jogo de matemática indireta, em que cada participante recebe três palitos de fósforo ou de dente e esconde as mãos nas costas, escolhendo uma quantidade de zero a três e depois coloca a mão com os palitos pra frente. Quem adivinhar a quantidade de palitos retira um palito de seus três, e ganha quem tirar os três palitos primeiro.

E no caso dos adolescentes? O que você recomenda?

Adolescentes costumam ficar muito calmos com atividades manuais, como costura e máscaras. Explico: jovens adoram suas roupas surradas e teimam em se desfazer delas, então aprender a costurar a mão é ótimo para aprenderem a customizar as peças. Os pais e mães encontram fácil na internet tutoriais de como costurar a mão, mas é importante os responsáveis aprenderem primeiro sem os filhos verem, para depois apresentarem a tarefa como se já soubessem, o que cria um interesse bem maior. As máscaras também são bem legais para trabalhar a autoexpressão, algo que os adolescentes adoram e necessitam. Vão precisar de atadura gessada de 10 centímetros (disponível em lojas de produtos hospitalares), cola branca, pincéis e papel kraft. Corta-se os pedaços de ataduras a partir das medidas do rosto para o qual será feita a máscara; deita-se a pessoa, com uma bacia com um pouco de água no fundo; mergulha-se cada pedaço de atadura na água por três segundos, sem deixar de segurar; retira-se, deixa-se escorrer o excesso de água e vai aplicando no rosto; em três minutos a atadura seca, então retira-se do rosto, deixa secar e então começa-se o empapelamento por dentro e por fora.

Qual a importância de se trabalhar conceitos lúdicos agora, quando os filhos estão em casa?

É de extrema importância trabalhar conceitos lúdicos com os filhos, afinal o jogo (ludo) é um arquétipo, ou seja, vive no inconsciente coletivo de todos os seres humanos. Há um livro de um sociólogo/antropólogo holandês (Johan Huizinga) chamado ‘Homo Ludens’ que diz que o ser humano jogou antes de falar ou escrever, porque para se comunicar imitava as coisas, ou seja, usava o mimetismo, uma das quatro categorias dos jogos. Assim, jogar com os filhos e filhas é também educá-los para os jogos, afinal estes também podem ser muito prejudiciais, e existem centenas de histórias de pessoas que perderam tudo apostando em jogos de azar, mesmo pela internet.

Esta pode ser uma oportunidade para aproveitar o tempo em família?

A arte é o melhor jeito de aproveitar o tempo em família, seja assistindo a um bom filme, lendo bons livros em roda de leitura, promovendo um sarau de poesias de grandes autores ou de poesias próprias. Vou dar uma dica muito legal para fazer com adolescentes e que os pais e mães (e alguns jovens também) acham que só crianças gostam: contar histórias. Sugiro que os pais garimpem na internet ‘Contos Brasileiros’ de Silvio Romero. Sou herdeiro dessa tradição e conto mais de cinquenta dessas histórias, todas ouvidas da boca da minha mãe quando eu ainda era criança. Mas atenção: os pais devem ler antes e se apropriar da história. Nada de contar lendo no livro. É preciso contar com emoção, olhando nos olhos.

É possível aplicar a figura do palhaço nestes momentos?

O estudo e a prática do palhaço são coisas bem complexas, que levam anos para dominar. Todavia, brincar de palhaço não, e é simples e delicioso. Entrar na esfera do jogo, produzir uma peruca com lã, fazer um nariz com um pedaço de cartela de ovos, pintar o rosto com as maquiagens disponíveis no estojo da mãe, colocar as roupas grandes do pai ou do avô, os sapatos grandes, enfim, está pronto, temos palhaços. A brincadeira pode esticar e criar um circo inteiro, com malabaristas, equilibristas, mágicos. Sugiro alguns filmes de palhaços, como ‘Patch Adams, O Amor É Contagioso’, ‘O Palhaço’ e ‘Chocolat’, além de alguns de circo, como ‘Saltimbancos Trapalhões’, ‘O Circo’ (de Charles Chaplin) e ‘As Sete Faces Do Dr. Lao’.

A imaginação é então uma grande aliada para combater o tédio?

Isso mesmo. A imaginação, a inspiração e a intuição são algumas das principais prerrogativas das artes. Antes de sermos artistas devemos ser consumidores/fruidores das artes. Vou dizer qual arte é a mais legal para viajar, sumir, estar em diversos lugares e tempos, sentir sensações diversas, ver paisagens magníficas: a literatura. Ler é atividade mais prazerosa que eu conheço para se fazer sozinho, afinal quem lê realmente viaja. Quando vim para o meu isolamento esqueci muitas coisas, mas não esqueci de trazer livros e mais livros. Aqui vão algumas dicas para desenvolver o gosto pela leitura: tem que ser homeopaticamente, ou seja, ler pouco, coisas pequenas, como contos ou histórias em quadrinhos. Até os dezoito anos eu também detestava ler, e fui desenvolvendo o gosto devagar. Para as crianças sugiro ‘As Reinações De Narizinho’, de Monteiro Lobato, e para os adolescentes, ‘1933 Foi Um Ano Ruim’, de John Fante, um clássico da literatura americana, que fala justamente sobre juventude e privação de liberdade.


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