PROBLEMA

Atual momento afeta a prevenção de doenças em humanos e animais

ALERTA Jefferson Leite diz que isolamento social influencia nas políticas públicas de saúde. (Foto: arquivo)

Os exames necessários para se identificar a causa da morte de um macaco encontrado em uma estrada rural de Mogi das Cruzes, em maio, tiveram os resultados atrasados por causa do represamento dos protocolos de prevenção a doenças, como a febre amarela e a dengue.

A paralisação da agenda de prevenção de patologias que estão na mesma gênese da atual pandemia, a interação entre o homem e os animais silvestres, é uma das preocupações que estão no radar do veterinário Jefferson Leite, do Centro de Controle de Zoonoses de Mogi das Cruzes.

Ações como o acompanhamento epidemiológico de doenças foram impactadas, como a rotina de consultas e vacinações de todo o país. A necessidade de se cumprir o isolamento social, dos servidores e da população, influencia nas políticas públicas de saúde.

PREVENÇÃO Demandas regionais, como a melhoria da estrutura de atendimento aos animais silvestres, a exemplo do ratão do banhado, também foram prejudicadas. (Foto: arquivo)

Esse, na opinião do veterinário, será um dos reflexos da pandemia, sentidos nos próximos meses, quando, por exemplo, surgirem os casos de dengue.

As lições do enfrentamento à Covid-19, a possibilidade do surgimento de novas doenças, e a necessária atenção a demandas regionais, como a melhoria da estrutura de atendimento aos animais silvestres vítimas de acidentes na região urbana, são destacadas pelo veterinário na seguinte entrevista:

Quais são as diferenças da Covid para outras zoonoses provocadas pelo contato entre o homem e os animais?

Uma grande diferença é o poder de contágio. Temos outras doenças graves, que enfrentamos, como o ebola, que também é uma zoonose, transmitida ao homem por um morcego. Mas ela tem uma letalidade muito grande, o que faz com que a disseminação seja um pouco menor, porque as populações infectadas morrem rapidamente.

Já o novo coronavírus, apesar de ter uma letalidade muito menor, tem um alto poder de disseminação, uma média de 2,75 pessoas infectadas a cada um paciente positivo. Cepas mais leves são menos letais e tendem a contaminar mais pessoas. E a dificuldade em se controlar esses casos se dá porque quando mais pessoas morrem, as chances de se isolar os pacientes infectados e bloquear a disseminação, são maiores. Diferente do que acontece agora.

A pandemia trouxe ao centro de todos os debates as doenças causadas pela convivência entre homens e animais. Quais são as dificuldades em se controlar essas doenças, especialmente quando os animais estão ainda mas na zona urbana, por falta de espaço nas matas?

Nós estamos sentindo isso agora. De um lado, é preciso salvar as pessoas, que estão em um número menor e, de outro, a maioria precisa tocar a vida. O problema é não ter as condições de se promover a prevenção de maneira rápida, como a quarentena, exigida para ‘segurar’ a propagação. E trabalhamos contra o tempo porque o planejamento da saúde pública não é rápido. E tivemos ainda as dificuldades com a desinformação.

Sobre o tempo para a prevenção, gostaria que o senhor falasse sobre a dengue, que o país tenta controlar há mais de duas décadas. As dificuldades com a dengue dizem muito sobre os problemas vividos agora, como o não cumprimento durante a quarentena, quando ela foi mais rígida, em março?

Sim, nós temos ainda uma cultura a ser modificada, como o fim dos criadouros dentro de casa, a melhoria do combate em todas as cidades. Em Mogi, nós temos um controle muito diferenciado de outros municípios. E enquanto essa política não atender todo o país, cidades em melhor situação também vão ter pacientes com a dengue, porque as pessoas transitam de um lado para outro.

Sobre isso, como está o combate à dengue durante a pandemia?

Não sabemos, porque os recursos tiveram de ser dirigidos para a prevenção à Covid. Os próximos meses, poderemos ter casos não apenas de dengue, mas de outras doenças afetadas pela suspensão dos programas preventivos.

E a febre amarela? É um risco?

Sim, porque apesar do monitoramento, tivemos um surto de febre amarela entre 2016 e 2017, e temos as condições para que isso volte a acontecer. Há alguns dias, encontramos um macaco morto em Mogi. É preciso sempre acompanhar esses casos porque os macacos não transmitem o vírus, eles são infectados e morrem pelo vírus, nos dando o sinal de alerta sobre a circulação do vírus, que também pode infectar o homem. A vigilância desse tipo de zoonose não pode parar.

Não pode parar e há poucos investimentos nessa área, de uma maneira geral, no país. Não é?

Infelizmente, sim. E com a expansão do uso das áreas silvestres, outros vírus, desconhecidos, como o novo coronavírus, podem surgir não apenas no Brasil, mas em qualquer lugar do mundo. Sobre esse aspecto, a luta de Mogi por um Centro de Triagem de Animais Silvestres, o Cetas, deveria se fortalecer. Testar rápido esses animais atropelados e encontrados na zona urbana é um meio de se prevenir essas zoonoses. É uma antiga luta porque o aumento dos encontros de animais acidentados, ou mesmo procurando caça ou ambiente para viver, na área urbana, cresceu muito nos últimos anos. Temos outros animais, como os morcegos, que podem apresentar a raiva. Todo o conjunto de ações para rastrear doenças é importante.

A pandemia forçará a melhoria das políticas públicas nacionais?

Sim, porque os efeitos negativos na saúde e na economia estão sendo sentidos agora, por todo o mundo. Uma tendência, nessa área, é fortalecer o conceito da Saúde Única, que trata do meio ambiente como um todo e reúne a saúde humana, animal e até da flora e dos alimentos. Tudo está conectado. Se os problemas climáticos, por exemplo, não forem sanados, em breve, teremos dificuldades para alimentar o mundo. Hoje, nós já precisamos de água.

O que é uma zoonose

É uma doença causada pelo contato estabelecido entre o homem e os animais. Os animais são hospedeiros de vírus que, no contato com o homem, se transformam em doenças como a raiva, a febre amarela, e ao que indicam as pesquisas iniciais, a Covid-19.

Esta interação acontece não apenas pela convivência com os animais, mas também pela alimentação. A carne de espécies silvestres, como pacas, pássaros, cobras e outros bichos, faz parte do cardápio de alguns povos.

Para prevenir, mapear e desenvolver políticas de controle, foram criados, na década de 1970, os Centros de Controle de Zoonoses, inicialmente para ações como o desenvolvimento de campanhas de vacinação contra a raiva animal, e a retirada de cães e outras espécies abandonados pelas ruas e que são potenciais hospedeiros de doenças nocivas ao homem.


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