MÚSICA

Banda Hierofante Púrpura aposta em novos conceitos

AUTORAL Tanto no novo disco da Hierofante Púrpura como no álbum solo, Danilo Sevali se mostra aberto a experimentar em canções interpretativas que misturam diferentes gêneros musicais. (Foto: divulgação)
AUTORAL Tanto no novo disco da Hierofante Púrpura como no álbum solo, Danilo Sevali se mostra aberto a experimentar em canções interpretativas que misturam diferentes gêneros musicais. (Foto: divulgação)

Pode soar contraditório definir um disco de música como um “caos organizado”, já que essas palavras se opõem ao empregar sentidos completamente diferentes. Mas o EP ‘Impermanências Lo-Fi’, lançado pela banda Hierofante Púrpura agora, durante a pandemia do novo coronavírus, transforma a contradição em “dualidade”, colocando a ausência e a presença da ordem para “coexistir”. Segundo Danilo Sevali, um dos fundadores do grupo, o termo é, na verdade, uma forma de elogio.

Não é por acaso que esta introdução seja insuficiente para entender o novo trabalho da banda. Às vezes, nem ouvindo as canções é possível detectar exatamente as intenções de Danilo e sua esposa, Helena Duarte. Mas vamos com calma. A primeira coisa a se fazer é entender o que é Lo-Fi, um estilo de produção musical que usa técnicas de gravação de baixa fidelidade, ou seja, low fidelity, em inglês.

Desde o primeiro álbum, em 2006, a banda Hierofante Púrpura usa este tipo de técnica, gravando em fitas cassetes. Isso acontece agora também, mas o ‘Lo-Fi’ passou a ter outro sentido, já que o termo se refere ainda a um estilo de música, com batidas eletrônicas e muito popular na internet entre aqueles que gostam de ouvir um som relaxante enquanto estudam ou trabalham.

Ou seja, em ‘Impermanências’ o rock é deixado de lado, mas não a tradicional psicodelia das letras e melodias. Como Danilo diz, há grande influência do “estilo de produção” já citado, e o disco estabelece um flerte com o gênero, gerando a transgressão da sonoridade da banda em um produto novo e “experimental”.

As seis canções disponíveis no site BandCamp e que logo poderão ser acessadas no Spotify e em outras plataformas digitais são ‘Amigos & Rivais’, ‘O Sonho de Gorlin’, ‘Ladrões de Corpos’, ‘Som das Esferas’, ‘E o Que se Esconde?’ e ‘Cachorrada’, sendo a última o remix de DJ Nandes e MC Góes para uma música já conhecida do público por integrar o ‘Disco Demência’, de 2016.

Sevali é pontual ao tranquilizar a audiência cativa da banda que já rodou o país em apresentações pelo cenário alternativo: “não é exatamente um disco de rock, é mais experimental e explora gêneros que a gente curte muito”.

As referências usuais estão ali: obras da contracultura norte-americana dos anos 1960 e materiais clássicos, como Fiódor Dostoiévski e Machado de Assis. A novidade é a forte presença de elementos sci-fi, perceptíveis ao ouvinte de maneira implícita.

Vozes alteradas e sons bem encaixados sugerem mensagens alienígenas em certas passagens, assim como há uma vibe de terror em outras, especialmente em ‘Ladrões de Corpos’. Há ainda sussuros e outros elementos que contribuem para que a mensagem principal seja passada a quem ouve de maneira atenta: “vivemos uma era de impermanências”.

Impermanência é relativo a algo efêmero, instável, inconstante. De acordo com Danilo, “a vida sempre foi assim, mas num momento tão delicado de se conviver como numa pandemia as coisas ficaram ainda mais” dessa maneira.

Ouvir o álbum é uma experiência distinta a cada pessoa, já que é como se ao dar o play houvesse um redirecionamento para dentro da cabeça de Sevali. Ele justifica isso como o tal “caos”, traduzido no fato de que as faixas são na realidade “demos”, palavra usada pela indústria fonográfica para definir uma gravação demonstrativa.

“Gravamos prévias que tomaram corpo tão legal que decidimos divulgar. Isso é muito interessante pois transforma a relação do artista com o ouvinte em algo muito mais íntimo, devido o frescor da criação”, diz.

Ainda assim, como Sevali percebe, mesmo em meio a esta desordem criativa as músicas foram “organizadas” de modo a apresentarem “progressão e lógica”. O material de divulgação oficial traz ainda outra expressão que se encaixa como uma luva para definir a sonoridade única de ‘Impermanências Lo-Fi’: “som degenerado”.

Assim como a ressignificação proposta em todas as facetas do projeto, o uso da expressão ganha novo sentido. Em vez de sugerir a corrupção e a decadência, quer dizer que há novas classificações, como o “cyber samba” proposto na instrumental ‘O Sonho de Gorlin’.

Para além das misturas sonoras que envolvem viola caipira e piano com batidas eletrônicas, a “degeneração” está na capa do trabalho, uma colagem de Renan Cruz com texturas, cores e padrões que a princípio não combinariam. Tudo é, como Sevali confirma, abstrato. E para entender, a melhor opção é ouvir. E a recomendação é fazer isso com a mente aberta.

Gangue de um homem só

“Quem é mais sentimental nonsense do que eu?”, pergunta Danilo Sevali em uma das faixas de seu outro projeto recente, um disco solo. O “solo” não é brincadeira, já que em ‘D.Selvagi and his OneManGang’ ele se lança como uma monobanda. Compõe, faz a voz e o instrumental, com a ajuda da mulher Helena Duarte, que gravou e mixou o material no estúdio Mestre Felino, instalado na residência do casal, na Vila Oliveira, em Mogi das Cruzes.

Em quatro músicas (‘Sobre um Tremendo Engano’, ‘Sentimental Nonsense’, ‘Marcha Contra o Fascismo’ e ‘Asco do Velho’) Sevali se lança ainda mais à experimentação, permitindo a inclusão de declamações e estéticas inéditas em sua trajetória.

Para os saudosistas, o material pode ser ouvindo em fita cassete, o que, para o artista, é a “realização de um sonho”. Para os mais ligados à internet, dá para consumir tanto nas plataformas digitais como em live shows que ele tem feito, sozinho, ao piano.

Em alusão a impossibilidade de subir em palcos físicos, Sevali diz que, diferente dos projetos da Hierofante Púrpura, que exigem no mínimo três ou quatro pessoas, ‘D. Selvagi’ pode “preencher a lacuna” neste momento.

Talvez isso só seja permitido porque trata-se de uma proposta mais minimalista e até “primitivo” ou “simplificado”. “Sempre curti esse formato de ‘one man band’ e quis ter a minha. Não existe grande propósito a não ser produzir música”, explica ele.

Selvagi já tinha flertado com este tipo de produção em 2017, quando lançou o disco ‘Eu Vi Vários Eus, Eu Vi Vários Eus’. Mas é só agora que ele diz ter amadurecido a ideia para colocá-la no mercado de fato.

Exemplo do amadurecimento é a música ‘Marcha Contra o Fascismo’, fruto das raízes punk do músico, que embora não seja “exatamente o cara que protesta”, decidiu trazer uma mensagem num rock direto e “cru”, que vale para “toda e qualquer atitude que envolva racismo, homofobia, xenofobia e outras formas de preconceito”.

“Não queria cantar sobre isso, mas é papel do artista fazer este tipo de crítica e causar certo incômodo e desconforto”, encerra um Danilo Selvagi que espera, como o nome de sua carreira solo sugere, que as pessoas aflorem seu lado mais “selvagem” ao ouvir as “generosas doses” do “experimentalismo poético, ambientações obscuras e mensagens mágicas vociferadas ou sussurradas” de sua gangue de um homem só.


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