CHICO ORNELLAS

Banho na fonte

FONTE – No tempo em que Mogi preservava suas referências urbanas, a Fonte Luminosa do Largo do Rosário foi um marco. Como a igreja que havia em frente. (Foto: Arquivo Pessoal)
FONTE – No tempo em que Mogi preservava suas referências urbanas, a Fonte Luminosa do Largo do Rosário foi um marco. Como a igreja que havia em frente. (Foto: Arquivo Pessoal)

Quem tem menos de 50 anos, com certeza anos não se lembrará. Quem tem mais de 50, com certeza terá saudade do banho da Fonte Luminosa. Sim, um banho na Fonte Luminosa do Largo do Rosário.

Do Rosário por referência à Igreja de Nossa Senhora do Rosário que, por mais de 200 anos, existiu onde hoje está o Hotel Binder. A igreja foi testemunha da Fonte Luminosa. Com a instalação da Diocese de Mogi das Cruzes, em 1962, a velha Igreja do Rosário foi desativada. O prédio ainda serviu algum tempo como sede do Grupo Escoteiro Ubirajara, cujos integrantes dividiam-se pelas celas do convento anexo, antes ocupadas por freiras. Sua última utilização, no primeiro semestre de 1964, foi para abrigar a campanha “Doe ouro para o bem do Brasil”. Algum tempo depois acabou demolida.

Caiu a igreja pouco depois que se reformasse a praça e nela fosse instalada uma Fonte Luminosa. A fonte era um tanque de cimento, circunferência com um raio de cerca de três metros. O tanque ladrilhado com as bordas revestidas em cerâmica vermelha. No centro do tanque erguia-se uma construção de pouco mais de 2 metros de altura. Parecia um bolo com dois estágios. O primeiro, maior, tinha uma circunferência de 2,5 metros e o segundo e último, menor, pouco mais de 1 metro de circunferência. O trânsito era livre em torno da Fonte Luminosa e, nos primeiros meses de sua existência, era comum as pessoas postarem-se no entorno da praça para ver a evolução das águas que, ao som de músicas clássicas, subiam e desciam alternando as cores. Surgia o amarelo, depois o azul, em seguida o vermelho a iluminar os esguichos de água.

Para as crianças e adolescentes da época, entretanto, o que importava era muito menos o espetáculo noturno das águas e muito, muito mais, a farra de um banho na Fonte Luminosa. Os banhos ocorriam quando uma fanfarra vencesse o concurso do 1º de Setembro, aniversário de Mogi, ou no dia da formatura no ginásio ou colegial. Em qualquer uma destas oportunidades o banho podia ocorrer. Certo, mas certo mesmo que ocorria, era no último dia do Serviço Militar para os recrutas do tiro de guerra e ao final de uma Copa do Mundo, Brasil campeão – como na Copa da Suécia, em 1958.

Não se podia dizer que fossem banhos civilizados, mas ocorriam quase sempre sob o olhar complacente de policiais da Guarda Civil.

A lembrança dos banhos na Fonte Luminosa veio-me há algum tempo, quando soube que um grupo de rapazes resolveu banhar-se, de madrugada, na fonte luminosa que a NGK doou à Cidade e instalou em frente ao prédio da Prefeitura Municipal. Não deve ter tido graça. No Largo do Rosário valia, sobretudo, a integração entre os alegres rapazes e a plateia. Que ria, aplaudia e pedia bis.

CARTA A UM AMIGO
Nas selvas da Colômbia

Meu caro leitor

O Conselho Latino-Americano de Escolas de Jornalismo (Claep na sigla em espanhol) foi instituído, em 1995, pela Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), com sede em Miami, para conceder acreditação internacional a cursos de jornalismo da América Latina. Começou a operar em 2000. Segue, na essência, exemplo norte-americano de mais de 50 anos. Perto de 30 escolas já foram avaliadas e credenciadas pelo Claep em Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, México e Peru. Daqui, apenas a PUC do Rio Grande do Sul, que não se interessou pela renovação. Para avaliar as escolas, há uma equipe mesclada por integrantes dos meios acadêmico e profissional. Eu integro, como único representante brasileiro, o grupo de jornalistas.

Funciona assim: as faculdades, dispostas a passar pelo crivo do Claep, formalizam seu interesse à SIP e apresentam um auto estudo. Este documento deve atender a sete normas, que vão da transparência na administração à qualificação do corpo docente, passando por instalações, serviços ao estudante e à comunidade, extensão universitária e carreira dos profissionais formados.

Para as instituições, o credenciamento internacional é a porta ao diferencial de qualidade; para os avaliadores, oportunidade de acesso a novas culturas e interação com profissionais de outros países. Acabamos por formar uma rede de contatos no Continente.

De cada uma das 12 missões do Claep que integrei, trago uma lembrança. As incríveis instalações da Universidade de San Martin de Porres, em Lima e a personalidade de seu diretor, Johan Leuridan Huys, religioso belga, são parte dela. Leuridan assumiu a escola em 1969, quando o Sendero Luminoso, grupo de inspiração maoísta, fazia-se respeitar no meio universitário peruano e daí partiu para ações políticas. Pois o religioso ia para a porta da escola e determinava quem entrava e quem não entrava; quando o desafiavam para debates, não recusava nenhum. Levou pares de anos para pacificar o meio acadêmico (o Sendero Luminoso só perdeu protagonismo a partir de 1992).

Da Universidade de Santíssima Concepcion (Chile), resta-me a visão dos estragos provocados pelo terremoto de 2010 que atingiu esta cidade, distante 500 quilômetros de Santiago.

Nenhuma das recordações, entretanto, supera as lembranças de Bucaramanga, na Colômbia. Pelo cronograma do Claep, o auto estudo das postulantes ao credenciamento é conferido pelo chefe do grupo de avaliadores, em uma visita preliminar. Ocorre entre seis a quatro meses da inspeção em equipe, com tempo para eventuais correções. O grupo de avaliadores, entre três e cinco membros, tem pelo menos um jornalista – os demais podem ser acadêmicos – e um deles deve ter experiência comprovada em avaliação. Em Bucaramanga o experiente era eu e havia um jovem professor argentino como estreante.

BUCARAMANGA – A 400 quilômetros de Bogotá, no norte da Colômbia, é capital do departamento de Santander, tem 520 mil habitantes. Em 1999, guerrilheiros sequestraram um voo da Avianca, que ia para Bogotá, e mantiveram reféns seus 35 passageiros e cinco tripulantes. Foram libertados com pagamento de resgate. Na mesma região, três engenheiros da Odebrecht também haviam sido sequestrados. (Foto: Arquivo Pessoal)

Em uma segunda-feira, embarquei cedo no voo JJ8016 da TAM, para Bogotá e, de lá, no AV 9466, da Avianca, para Bucaramanga. Às 10 da noite estava no hotel Cabecera Country, para o primeiro contato com os colegas de equipe. Há sempre uma reunião preliminar para nos conhecermos e distribuir trabalho. Nos dois dias seguintes a equipe cuida da investigação e, ao final do terceiro dia, redige o relatório que, na manhã seguinte, será entregue ao reitor da universidade.

Investigação apurada, reunimo-nos na noite de quarta-feira para o texto final. Trabalho concluído, passamos a ler em conjunto. Pois não é que o jovem professor argentino, incumbido de apurar duas das sete normas do Claep, decidiu recusar o credenciamento! E não havia o que – ou quem – o convencesse a rever posição. Não aceitava nenhum dos argumentos, fosse que os números estavam corretos ou que era necessário avaliar diferenças entre Bucaramanga e Buenos Aires, sua cidade.

Decide intervir:

Meus caros, já que a posição dele é irreversível, precisamos montar uma estratégia de retirada. Estamos em plena selva colombiana, floresta que esconde boa parte dos milhares desaparecidos no país. Mulher, filhos e netos me esperam no Brasil e eu não posso virar um número na guerra do narcotráfico. Imagino o que acontecerá conosco, depois de comunicar a recusa do credenciamento: em cinco minutos aparecerá uma patrulha das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Assim, proponho que atrasemos a entrega do relatório para a tarde de amanhã, ele (o professor argentino) irá sozinho se avistar com a direção da universidade e nós já teremos embarcados de volta”.

Os números são controversos, mas registra-se que 39.058 pessoas foram sequestradas na Colômbia, durante a guerra civil entre Farc e governo. Por seis anos (2002-2008), a senadora Ingrid Betancourt permaneceu em cativeiro. Ela foi libertada, com outros quatro reféns e vive hoje na cidade britânica de Oxford. Caiu no ostracismo, depois que passou a reivindicar indenização de 5 milhões de euros (R$ 21,8 milhões) do governo colombiano, pela suposta responsabilidade estatal por seu sequestro.

À minha intervenção, os colegas de equipe se entreolharam e fizeram um sinal de concordância. Às duas da tarde do dia seguinte, sexta-feira, estávamos todos no aeroporto de Bucaramanga para o voo AV 8579 da Avianca, rumo a Bogotá. O relatório fora entregue, credenciamento aprovado.

Abraços do

Chico

FLAGRANTE DO SÉCULO XX
NÁUTICO – Era assim o Clube Náutico Mogiano, em meados da década de 1950. Fundado em 1933, às margens do Rio Tietê, permaneceu uma agremiação exclusiva de lazer náutico, com trampolim sobre o Rio, um alambrado de madeira (coxo) que fazia as vezes de piscina, boiando no Tietê, uma rústica sede sobre pilotis, para enfrentar as cheias e alguns chalés de associados. Praticava-se remo.

GENTE DE MOGI
MÉDICO – Reumatologista formado pela Universidade de São Paulo, Castor Jordão Cobra chegou a Mogi como docente da recém-criada Faculdade de Medicina da UMC e logo assumiu a diretoria da escola, onde hoje é homenageado com o nome conferido a um prêmio no Congresso Médico Universitário. Também a uma rua da Cidade, no bairro do Ipiranga. É autor, entre outros, do livro “Norma de Observação Clínica”. Na década de 1960 era colaborador assíduo da Revista Brasileira de Medicina. Foi um dos fundadores, em 1953, da Sociedade Paulista de Reumatologia.

O melhor de Mogi

Diga-me com quem andas e te direi quem és”

O pior de Mogi

Diga-me com quem andas e te direi quem és”

Ser mogiano é….

Ser mogiano é ter ido a velório, quando este funcionava no Casarão do Carmo. Também foi churrascaria, até de ser desapropriado, em meados da década de 1980 (prefeito Antônio Carlos Machado Teixeira).