CIRCUITO

Bióloga Nadja Soares de Moraes fala sobre o empenho necessário para a preservação ambiental

Nadja Soares de Moraes: Mogi descarta 95% do óleo usado no rio. (Foto: Eisner Soares)
Nadja Soares de Moraes: Mogi descarta 95% do óleo usado no rio. (Foto: Eisner Soares)

Quando ingressou na faculdade de Biologia, Nadja Soares de Moraes não queria se limitar ao trabalho acadêmico. Por isso, quando ainda era estudante fundou uma ONG chamada Bio-Bras, que atua na preservação ambiental em todo o Alto Tietê, principalmente em Mogi das Cruzes. Um dos projetos da entidade é o Renove, que consiste em coletar e dar destino correto ao óleo de cozinha usado. Por mais que já sejam mais de 400 os pontos de coleta do resíduo na região, nesta entrevista ela afirma que menos de 5% do óleo da cidade é descartado de maneira ideal, o que causa prejuízos incalculáveis ao Rio Tietê e à natureza de modo geral.

Como você avalia a preocupação ambiental em Mogi das Cruzes?

A educação ambiental no ensino formal, principalmente nas escolas fundamentais, é muito boa na cidade. Meninos e meninas na faixa dos quinze anos têm total consciência dos problemas ambientais, da coleta seletiva. Mas uma coisa é saber e outra é agir. A iniciativa privada tem ajudado de certo modo, devido a multas e fiscalizações, mas a população ainda precisa se engajar com a coleta seletiva em geral. Em relação a equipamentos, hoje temos áreas de lazer e contato com a natureza que antes não existiam. A prefeitura vem melhorando, mas ainda falta muita coisa. A poluição das águas e o desmatamento são as principais questões do município, que está cada vez chegando mais perto das serras do Mar e Itapeti. E estes são gargalos de responsabilidade da administração pública.

O que despertou seu engajamento com a proteção da natureza?

Na faculdade tinha interesse em fazer pesquisas, principalmente na questão de reflorestamento e outros pontos ligados à ecologia. Eu fazia parte do Diretório Acadêmico do curso de Biologia e comecei alguns projetos com este grupo, que era formado por 12 pessoas. Vínhamos da Eco-92, que aconteceu no Rio de Janeiro e definiu as principais questões ambientais da época, como o aquecimento global, ainda pouco falado. Também havia o desmatamento da Mata Atlântica e Amazônia, mas surgiam ali as primeiras diretrizes e políticas públicas, então nos interessamos em fazer algo mais.

Foi a partir deste interesse que surgiu a Bio-Bras?

Sim. Como Diretório Acadêmico começamos a trazer pesquisadores para dar palestra e levar as pesquisas para dentro de escolas, fazendo um trabalho de ações e mutirões. Mas em 1997 houve uma mudança na reitoria da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC) e não era mais permitido que alunos fizessem trabalhos na comunidade utilizando o nome da instituição. Então surgiu a necessidade de fundar uma ONG.

Qual o objetivo da ONG?

Trabalhamos pesquisa e educação voltada para o meio ambiente. A ideia principal é popularizar tudo o que é discutido nas academias e universidades, ou seja, tudo o que há de conhecimento técnico e científico. Porque não se consegue trabalhar sem o engajamento da população.

De que maneira vocês popularizam o conhecimento?

Entramos muito forte com a metodologia da educação ambiental a partir dos principais temas. Inicialmente trabalhamos a questão do aquecimento global com palestras e chegamos a fazer inclusive uma peça de teatro para sensibilizar as pessoas. Trabalhamos também em escolas de Mogi, Suzano e Poá. Nosso foco é mostrar para a população o que está acontecendo. Hoje temos internet, mas quando começamos ela basicamente não existia. O que se tinha de informação era muito pouco, apenas o que passava na televisão em canais abertos.

Como era o cenário desta época, ou seja, do final da década de 1990?

A gente lidava com o problema da coleta seletiva, a exemplo do que acontecia nos trens, que chegavam em Mogi cheios de lixo, principalmente latas de refrigerante e cerveja, que também se acumulavam ao longo da estrada de ferro. Ainda não havia valor comercial para estes itens, e nascia em Poá a primeira cooperativa de catadores. Também tínhamos outras questões, como a poluição do Rio Tietê, a perda da biodiversidade por meio da Mata Atlântica e as queimadas.

O que mudou de lá para cá?

Eu diria que neste tempo houve uma mudança de consciência e sensibilização, o que é muito interessante. As pessoas passaram a gostar dos pets, por exemplo, quando antes ninguém ligava para cachorros largados na rua ou gatos machucados. Resumindo estes vinte e poucos anos, acho que a diferença é que hoje as pessoas sabem o que acontece. Ninguém pode mais falar que não sabe. Todo mundo tem conhecimento do problema ambiental, a questão das águas, o aquecimento global, que agora se sente na pele, por meio das mudanças climáticas. Antes era coisa de “eco-chato”, mas hoje a população convive com os efeitos.

Além dos trabalhos de conscientização, a Bio-Bras também tem outros projetos?

Sempre tivemos projetos de recuperação de córregos e rios, replantio de mata ciliar, limpeza e proteção de áreas e campanhas contra tráfico de animais, sempre por meio de trabalho voluntário. Mas também tivemos alguns projetos patrocinados, como o de Recuperação Ambiental da Bacia do Rio Tietê (Renove), para o qual fomos buscando parcerias porque precisávamos de uma certa logística para realizar a coleta de óleo de cozinha usado.

De onde veio a motivação para criar o Renove?

Lançamos este programa em 2008, quando éramos responsáveis pela gestão da Ilha Marabá, mas a pesquisa começou dois anos antes. Fazíamos coleta seletiva e começamos a receber ligações de pessoas que queriam saber onde destinar o óleo de cozinha usado. Fomos pesquisar e não achamos nada. Não havia um destino ou empresa que coletasse. Somente existia a cultura dos mais antigos, que faziam sabão com o óleo, mas era muito restrito. Aliás, não é recomendado fazer sabão desta maneira, pois é uma prática perigosa e acaba enchendo o rio de espuma da mesma maneira.

Como funcionou esta pesquisa?

Colocamos alunos universitários e de cursos técnicos para fazer levantamento de dados e analisar qual era o impacto daquele resíduo no meio ambiente. Até então não havia estudos deste tipo, e não se sabia o que poderia ser feito com o óleo além do sabão. Neste processo fizemos entrevistas com comerciantes e donas de casa, que alegaram descartar na pia ou no bueiro por não saber o que fazer. Na verdade as pessoas não sabiam dos riscos ambientais, e quando os explicamos elas começaram a nos incentivar a coletar o material. E foi o que fizemos, ainda sem ter um destino exato.

Neste momento inicial, onde o óleo era armazenado?

No quintal da minha casa. Cheguei a ter lá dois tambores de 200 litros, até que conseguimos, com muito custo, uma parceria com uma empresa de São Paulo que coletava os resíduos da cozinha da Santa Casa de Misericórdia de Mogi das Cruzes. Era uma indústria que coletava para fabricação de fixadores, vernizes e tintas de parede. Nessa altura já tínhamos noção do tamanho do impacto no Rio Tietê, e percebemos que podíamos fazer com que as pessoas colaborassem para a situação das águas da região, evitando lançar mais óleo nas pias. E os números eram gigantescos. A Organização Mundial da Saúde (OMS) divulga que cada casa descarte aproximadamente 1/2 litro de óleo por mês. Fazendo uma estimativa, na época Mogi lançava irregularmente 45 toneladas do resíduo a cada mês.

Como se deu o crescimento do projeto?

Montamos o projeto para dar uma alternativa para quem não tinha onde colocar o óleo usado, então logo pensamos em criar eco-postos, ou seja, pontos de coleta em espaços públicos. Iniciamos com sete na cidade, e hoje temos mais de 400 espalhados em todo o Alto Tietê. Inclusive atualmente recolhemos o material em restaurantes e hotéis e existem outros grupos fazendo o mesmo. Coletamos em média 8 mil litros por mês, sendo que praticamente cinco mil são de Mogi. No entanto, este número não representa nem 5% de tudo o que é descartado.

Isso quer dizer que mais de 95% do óleo da cidade é descartado irregularmente – um número preocupante. O que fazer para que a adesão aumente?

A tendência é que cada vez uma quantidade maior seja coletada. O que a gente tem feito hoje é ampliar a divulgação do problema do óleo. Não dá para sair dando palestras sempre, mas temos material de comunicação e vídeos que os professores pode trabalhar em sala de aula. Afinal, na maioria dos lares é a criança que faz a mudança.

Qual o destino do óleo recolhido?

Não existe reciclagem que torne o óleo novamente próprio para o consumo humano. Existem indústrias que até fazem ração animal com ele, mas há pesquisas que mostram impacto negativo disso na saúde dos bichos. Então 90% do óleo que recolhemos é vendido para uma empresa intermediária, que faz a triagem e limpeza e o destina para a produção de biodiesel da Petrobras. Já os 10% restantes são utilizados para desmoldantes e produtos do gênero.

É possível traçar um perfil de quem colabora com o Renove?

Cerca de 75% da participação vem das mulheres, por conta do óleo ser um resíduo de culinária, e ainda são elas que cozinham em muitos lares. A maior parte do material é depositado nos eco-postos, mas temos muitos parceiros também, 150 condomínios, além dos restaurantes e hotéis.

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