CONSELHO RELIGIOSO

Bispo dom Pedro Luiz Stringhini recomenda repensar o valor da vida durante a quarentena

Dom Pedro Stringhini diz que a população tem de superar o sofrimento e aprender com isso
Dom Pedro Stringhini diz que a população tem de superar o sofrimento e aprender com isso

A quaresma, sempre proposta pela Igreja Católica como momento de reflexão, neste ano é acompanhada por um cenário que devido à pandemia do novo coronavírus (Covid-19), segundo o bispo dom Pedro Luiz Stringhini, exige esforço ainda maior das pessoas para que reforcem a fé, sejam solidárias, tenham esperança e repensem o valor da vida. Diante da quarentena para prevenção à disseminação da doença, há 15 dias as missas e demais celebrações são realizadas pelos padres e uma equipe reduzida de auxiliares no altar, sem público, e transmitidas pela internet ou acompanhadas por emissoras de TV. Hoje, Domingo de Ramos, e em todos os rituais da Semana Santa, como a cerimônia do Lava-Pés, a vigília Pascal e outros que relembram a morte e ressurreição de Jesus Cristo, não será diferente. Em entrevista a O Diário, o líder religioso da região que pela primeira vez celebra a Páscoa desta forma, analisa a atual crise mundial, defende o isolamento social e destaca: “A vida sempre em primeiro lugar. Ela é o bem maior”. Confira:

Hoje a Igreja Católica comemora o Domingo de Ramos. Diante do novo coronavírus, como serão as celebrações este ano?

Tudo já tem sido diferente há 15 dias, com missas transmitidas pela internet, celebrações mais reservadas, sem público e com a participação apenas de alguns auxiliares dos padres. Neste Domingo de Ramos, além das missas pela internet, haverá um sobrevoo de helicóptero pela cidade com o monsenhor Robson (Antônio Robson Gonçalves, vigário-geral da Diocese de Mogi), levando o Santíssimo, o ostensório com a hóstia consagrada, e o padre Dorival (Aparecido de Moraes), que é devoto de Nossa Senhora Rosa Mística, levando a imagem dela. Eles vão embarcar às 11 horas na área do Corpo de Bombeiros e farão o sobrevoo pela cidade para abençoar o povo e rezar pedindo o final da pandemia.

Qual a avaliação das transmissões de missas e outras celebrações da Igreja pela internet?

Infelizmente temos que fazer assim por causa das orientações do governo e das equipes de saúde. Mas tem dado certo, até com bons resultados, porque as pessoas estão aprendendo a acompanhar as atividades online. Os mais idosos nem sempre veem pela internet, mas em geral pelos meios de comunicação, como as várias TVs católicas. Temos em Mogi, no centro, a Igreja na Mídia, que presta um importante serviço, mas cada padre tem seu jeito de celebrar, com pessoas que os ajudam na transmissão.

É a primeira vez que o senhor celebra a Páscoa desta maneira?

Sim, nunca tinha passado por isso. A Páscoa é um momento que concentra muita gente. Temos a procissão do Domingo de Ramos que sai da Praça da Marisa (Largo do Rosário), aquela que sai do Carmo, o Lava-Pés, a via sacra… Tudo isso não acontecerá. As cerimônias oficiais da Igreja ocorrerão de forma resumida, apenas com o celebrante e poucos auxiliares, sem público. No Domingo de Ramos, sempre há a procissão e a missa. Desta vez será só a missa. Na Sexta-feira Santa, tem a cerimônia das 15 horas e a procissão da noite, que neste ano não acontecerá. Já a cerimônia da tarde será de modo restrito. Teremos só mesmo aquela liturgia oficial. Aquilo que é devocional, que diz respeito à devoção do povo e é mais popular, por sinal, será suprimido. E mesmo nesta liturgia oficial, na Catedral, por exemplo, haverá 10 a 12 pessoas no máximo, contando quem preside e os auxiliares, como ministros, leitores, cerimonialistas e alguém encarregado pelo canto. O restante vai acompanhar pela internet. E para quem não for possível acompanhar a Catedral ou sua paróquia, há as celebrações na Rede Vida, TV Aparecida, Canção Nova… Graças a Deus temos estes meios de comunicação, que devemos valorizar mais do que nunca neste momento.

Como lidar com este período de isolamento imposto pela quarentena?

O mais difícil é para quem não tem como fazer o isolamento. Fazê-lo não é fácil, mas quando a gente pode fazer o isolamento, temos que agradecer a Deus. E este povo que não pode fazer o isolamento, precisa pegar ônibus e ir para o trabalho? A situação é sempre mais difícil para os mais pobres.

E como o senhor vê esta questão junto às camadas menos favorecidas da sociedade, como por exemplo as pessoas em situação de rua?

No caso de Mogi, a Assistência Social da Prefeitura está abrindo até um abrigo a mais dos que já existem, em parceria com a Abomoras (Associação Beneficente Onde Moras). O prefeito (Marcus Melo) e a secretária Neusa (Marialva, de Assistência Social) estão bem atentos. Há ainda o Fundo Social de Solidariedade, que recolhe mantimentos, assim como a Catedral de Santana, ou seja, é o momento da solidariedade, com todo mundo tentando se ajudar e ajudar ao próximo. Não precisa desespero, sair comprando tudo no supermercado, fazer estoques. Uma expressão da solidariedade é não ser desesperado e achar que tudo tem que estar nas próprias mãos.

Estamos na quaresma, momento em que a Igreja Católica já propõe reflexão. Com a pandemia da Covid-19, as pessoas devem refletir principalmente sobre quais temas?

Uma reflexão que certamente muitas já estão fazendo é sobre a própria vida e seu estilo. Com uma certa parada de aviões e carros, por exemplo, o ar e as águas estão ficando melhores, as estrelas brilham mais, ou seja, vamos ter que sair disso com um propósito de voltar um pouco, ter um estilo de vista mais sóbrio, menos consumista e corrido. E apreciar a presença das pessoas e da natureza, cuidando mais delas.

Qual a explicação da Igreja para este momento? É algum castigo, o fim do mundo ou alguma outra explicação?

Não olhamos como castigo e nem como fim do mundo. Se for, pelo menos, não estamos sabendo. A Igreja é bastante racional de saber que é consequência do nosso modo de vida mesmo, que ficou muito frenético e causou tanta coisa, como isso também, que ninguém imaginava. É melhor olhar as coisas do ponto de vista natural e humano. Mais do que jogar nas costas de Deus, vamos olhar para nós mesmo e ver como vivemos, estamos vivendo e como queremos viver daqui para a frente.

Este isolamento, ao mesmo tempo em que distancia as pessoas de modo geral, aproxima mais os pais de seus filhos. É o momento de viver mais esta relação?

Não tenha dúvidas que quem puder deve aproveitar este momento para viver mais a família e redescobrir o seu valor, o papel de cada membro, a diversidade e a beleza dentro da família e do lar. Se pudermos aprender mais sobre isso é válido. Agora, claro que não deixa de ser um momento assustador porque este é um vírus agressivo, invisível, rápido e tem tudo para assustar porque não sabemos onde ele está e como fugir. Mas temos que aprender a conviver com isso também.

Qual a importância da fé neste momento?

A fé é importante em todos os momentos, mas principalmente neste, porque ela nos faz pensar e refletir. A gente se sente impotente, ou seja, a limitação fica mais evidente. Sabemos a nossa limitação, mas no dia a dia, nem nos lembramos disso. Em um momento deste, nossa pequenez e limitação ficam muito evidentes e, claro, quando nos percebemos pequenos e frágeis, recorremos a quem é maior e forte, que é Deus. Sem dúvida que a fé vai ajudando na superação, é reforçada e voltaremos diferentes depois de tudo isso porque o sofrimento amadurece e ensina muito. Os valores que temos nos nossos corações, nas novas vidas, começam a ser ressaltados.

Como o senhor avalia o comportamento do presidente da República, Jair Bolsonaro, diante da pandemia?

Ele tem ficado muito isolado e nem dá para dizer que o governo dele é assim. O próprio governo é diferente. O ministro da Saúde (Luiz Henrique Mandetta) tem postura diferente e nós e a população em geral estamos seguindo as orientações do Ministério da Saúde, do Governo do Estado e dos governos municipais, que procuram agir com sensatez. Certamente, também não estão gostando de dizer para todo mundo ficar parado em casa, mas entendem que é para o bem futuro.

Quais reflexos o senhor prevê para a economia do país?

É um momento que dá para aguentar. Se for um mês, que seja, a economia se reconstrói. Também, quando se fala de economia, estamos falando de economia para quem? A economia de quem vai ficar prejudicada? É a economia do povo ou a do mercado financeiro, dos bancos e dos grandes? E é louvável que se implementem medidas como esta que aumenta os participantes do Bolsa Família e a ajuda que deve ser liberada. Os governos têm que estar preparados porque é para isso que o povo trabalha e paga imposto, para ter este retorno no momento que precisar. Então, esperamos que isso de fato venha. E devemos sempre lembrar que, independentemente dos reflexos na economia, a vida está sempre em primeiro lugar. Entre ter quatro pares de sapato ou um só e viver, claro que é muito melhor viver. Assim como é preferível não ter carro ou ter um em vez de dois, mas estar com saúde. A vida é o bem e o valor maior.

Com as missas transmitidas online, sem a oferta dos fiéis, a vida econômica da Igreja também sente o reflexo da pandemia?

Sim, já estamos sentindo e precisamos fazer cortes, reduzir custos, paralisar obras que estavam sendo realizadas porque a Igreja como instituição está no rol das médias e pequenas empresas e sente os mesmos efeitos. Temos funcionários nas paróquias, que precisam receber, há a conta de luz, água e outras. É um impacto na economia das paróquias e da Diocese também. Mas a vida é o bem e o valor maior.

O senhor prevê que esta situação persista por quanto tempo?

Não tenho a mínima ideia. O que se tem é o que as autoridades de saúde dizem de que o isolamento social não termina no dia 7 de abril, como era previsto, mas tudo indica que se seguirá pelo mês todo. Isso é o que está sendo prospectado e o que estamos entendendo. Temos que contar com um mês de abril bem diferente, mas sempre com esperança, de que estamos em um momento de sofrimento, que temos que superar e aprender com ele. E isso tudo vai passar.


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