CIRCUITO

Blocos são a tendência do Carnaval mogiano, diz Mateus Sartori

Foto: Elton Ishikawa

Este é o 8º Carnaval de Mateus Sartori como secretário municipal de Cultura. Em todo este tempo, o arquiteto e músico observou muitas mudanças, como o enfraquecimento do desfile na Avenida Cívica e o crescimento e respeito ao Carnaval de Rua, representado por blocos, que neste ano são 13. Nesta entrevista, Sartori mostra o que, em sua visão de gestor e também de artista, contribui para o cenário atual, marcado pela diversidade cultural e pela falta de relacionamento entre as escolas de samba e a comunidade.

Qual é a expectativa para o Carnaval de 2020, que já está acontecendo?

É natural dizer que no passado já tivemos o Carnaval de Rua, mas este é o primeiro “oficial”, com apoio do poder público aos blocos, que são responsáveis pelos seus circuitos. Então é quase que a volta desta memória. A gente está ansioso, porque vemos o Carnaval como uma festa muito democrática, que possibilita que pessoas tenham momentos de diversão, de extravasar, de ir para a rua e se divertir do lado de pessoas diferentes que estão lá com o mesmo objetivo.

Quais são as características tradicionais da folia mogiana?

No passado eram os blocos na rua, como o Ki-Kalor e o Ki-Frio. Não tenho muitas referências históricas para falar com propriedade, mas sei que o Carnaval de Rua já acontecia, e depois os blocos foram virando escolas de samba e passamos a ter os desfiles, com muitas escolas. Aliás, me recordo do período em que eu morava na Vila Natal, tinha uns 15 anos, e desfilava em duas ou três escolas de samba da cidade. Era um tempo em que as escolas saíam com mil integrantes. Tudo era mais simples, mas a comunidade estava presente.

A que você atribui a volta dos blocos, que são 13 neste ano?

Na verdade eram 15, só que dois desistiram. E sei de vários outros que vão às ruas de modo não oficial. Esse movimento vem do Carnaval de Rua que está crescendo no país como um todo. São Paulo já tem o maior do Brasil em número de blocos, e isso acaba fomentando, incitando a vontade nas pessoas de criarem os seus blocos. E tem muitos que nascem muito na brincadeira e de repente viram tradição. Eu mesmo penso em fazer um ano que vem, porque acho gostoso ter uma temática e brincar em cima disso.

Por que os bloquinhos movimentam tanta gente?

Porque eles têm muita diversidade. Acho que o bloco não é só para colocar marchinha. Em São Paulo há os que só tocam rock, tem os de música brega, tem os de música eletrônica. O legal é isso. E percebo que podemos melhorar aí para o próximo ano, se continuar tendo essas programação. Afinal, a primeira coisa é a característica de um bloco. Temos o Bloco Mogi das Queens, por exemplo, que poderia convidar pessoas a irem maquiadas. Se a Secretaria de Cultura colocar este tipo de detalhes na comunicação, certamente ajudará a criar as características de cada grupo.

E como estão as escolas de samba?

A característica da folia foi mudando, e não é que as escolas tenham perdido força, mas deixaram de se relacionar com público do bairro. As que tem espaço físico dialogam mais fácil com a comunidade, e as que não tem quadra, ainda que não necessariamente precisem de uma, tem mais dificuldades, pois dependem da rua. Mas não acho que essa é a desculpa. Os grupos podem fazer ações de formação dentro das escolas de ensino médio do bairro, além de promover o produto cultural fortíssimo que são as apresentações de bateria show para festas, além de muitas outras atividades.

Mas e a participação na produção, como na costura de fantasias? Isso continua?

Muito pouco, mas ainda tem. Boa parte do material é encaminhado de outras agremiações e apenas finalizado nas escolas, o que não tem problema nenhum e gera a reciclagem. Mas algumas ainda mantêm este costume, e para fazer isso é preciso ter a presença da comunidade, como numa quadra que fui recentemente e vi pessoas de todas as idades ajudando a costurar e colar. Isso é emocionante e faz parte do Carnaval.

O que a Secretaria de Cultura faz para ajudar esta relação das escolas com a comunidade?

No regulamento do Carnaval, para receber parte da verba a escola tem que fazer pelo menos quatro eventos que dialoguem com a comunidade, para estimular o contato com as pessoas. É preciso que os líderes dos grupos tenham espírito empreendedor, mas o que vemos em muitos casos é que os envolvidos estão acostumados a pensar carnaval somente como carnaval. Ou seja, esquecem que os eventos podem ser feijoadas e outras coisas, até mesmo reforço escolar dentro das sedes.

O que mais pode ser feito?

Temos duas oportunidades na cidade, o Programa de Fomento à Arte e Cultura (Profac) e a Lei de Incentivo à Cultura (LIC), sendo que esta última está completando quatro anos e nunca recebeu um projeto de uma escola de samba. Ou seja, ninguém aproveita das ferramentas que tem. Dependem só do dinheiro do poder público, que é pouco. A exceção, neste ano, é a Unidos da Vila Industrial, que agora se inscreveu para o Profac, está habilitada como território e tem grandes chances de ser contemplada para receber R$ 60 mil para atividades ao longo do ano. E o projeto não tem nada ver com carnaval, e sim com cultura, de modo geral.

Este é seu 8º carnaval como secretário.

Isso. No primeiro, em 2013, quase fui preso. Olha só que contraditório, agora estamos fazendo Carnaval de Rua, mas a gente sai de um evento com muitos problemas, que teve confusão com o Suburbloco e subiram todos para a delegacia, inclusive eu, que estava no meio para tentar administrar o conflito.

O que mudou neste tempo?

Em relação as escolas de samba, eu diria que elas estão um pouco mais profissionalizadas, porque mudou muito o uso do dinheiro público. É preciso ser bastante organizado e responsável para receber verbas, e há a prestação de contas. Já em relação ao público do desfile, acho que enfraqueceu, e a responsabilidade disso é das escolas. Não adianta nos dois meses antes do Carnaval começar a fazer ensaios e tocar até as 22 horas. Tem que pensar nisso o ano todo. E quanto aos bloquinhos, eles nunca deixaram de acontecer, mas agora contam oficialmente com o apoio da Prefeitura, que forneceu comunicação, banheiros químicos e pequenas sonorizações nas praças, além do departamento de trânsito e da Guarda Municipal.

Este é o primeiro Carnaval de Rua “oficial”, e provavelmente virão outros. Onde isso pode chegar?

A programação tem potencial para ser referência, pois temos características de cidade do interior: centro histórico bonito, praças bem localizadas, fácil acesso para a capital, litoral perto, grande rede hoteleira com mais de dois mil leitos, sistema de saúde que pode dar apoio, Polícia Militar parceira da Guarda Municipal, clima aconchegante… Vejo o Carnaval de Rua de Mogi como um enorme potencial turístico. O projeto nasce agora, mas vai se fortalecer com o tempo e tem grandes chances de colocar a cidade no circuito da folia do Estado.


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